quinta-feira, 18 de julho de 2019

Goles da alegria


Goles da alegria

Diante do goleiro, o atacante escolhe o canto e capricha no toque na bola, mas chuta para fora. De imediato, o que pensa o jogador? Posso arriscar. Seu coração na boca numa descarga de adrenalina. Ou seja, na próxima, não poderá desperdiçar. O jogo segue. As torcidas a favor e contra, ambas não perdoam o marrento, tiram onda quando pega na bola. O coração entende, as pernas pesam, pela espinha passa o futuro próximo. É tal o espírito que os gracejos alimentam-no intempestivo, porque ele não sabe fingir indiferença. É do tipo que apalpa o tornozelo e sente o pé na areia, imaginando a dancinha para o alambrado.
Teria como evitar o entendimento que tem de si? Vibram as notas do desespero quando o cavaco canta a solidão? Goza.
O goleiro desempenha o seu papel, fica sério ao simular a devolução da bola. Olha... Olha... É evidente que busca irritar o artilheiro que falhou, conta com a sua desestabilização, sabe que o vencerá pelos nervos. Não vai gozar, gozador?
Por excesso de preciosismo, por apostar em si contra o azar e por sua confiança inabalável na habilidade de dominar a bola e colocá-la onde bem quiser, eis que uma nova oportunidade é construída pela equipe...
A alegria de viver pode prevalecer, e outras jogadas irão ser construídas. Bolas na rede ou perdidas, isso faz parte do jogo.
É alegria de viver e não felicidade, pois nem sei dizer o que vem a ser a tal felicidade. Sempre que me vejo feliz, topo com uma pedra e tomo um capote daqueles, que estou habilitado a seguir perna de pau diante dos desafios da vida. Nem quando a preparação é intensa, com muita leitura, escrita concentrada e um tanto de reescrita, nada de finalizar com êxito merecedor de um reconhecimento duradouro. É como tomar uma garapa e achar que aquela sensação de prazer irá durar. Tomou, acabou e, nem dois passos depois, já era.
A alegria que me pega pelo riso, pelo olho no olho que não provoca conformismo nem constrangimento, é esta alegria que me leva adiante, me quer indo avante e me faz querer que os amigos avancem, não fiquem presos à beira do abismo. Como me fazem falta pessoas cuja alegria impulsiona, transforma e cria outra realidade ─ menos egoísta e mais de grupo ─ que congrega e emociona, sem os arrebatamentos dos efêmeros, sem as volatilidades torpes dos que só emulam ódio e rancor.
A alegria deseja o que o coração entende e quer, e também deseja o que a razão elabora e quer, simultaneamente, porque coração e razão amalgamados são uma coisa só.
O fim do suspense? O matador não fez gol algum.
Tomando meu chopinho, comendo umas coxinhas, dou uma de Casagrande, apenas para gozar o amigo que se imagina um Gabriel Jesus mas foi capaz de perder um caminhão de tentos na pelada das sextas. Se o grito fica fazendo cócegas entre o pulmão e a boca, é só lembrar: semana que vem tem mais.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 18 de julho de 2019.

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