À
luz da procura
Como
cronista, me informando e pensando a respeito, não quero me poupar do vexame de
agir do modo que ajo. Muitas vezes, reconheço, nem vejo a bicicleta na
contramão. Só que a minha mãe não é a responsável. Sim, preciso dar ouvidos aos
conselhos de quem me quer bem. Muita gente, aliás, me pede para pôr a cabeça no
lugar. Sabem como eu sou. Pelos frutos, me envergonha ter de corrigir as
precipitações. Palavra, isso de desfazer equívocos, bem, coça que nem pigarro.
E nem fumo.
Olha
só.
Estava refletindo
e, numa crônica de Martha Medeiros, veio o Sêneca falando comigo na maior
intimidade. “Perguntas-me qual foi meu maior progresso? Comecei a ser amigo de
mim mesmo.” Pronto! Agora, sim.
Vou
parar de reclamar das dores nas pernas. Preciso mais é parar de ficar me questionando
se posso retomar a caminhada. Preciso reconhecer que não é o tendão de Aquiles que
anda fazendo corpo mole. Preciso colocar a saúde em primeiro lugar.
Portanto,
o primeiro passo é escrever esta crônica. Logo.
Vou
ouvir o que as pessoas que nunca antes tinha visto na vida têm para relatar.
Afinal, gente como a gente, sabe por si quando o calo dói, a cabeça pesa e a
barriga ronca. Vou parar de falar, sem nem mesmo a obrigação do minuto de
silêncio.
Ou
seja, o segundo passo é escutar, prestar atenção, sem a comichão do assunto
para outra crônica.
Como o
INPE não monitora os neurônios autofágicos, enfio o pé na realidade. Que a
folhinha continue a voar as datas e as efemérides, uma depois da outra, sem dó
e sem filtro. Pois?
Distraído
de mim, o mundo me possibilita enxergar com os óculos de outrem. Visualizo
nuvens rubras, girassóis ocres e, é óbvio, enxergo com nitidez absurda aquele
que considero meu mais fiel autorretrato. Nele, seguro o cachimbo, sem o lóbulo
da orelha esquerda e tenho uma barba cor-de-abóbora, ou estaria mais para anil?
Já
posso voltar para frente do computador. Porque encontrei a lâmpada fluorescente
para a cozinha. Isso depois de bater perna no Boqueirão, que o chuchu do
momento é o tal do LED. Mas quis comprar a da minha escolha. Ponho gosto nisso.
Que
cabeça!
Preciso
ir à quitanda da esquina para tomar nota dos preços de legumes, verduras e
frutas. A lista do que deixarei amadurecer mais uma semana? Não cabe no papo do
mico-leão-dourado, o filhote único que se esconde no bolso.
Volto
da rua. O sol de agosto revela os segredos, tão seguro da primavera que está
agendada para setembro. Faz pose de estrela, permite-se o espetáculo do crepúsculo.
O fim da tarde diz o friozinho da noite pela candura da aragem.
Cadê a
blusa, hein!
Todavia
o que me deixa mais amigo de mim é poder assistir a tudo isso deste lugar
privilegiado, escrevendo esta visão do dia. E comendo com gosto uma ameixa
vermelha, então?
Para
terminar, pergunto aos meus botões:
No país
do futuro, por que a quimera não voa?
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 08 de agosto de
2019.
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