O
incontrolável da vida
Há
tantas histórias que podem ser contadas. E cada pessoa faz brotar um manancial
que não se esgota. Enquanto houver vida. E mesmo depois dela, pelas lembranças
que não morrem. Tristes; alegres. Adoráveis; repugnantes. De encantos mil; as bizarras.
A gente compondo, tomando parte. Como figurante ou protagonista, a jornada
permite muitos enredos. Vive-se com o pé e com a cabeça, embora haja um número
considerável de histórias, talvez a maioria delas, que revela o quanto a lógica
faz falta. Sem ligar para as incoerências, ou, justamente, pelo nonsense de cada dia.
Esta história
poderá vir a ser descartada por quem busca uma fábula, com a lição no fim.
Haverá quem fique com a pulga atrás da orelha, sem entender o sentido. Já as
pessoas sem tempo para nada terão muito a comentar, mesmo que tenham parado de
ler no ponto final depois de sentido.
Por sua vez, meninas e meninos vão pedir para que seja contada aquela do lobo que
convence o criador de boi a fugir do mato.
Haverá
quem a leia até o fim? Mesmo sem a substância das histórias exemplares? À falta
da essência humana, mais para o adjetivo? Apesar da gaiatice do escrevinhador?
Será?
Era
para me levar a isso que este sujeitinho me fez perder o meu tempo neste
domingo, logo num Dia dos Pais. Faça-me o favor, seu Rodrigues. Podia ter
escrito uma história para dizer o quanto um pai é importante para uma família. Ache
no bornal de maravilhas as palavras que tornem leve a macarronada. Vamos, conte
uma da qual seja possível tirar leite de pedra.
Como
quem conta um conto gosta muito de tomar parte das ações, o contador do causo encontra
algo. Nesta historieta ele entra no papel de vítima. Pois sofre nas mãos, digo,
nas garras dos protagonistas. Dois insetos.
Não
são, assim, apenas e tão somente dois insetos. São, de acordo com a zoologia.
Para merecer entrar na história, porém, os bichos são mais do que insetos, são
pernilongos.
Não
são, além disso, de serem pernilongos os ditos insetos, tão só e apenas pernilongos.
São mosquitos de fama mundial.
Do além
das fronteiras do meu quarto, vieram os dois para afligir o sono. Perdido, ao
primeiro zunido. É-me insuportável o ruído. Transmite a mensagem: ó noite,
tchau!
Tchau,
mesmo. Nem pego no sono, o primeiro vem zunir na minha orelha. O segundo fica à
espera, e vem feito o clarim da alvorada. E funciona que é uma beleza.
Para
noites intranquilas? Dengue. Para gerar ansiedade? Zika. Para surtar de vez, chikungunya.
Como
quem não tem paciência acaba de chinelo na mão, os olhos testemunham o azar
tomar corpo. Os pernilongos torram a madrugada toda. Um, o que mora debaixo da
cama, é o primeiro a zoar os tímpanos. Outro, o que mantém plantão atrás do
guarda-roupa, vira meu despertador.
Citronela
danada, faço a crônica terminar bem ao acabá-la naturalmente... sem mortos nem
feridos.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 11 de agosto de
2019.
Nenhum comentário:
Postar um comentário