terça-feira, 23 de julho de 2019

A insônia da vez


A insônia da vez

Por ironia da história do Brasil, só pode ser por ironia e não por alguma geringonça enraizada, lendo crônica alheia tomei consciência da relevante utilidade do tal botão da liberdade, o popular foda-se. O problema, a meu ver, está no uso massivo, como se cabível o seu uso em todas as situações, sintoma do quão tosco é quem o faz de modo tão sistemático.
Quer-me parecer que, em voga nestes dias de correntezas acachapantes, a truculência foi alçada ao posto de resolutor universal de adversidades. Uma bobagem. A liberdade, desde que Buda era Gautama, passa pela mente se situar no meio do rio, sem exagerar o balanço da canoa e sem minimizar a força da água. Mantenho o pescoço fora da lama. Então experimento a chuva, vivencio o toró, avalio-me o grau da tempestade. Não sei se terei a serenidade para ir à margem. Sei apenas que, a cada circunstância, o manual é inútil, porque não existe. Que bom, assim posso escolher ou, como me ocorre muitas vezes, deixar que minhas experiências tracem o caminho para mim. Sou quem sou porque, bem ou mal, venho decidindo em meu nome, fruto da cultura com a qual fui alimentado, agasalhado, acolhido, e até expulso. E não me dou asa porque não voo.
Mas deixar de ver as nuvens? Depois do verão, o outono.
A liberdade está no sim e no não. A todo instante.
É que o mundo dá voltas, não para quieto. O corpo também. A cabeça mais ainda, em constante movimento, bicho que não me aquieta. Daí a sensação, a percepção, a intuição. Pois não se entra no mesmo apartamento duas, três, oito, sei lá quantas vezes no dia. Nenhuma entrada está precedida por uma saída que lhe seja originária. Precede-a, sim, mas não a condiciona emocional ou materialmente. Saio um, outro volta.
O corpo conhece quando sente; sabe quando a noite presa nas roupas do dia anterior forja o despiste; entende o que nem olhos nem a língua querem dissonante, o mutismo que ignora o próprio alcance. Em silêncio, a cabeça ganha o rebolado na dança das horas. Ao pesar os momentos da vigília, a lucidez limpa o olhar, na descoberta do presente. E sem dizer que sete da noite é três da tarde, ou mesmo dizendo. Bufão.
Apesar de todo o meu esforço no sentido contrário, também conto com o fracasso para orientar as minhas maledicências. Sentido, direção; sul, norte; horizontal, vertical; patati, patatá. O ramerrão são truques, prestidigitações. Cartola, coelho, mãos e olhos. Há mecanismos variados: para mágicos de churrasco, o baralho; para os de palco italiano, nem camisa de força.
Se Parmênides ou Hamlet? O mundo e o sonho do mundo, que o corpo dá forma ao colchão mesmo flutuando.
Putz! Há 300 carreiras na nomenclatura do funcionalismo público. Discutível é a velocidade da ascensão e a pessoa receber auxílios moradia, transporte, alimentação.
Da cartola, a insônia: de quantos burocratas precisamos?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 23 de julho de 2019.

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