Um
cabra
Porreta é quando o texto anda, seja
lido na popa ou na proa. Depois de escrito, a lanterna que o ilumina não está
nas mãos de quem escreve, nem o alcance da luz. Acaso na borrasca o texto
funciona como um farol? Que seja tomado por útil. Se por uma razão obscura o
mesmíssimo texto torna improvável atinar com o porto? Sirva de bússola a quem
joga os salva-vidas ao mar. Eis o ponto: cabe a quem lê dizer o que o texto lhe
diz. Na leitura está a chave do escrito. Cuidado. O mapa em mãos, às vezes, dá
a febre da exegese desmedida, o vírus da minúcia semântica exagerada, a mosca da
superinterpretação, tamanha iluminação acaba cegando.
Tem nevoeiro na enseada, então, o
importante é não perder o rijo da corrente da âncora. Que gostoso ficar à
deriva...
Ô moléstia!
O cabra da peste do Jean Cocteau
corisca este pensamento no livro A
dificuldade de ser: Escrever é um ato
de amor.
Cabe o aviso aos navegantes que sigo a
carta náutica que a minha cabeça vai propondo, para além dos búzios.
Então, é deliberado o ato de dar vento
às palavras, fazê-las circular por aí sem doutrinação consciente, disseminá-las
pelo mundo ao publicá-las, e que o acaso providencie o solo em que se abrirão os
esporos, venham a germinar raízes, se fortaleça o caule, vicejem as folhas e,
no esplendor da sua potência, que prosperem como encantamento suas flores. Quem
sabe haverá beleza? Ou a necessidade de sentir que há beleza no texto que
floresceu. O ápice do sublime, para além do jasmim.
E a rapadura põe seu afeto na minha
boca. Sim, as palavras têm história, vivem porque carregadas de memórias,
tradutoras das semânticas circunstanciadas, dado o uso de quem as fala. E de
tal jeito que a gostosura do baião de dois, texto e quem lê, faz a gente
assobiar que a língua que as pessoas palpitam é uma só, una, unificada, a que se
fala. Na visão do falante é o que ocorre. Então, a língua de todas as pessoas
que a falam pode parecer uma, isso é sereia cantando.
Não ponho cera nos ouvidos nem levanto
âncora.
E diz o homem: Planto mandioca, tenho mãos calejadas e a pele manchada de tanto sol,
moro em Cachoeira do Sul, a um dia e meio a pé estou no Uruguay, pois vou na
temporada dos curimbatás. E diz a moça: Como
minha macaxeira com bacon na praça de alimentação do Shopping Manaira, estou
arretada estreando meus dreadlocks com as miçangas coloridas, ainda que presa
no tailleur que a loja obriga a usar, isso serve para destacar a minha pele, de
bisneta de malês escravizados.
Ou seja, o vernáculo existe para ser
usado com moderação. A moderação da lucidez, com autonomia. Assim, dizer que um
fato que aconteceu não aconteceu é mentir.
Menosprezar uma pessoa pela cor da sua pele é racismo. Fazer piada por conta da situação econômica de alguém é preconceito. Agredir uma pessoa por
causa da sua religião é crime.
Palavras, palavras, palavras. O resto
é embromação.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 28 de julho de 2019.
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