quinta-feira, 25 de julho de 2019

O Coiso

O Coiso

Esta oração que não é uma oração foi-me ditada por minha mente narcotizada. Por isso, os meus agradecimentos públicos ao doutor Atanásio Baptista e à sua assistente Marineide que a colocaram no estado de declarações incontroladas pelo censor que há em mim, pelo hábito da proximidade. Uma convivência comigo há mais de 50 anos emperra a espontaneidade, né?
Em outras palavras, para dirimir quaisquer imprecisões: as certezas cegam; os arautos da certeza ensurdecem; os acólitos dos arautos tagarelam. Assim, os erros disciplinam a mente de uma pessoa. A minha, sim. Com a presunção de que sei como sou, posto que me arrisco a dizer categoricamente quem sou. A audácia da afirmação, mais antidepressivos, ansiolíticos e os analgésicos, claro, ou estaria blefando.
Falei da mente, e só da mente. Uma vez que o corpo segue indomável, insurgente, contrário aos ditames da boa mesa, das maneiras de berço, dos talheres adequados à tainha na telha.
Muito bem, é um caminho. Mas a mente julga adestráveis as nádegas na sela. Todavia, é preciso combinar com o pangaré que a hípica aceita saltos estrambóticos, disciplinadamente de equipe. Nada de solo fora de hora, refugos inconsequentes, os coices apologéticos. Se não for assim, desgrama!, o parágrafo estará perdido.
Pois bem, penso no calhambeque do circo. É que vem junto a trupe dos palhaços. A graça é resistir pelo riso, esperando o carro ser detonado, vê-lo em pedaços. Depois, há o espetáculo a seguir, da próxima sessão, e já tem fila no guichê. O bicho? A máquina estará inteirinha, afinal, eba!, não se destrói o que vai ao chão. E o que seria da alegria das crianças se os palhaços viessem a pé? Continuariam alegres, seguiriam crianças. Isso.
Portanto, o parágrafo acima não serve.
Portanto, direto ao útil: a ladainha do tempo canta por ciclos; os ciclotímicos correm para ir a lugar nenhum; e os ciclotímidos valem-se do luar para a fotossíntese da melancolia que sentem quando o circo está na cidade, quando ele está indo embora e quando nem dá as caras por anos.
O angu?
Que coisa a gente ter de conviver com a gente mesma, sem a opção da recusa ou do mútuo entendimento. A mente faz das suas, leva o corpo à insônia com a alvorada dos infernos. Haja notícias do Mundão. Prefiro nem me aprofundar em Ormuz. Por favor, cabeça, dá um jeito nisso daí. E vou andando, tento, mas está complicado. O balanço agudo ora joga contra a parede, ora me atira contra as cordas. Cadê a joça do gongo? Nem sei se estou vindo da popa ou indo para ela. Aliás, onde é a popa? Vixe! Os rins têm pedras, tem pedras a vesícula, e nem tenho estômago para digerir tanta pedrada que tomo da moringa.
Para os urubus na corrente do meu ventre?
Água, água, água. Sim, e também peço água.
Passo à palavra de uma das minhas neuras que não picam a mula do picadeiro, o Isaías 45:7... E a opinião do Maioral?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 25 de julho de 2019.


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