domingo, 11 de agosto de 2019

O incontrolável da vida


O incontrolável da vida

Há tantas histórias que podem ser contadas. E cada pessoa faz brotar um manancial que não se esgota. Enquanto houver vida. E mesmo depois dela, pelas lembranças que não morrem. Tristes; alegres. Adoráveis; repugnantes. De encantos mil; as bizarras. A gente compondo, tomando parte. Como figurante ou protagonista, a jornada permite muitos enredos. Vive-se com o pé e com a cabeça, embora haja um número considerável de histórias, talvez a maioria delas, que revela o quanto a lógica faz falta. Sem ligar para as incoerências, ou, justamente, pelo nonsense de cada dia.
Esta história poderá vir a ser descartada por quem busca uma fábula, com a lição no fim. Haverá quem fique com a pulga atrás da orelha, sem entender o sentido. Já as pessoas sem tempo para nada terão muito a comentar, mesmo que tenham parado de ler no ponto final depois de sentido. Por sua vez, meninas e meninos vão pedir para que seja contada aquela do lobo que convence o criador de boi a fugir do mato.
Haverá quem a leia até o fim? Mesmo sem a substância das histórias exemplares? À falta da essência humana, mais para o adjetivo? Apesar da gaiatice do escrevinhador? Será?
Era para me levar a isso que este sujeitinho me fez perder o meu tempo neste domingo, logo num Dia dos Pais. Faça-me o favor, seu Rodrigues. Podia ter escrito uma história para dizer o quanto um pai é importante para uma família. Ache no bornal de maravilhas as palavras que tornem leve a macarronada. Vamos, conte uma da qual seja possível tirar leite de pedra.
Como quem conta um conto gosta muito de tomar parte das ações, o contador do causo encontra algo. Nesta historieta ele entra no papel de vítima. Pois sofre nas mãos, digo, nas garras dos protagonistas. Dois insetos.
Não são, assim, apenas e tão somente dois insetos. São, de acordo com a zoologia. Para merecer entrar na história, porém, os bichos são mais do que insetos, são pernilongos.
Não são, além disso, de serem pernilongos os ditos insetos, tão só e apenas pernilongos. São mosquitos de fama mundial.
Do além das fronteiras do meu quarto, vieram os dois para afligir o sono. Perdido, ao primeiro zunido. É-me insuportável o ruído. Transmite a mensagem: ó noite, tchau!
Tchau, mesmo. Nem pego no sono, o primeiro vem zunir na minha orelha. O segundo fica à espera, e vem feito o clarim da alvorada. E funciona que é uma beleza.
Para noites intranquilas? Dengue. Para gerar ansiedade? Zika. Para surtar de vez, chikungunya.
Como quem não tem paciência acaba de chinelo na mão, os olhos testemunham o azar tomar corpo. Os pernilongos torram a madrugada toda. Um, o que mora debaixo da cama, é o primeiro a zoar os tímpanos. Outro, o que mantém plantão atrás do guarda-roupa, vira meu despertador.
Citronela danada, faço a crônica terminar bem ao acabá-la naturalmente... sem mortos nem feridos.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 11 de agosto de 2019.
















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