domingo, 21 de julho de 2019

Às voltas com o mundo


Às voltas com o mundo

Com uma montanha-russa perturbadora, indo de trinta e três a quarenta graus numa sequência de loopings; com um céu carregado de paroxismos a adensar o turbilhão mental; com a saliva acre a temperar o fim do mundo. Ou seja, estive para poucos amigos à noite. Vou logo avisando, esta crônica não é suave, não é bonita, não passa os nossos dias pela lente da bonança. Afinal, o tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
Há a embaixada em Washington; há governadores que só reclamam; há árvores abatidas dadas como vicejantes; há uns filmes de mulher pelada; há a cotação do dólar atrelada a tudo isto. Ó Umberto Eco, onde está que não responde?
A realidade é uma maçaroca de informações úteis e inúteis, alegres e tristes, velhas e novas, uma mistureba que o fígado nem dá conta de digerir, sobrando para a vesícula.
A dita cuja que em mim engendra um bicho atroz que me acaricia só raspando as garras. Num único ponto. Senti que a noite seria de aguda percepção do caos do mundo. Não tinha como fugir, já que o monstro é minha cria.
Tomei o medicamento para cólica biliar. Opa! Tinha alguma coisa errada. A reação emética veio de imediato. Como assim? No soro, lá no Pronto Socorro, o paliativo não me aliviara a dor? Desta vez, eis as ramificações da natureza.
O estômago estava com uma massa gordurosa enorme, daquelas que só pululam em aniversários ou em restaurante com torresmo e feijoada completa. No caso, a metade de um bolo de chocolate com cobertura e, para ter a Surfistinha inteira, a outra metade de uma baguete recheada de queijo e presunto. Maravilha!
Então, como me livrar do Minotauro se ele ia comigo para a sala e vinha junto para o quarto? Virou maratona? Indo e vindo, sem me ajeitar em decúbito dorsal nem espalhado no sofá, me cobrindo e repelindo as cobertas. O frio da madrugada era o escárnio do planeta. E o bloco de gelo ambulante tinha minha cara, não era o retrato do fantasma na amurada de Elsinore.
Sem dormir, vagando de um lado para o outro, com febre e a vista esquerda a me dizer que iria desmaiar ─ primeiro baça e depois obscurecida. Acelerei em desespero. Que lunático!
A apoplexia era tamanha. Tomava água, corria ao vaso.
Até que, horas depois do início do meu número solitário, a alvorada trouxe a cantoria dos pássaros. A vizinhança ocupava os seus postos. As notícias, ufa!, ficaram congeladas na curva improvável do espaço/tempo fora dos meus sensores.
Morfeu quis dar as caras. O Minotauro foi saindo de fininho.
Olhei no espelho quem me condena.
Agora, no abraço em que nos saudamos, a cordialidade me informa que, pelo que sinto, o pico da leitura está a trinta e seis graus, com a pressão em 12/8. As nuvens foram despachadas para o Atlântico; no porto de Paranaguá estão parados navios iranianos; temos mais de 5 milhões de pessoas passando fome no Brasil; e isso de saber viver...

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 21 de julho de 2019.

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