Império
do sentido
A
semana promete. Mas lamento a perda de tempo com fatos exteriores à minha
vontade. Falo da dor que veio até mim e estacionou o seu carro no meu pescoço.
Sem licença para transitar por meu corpo. Sem habilitação para pilotar sua
catraia nos desvios da coluna. Por fim, com a experiência da minha pessoa dando
suporte ao papagaio que está cantando a alvorada do seu domingo.
Dizer dor não é curá-la ou anestesiá-la, é
torná-la palpável, localizável, identificá-la na palavra que a define. Dor dá o valor do significado, delimita
o raio da ação, e materializa o que o corpo sente.
Dor não é o começo da solução do físico problemático, da
carne que se faz inconformada com o esqueleto estrábico. Dor não é a causa do sofrimento, não é o dolorido a ser resolvido
com alguma medicação, que não há tarja que retrate o alcance do que os nervos
nem suportam ouvir o nome.
Dor dá nome à substância do que é feita a sensação. A dor está
contida na palavra dor, não é o dolorido
nem o sofrimento. Embora o dolorido esteja na experiência, torne mais
perceptível o sofrimento a que está submetida a pessoa com dor.
Dor não é atalho, não é desvio, é foco, é incisão no real, é
ilha nas realidades de toda sorte. Dei azar, ela quis brincar em mim, e veio
com tudo.
Pois em
mim, nesta semana que começa por este domingo, e não por outro qualquer, a dor em
carne viva não me engana em suas pretensões. De vir e jogar âncora nas minhas
costas. De chegar de mala e cuia para explorar o fundo da enseada. De tomar
posse das águas, que todo oceano tem de reserva as maravilhas de pré-sal.
Dor é o fim da confusão, é a metáfora que lateja, é o ponto
que pode ser rastreado por ressonâncias. Se pode padecer das influências do
satélite natural da Terra, sabe de si por mim a reclamar da sua intensidade.
O mais
é esqueleto, ossos, enervações, musculatura, carne torta no retilíneo, lombada
não catalogada na reta, é curva que não escapa ao radar dos desregramentos.
Mesmo
com a vogal marcada, brasileira na vocalização, na entoação que acentua o
detalhe; mesmo sendo dita com a cor da praia onde moro; mesmo com a areia que a
brisa traz, dor a gente sente. Ou
não faz sentido pronunciá-la sem encarnar no que se diz a dor que constrange a dizê-la
em alto e bom som.
O que
sinto é que me leva a dizer do meu modo ─ dor.
Então,
para devolver ao mar o que me veio com a prosa, dor é o sentido que o corpo
experimenta, vivencia, dá realidade à existência, não há dor em essência, como abstração.
Porém, dor torna lógico o que me
individualiza, põe a minha condição no que expresso, torna pessoal o que o corpo
está passando.
Dor não vulgariza, não banaliza, não torna público o que é
íntimo, privativo, incomunicável. Ao dizer dor,
a dor é minha, é intransferível.
Como a
dor não mente, resisto o quanto posso, nem acuso o sal do patético, pois não
ponho no papel a lágrima. Eu digito.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 18 de agosto de
2019.
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