sexta-feira, 9 de agosto de 2019

À luz da procura


À luz da procura

Como cronista, me informando e pensando a respeito, não quero me poupar do vexame de agir do modo que ajo. Muitas vezes, reconheço, nem vejo a bicicleta na contramão. Só que a minha mãe não é a responsável. Sim, preciso dar ouvidos aos conselhos de quem me quer bem. Muita gente, aliás, me pede para pôr a cabeça no lugar. Sabem como eu sou. Pelos frutos, me envergonha ter de corrigir as precipitações. Palavra, isso de desfazer equívocos, bem, coça que nem pigarro. E nem fumo.
Olha só.
Estava refletindo e, numa crônica de Martha Medeiros, veio o Sêneca falando comigo na maior intimidade. “Perguntas-me qual foi meu maior progresso? Comecei a ser amigo de mim mesmo.” Pronto! Agora, sim.
Vou parar de reclamar das dores nas pernas. Preciso mais é parar de ficar me questionando se posso retomar a caminhada. Preciso reconhecer que não é o tendão de Aquiles que anda fazendo corpo mole. Preciso colocar a saúde em primeiro lugar.
Portanto, o primeiro passo é escrever esta crônica. Logo.
Vou ouvir o que as pessoas que nunca antes tinha visto na vida têm para relatar. Afinal, gente como a gente, sabe por si quando o calo dói, a cabeça pesa e a barriga ronca. Vou parar de falar, sem nem mesmo a obrigação do minuto de silêncio.
Ou seja, o segundo passo é escutar, prestar atenção, sem a comichão do assunto para outra crônica.
Como o INPE não monitora os neurônios autofágicos, enfio o pé na realidade. Que a folhinha continue a voar as datas e as efemérides, uma depois da outra, sem dó e sem filtro. Pois?
Distraído de mim, o mundo me possibilita enxergar com os óculos de outrem. Visualizo nuvens rubras, girassóis ocres e, é óbvio, enxergo com nitidez absurda aquele que considero meu mais fiel autorretrato. Nele, seguro o cachimbo, sem o lóbulo da orelha esquerda e tenho uma barba cor-de-abóbora, ou estaria mais para anil?
Já posso voltar para frente do computador. Porque encontrei a lâmpada fluorescente para a cozinha. Isso depois de bater perna no Boqueirão, que o chuchu do momento é o tal do LED. Mas quis comprar a da minha escolha. Ponho gosto nisso.
Que cabeça!
Preciso ir à quitanda da esquina para tomar nota dos preços de legumes, verduras e frutas. A lista do que deixarei amadurecer mais uma semana? Não cabe no papo do mico-leão-dourado, o filhote único que se esconde no bolso.
Volto da rua. O sol de agosto revela os segredos, tão seguro da primavera que está agendada para setembro. Faz pose de estrela, permite-se o espetáculo do crepúsculo. O fim da tarde diz o friozinho da noite pela candura da aragem.
Cadê a blusa, hein!
Todavia o que me deixa mais amigo de mim é poder assistir a tudo isso deste lugar privilegiado, escrevendo esta visão do dia. E comendo com gosto uma ameixa vermelha, então?
Para terminar, pergunto aos meus botões:
No país do futuro, por que a quimera não voa?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 08 de agosto de 2019.

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