quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Sexo, amor?


Sexo, amor?

Sexo. Com um friozinho na barriga. O coração vem à boca pelas palavras maviosas que desabrocham com a voz melíflua. Afora os trejeitos afetados. Tanto açúcar no cérebro, o excesso afeta a mão que entrega o cartão, o meu.
Sexo. Falta chão para sentir o café derramado na calça. O enlevo que me embala, pelo perfume que nem sei qual seja, é sonho que me consome. Padeço da atenção que lhe devoto.
Sexo. Os olhos chegam a lacrimejar quando a musa entra na livraria, atrás de um presente para sua cara-metade. Como se ela, a garota dos painéis espalhados pelo Brasilzão, viesse do Olimpo para curtir a Praia do Forte. Preciso de folga.
Sexo. O choque de mil volts dá-se quando os nossos braços cometem a imprudência de uma resvaladinha ao querer pegar o pacotão de fritas na gôndola. Com a plateia contida por dois brutamontes de firma especializada, vindos do Rio. Deliro.
Sexo. Alguém teve a ideia maravilhosa de botar o último CD lançado. A divina endiabrada rebola para escapulir dali num pé. Afinal, quero os holofotes sobre a minha estafa ou não?
Sexo. Não vou ficar vendo o mesmo clipe o resto da tarde. Que o crepúsculo traga a noite que se condensa com Sangue de Coca-Cola. Quero mais é mergulhar nas histórias que me alimentam os cães da fantasia que fazem festa comigo.
Sexo. Não ligo a TV, não acesso a internet e não capitulo de celular em punho. Resisto à perdição do momento. A prioridade do instante? Avançar no capítulo que estou quase acabando.
Sexo? Sexo nada. Nada?
Amor, pega para mim aquele pacote de fritas que está ali na parte de cima? Pego, meu amor. Empurra o carrinho, a lista na mão: lado a lado. Pessoas que dividem os afazeres domésticos, curtem cerveja no gargalo, e vão de luz acesa ou apagada. Tais personagens bem poderiam viver no prédio.
Amor, e sem medo posso dizer que é amor?
Amor é o que sinto quando acordo e corro ler o que escrevi na noite anterior. Há textos que sobrevivem ao sono, capazes do sorriso sereno, encorajador. Contudo, outros há que travam mal começo a leitura com meus olhos desanuviados. A ambos, porém, preciso provar que os amo, dando a demão do legível.
Amor, e amor daqueles que contamina a gente que nem me conhece direito. Em lançamento de obra alheia, tomando como se fosse minha, me pede uma foto exibindo o livro. Por mim, é um sinal do amor.
Tem também o amor aflito, porque não fiz a solicitação de reserva. Toma as minhas pernas, controla meus pés e me faz engolir a distância de casa até o sebo. Uns dois quilômetros, por aí, venço-os num súbito. Todo esbaforido, suado. Com as ondas de cansaço e com o esgotamento dos nervos e tendões, testa-me a carne cinquentona. No entanto, o título capital para o andamento da fabricação do próximo romance ronrona no meu colo. Já posso bebericar o cappuccino. Além da capa, este amor palpita.
Amor... E quando rola sexo, então?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 01 de agosto de 2019.

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