domingo, 18 de agosto de 2019

Império do sentido


Império do sentido

A semana promete. Mas lamento a perda de tempo com fatos exteriores à minha vontade. Falo da dor que veio até mim e estacionou o seu carro no meu pescoço. Sem licença para transitar por meu corpo. Sem habilitação para pilotar sua catraia nos desvios da coluna. Por fim, com a experiência da minha pessoa dando suporte ao papagaio que está cantando a alvorada do seu domingo.
Dizer dor não é curá-la ou anestesiá-la, é torná-la palpável, localizável, identificá-la na palavra que a define. Dor dá o valor do significado, delimita o raio da ação, e materializa o que o corpo sente.
Dor não é o começo da solução do físico problemático, da carne que se faz inconformada com o esqueleto estrábico. Dor não é a causa do sofrimento, não é o dolorido a ser resolvido com alguma medicação, que não há tarja que retrate o alcance do que os nervos nem suportam ouvir o nome.
Dor dá nome à substância do que é feita a sensação. A dor está contida na palavra dor, não é o dolorido nem o sofrimento. Embora o dolorido esteja na experiência, torne mais perceptível o sofrimento a que está submetida a pessoa com dor.
Dor não é atalho, não é desvio, é foco, é incisão no real, é ilha nas realidades de toda sorte. Dei azar, ela quis brincar em mim, e veio com tudo.
Pois em mim, nesta semana que começa por este domingo, e não por outro qualquer, a dor em carne viva não me engana em suas pretensões. De vir e jogar âncora nas minhas costas. De chegar de mala e cuia para explorar o fundo da enseada. De tomar posse das águas, que todo oceano tem de reserva as maravilhas de pré-sal.
Dor é o fim da confusão, é a metáfora que lateja, é o ponto que pode ser rastreado por ressonâncias. Se pode padecer das influências do satélite natural da Terra, sabe de si por mim a reclamar da sua intensidade.
O mais é esqueleto, ossos, enervações, musculatura, carne torta no retilíneo, lombada não catalogada na reta, é curva que não escapa ao radar dos desregramentos.
Mesmo com a vogal marcada, brasileira na vocalização, na entoação que acentua o detalhe; mesmo sendo dita com a cor da praia onde moro; mesmo com a areia que a brisa traz, dor a gente sente. Ou não faz sentido pronunciá-la sem encarnar no que se diz a dor que constrange a dizê-la em alto e bom som.
O que sinto é que me leva a dizer do meu modo ─ dor.
Então, para devolver ao mar o que me veio com a prosa, dor é o sentido que o corpo experimenta, vivencia, dá realidade à existência, não há dor em essência, como abstração. Porém, dor torna lógico o que me individualiza, põe a minha condição no que expresso, torna pessoal o que o corpo está passando.
Dor não vulgariza, não banaliza, não torna público o que é íntimo, privativo, incomunicável. Ao dizer dor, a dor é minha, é intransferível.
Como a dor não mente, resisto o quanto posso, nem acuso o sal do patético, pois não ponho no papel a lágrima. Eu digito.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 18 de agosto de 2019.


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