No
calor do momento
Admito que tenho calafrios só de
pensar. O cursor do mouse está
piscando sobre a folha de papel em branco. Já que letra a letra a coisa está
engrenando, a crônica não precisa pegar no tranco. Consigo até entrever o
caminho, e sigo por aí. Sozinho. Sem mapa e sem cantil, vou com a convicção de quem
gosta de borboletas. Isto é, vou com a fibra dos pusilânimes, dos que sonham
sem sequer tomar o café passado ontem. É que não bato ponto, não assino caderno
de presença, nem boto a digital numa bugiganga qualquer. Conforme às minhas circunstâncias,
informo a nenhuma chefia que estou no batente.
O olor...
O STF determinou que a demarcação das
terras indígenas compete à FUNAI, órgão do Ministério da Justiça. A decisão
cumpre a lei, pois, ainda e sempre, continuamos com o estado democrático de
direito.
Vou além. Penso que o índio, cuidador
nativo destas plagas, é quem poderia tomar conta das gentes que desembarcamos
na Terra de Santa Cruz de 1500 para cá.
O ponto...
Quem conta história evita a queda do
céu, de acordo com o pensamento dos nossos irmãos pré-cabralinos. Quem narra a
beleza do sol flutuando na água do rio sabe o quanto é nociva a espuma ao longo
de quilômetros do Tietê poluído. Quem diz que a onça vai dormir na barriga do
curumim depois de uma boa porção de mandioca conhece o revezamento das chuvas
com a estiagem, daí vence dias a pé para chegar onde pululam lambaris e
pupunha. Quem usa chinelo, veste calção, morre de gripe e pinta o dorso diante
da necessidade é que entende, de fio a pavio, o que significa Terra.
E eu com isso?
Tomo parte na turma dos que produzem
os gases do efeito estufa. Reconheço qual o grau de parentesco com a cambada de
motosserra que pira quando sai derrubando as árvores. E não há vergonha que faça
parar os tratores que rasgam as matas. Sem parar a destruição, satélites espiam
a derrubada das florestas. As planilhas inflacionam os custos dos linhões de
força. Molhar a mão turbina o fluxo que gera muita energia. As autoridades cortam
a fita que nos enforca. O crime, porém, é progresso, discursam paletós e
gravatas de todas as cores. Como não dá para aplaudir com as mãos no bolso nem
vaiar irá provocar a justiça, as manchetes são mesmo garrafais. Com o que a
imprensa anda ventilando, o cafezinho poderia ter sido adiado. Aliás, o copo de
plástico deveria ter sido descartado. E jogaremos torta na cara da emergência
climática? Faremos vento com discursos? Provocaremos chuva com perdigotos? Ainda
não dá para fritar ovo no asfalto? A lâmpada queima do nada? O ar-condicionado
no talo é para poder dormir em paz? Que paz?
Para colocar juízo na nossa cabeça,
precisamos de quem tenha experiência. Como o planeta é um só e não antevemos o
fim do mundo, precisamos, e não só, dar ouvido aos indígenas, ou melhor, os ianomâmis,
pancararus, crenaques, charruas...
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 04 de agosto de
2019.
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