Teatro
da vida
Um dia
depois de outro, não há nenhuma novidade nisso. E vou em frente com minhas picuinhas
e meus desejos; vou indo, sem querer dinamitar o que boia entre estes e aquelas.
Às
vezes, anseio explodir muita coisa; por isso, gosto de ler. As vertigens do
carbonário passam às entrelinhas, dão na praia das ideias românticas; assim
náufragas, o mundo sobrevive. Já o ridículo não tem escapatória, merece vaia ou
acordar. Enfim.
Gosto
imensamente que leiam para mim, do jeito que for. Se as linhas embaralham, se a
ênfase come o fôlego, e daí?
Na sala
onde me encontro, uma pessoa está lendo um texto. Cuidando sobremodo da leitura,
ela mantém a elegância quando a página trava ou fecha por conta própria. Enquanto
o homem lambe sabão, tem batata podre no porão. Já dizia a minha avó que nem pegou
a internet.
Cativante,
a leitora garante em mim o prazer da audição.
E isso
me remete ao pé do rádio, que fui alimentado pelas ondas da Jovem Pan, de São
Paulo. Com o rádio comigo pela casa dos meus pais, lá em Ibiúna, e os tímpanos ligados
aos neurônios, cresci tomando siso do mundo via Jornal da Manhã. A fidelidade à
emissora me fazia escutar o que fosse possível, e tinha um programa, do qual
lembro o bordão, é noite, tudo se sabe,
cujo nome da apresentadora agora me deixa encucado.
Como
você já percebeu, leitora perspicaz ou leitor arguto, se me empolgo com algo, a
narrativa vai ganhando interpolações, ou seja, viajo. Deixo-me afetar pelo que
leio, ouço ou vejo.
O texto
sendo lido de maneira tão cristalina me faz ir ao país das ideias. Entro pela minha
mente. Vou derrubando paredes, retirando portas, tirando cortinas, e tudo isso
para mais e mais me perder em mim. Escutando atentamente, acabo estimulado a navegar.
Singro a simultaneidade de ir ouvindo e pensando.
A
leitura chega ao fim. Ouvi-a em silêncio, com respeito. E o que pensei ficará
para outra vez. Afinal, não importa se porei em palavras que a escrita é colete
salva-vidas. Nem sempre o que o ouvido fisga a consciência abocanha. Nas
engenharias da vida, faz água a boca que degusta o chuchu condimentado como
marmelada.
Mesmo
com a mente à deriva, dou aspas ao que pude ouvir. Bem ali, onde jaz o
jornalista que não fui, bate o coração que entra em sintonia com os meus parênteses
mentais porque concorda que “precisamos pensar se queremos um mundo de fatos
para se contrapor ao mundo baseado nas emoções”.
E mais
ainda, como opina Alan Rusbridger, o autor das palavras aspeadas, um mundo que
se fundamenta apenas nas emoções, sem que, lógica e coerentemente, a razão dê a
devida sustentação a argumentos a favor ou contra o que quer que seja, este é
um mundo perigoso.
E como
vivo a cultivar os sabiás do sonho, a vida é muito, muito perigosa. Pois...
Para quem tomba em bosta de pomba, até cana pesteia o banana. Ô saudade, vó.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 20 de agosto de
2019.
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