terça-feira, 20 de agosto de 2019

Teatro da vida


Teatro da vida

Um dia depois de outro, não há nenhuma novidade nisso. E vou em frente com minhas picuinhas e meus desejos; vou indo, sem querer dinamitar o que boia entre estes e aquelas.
Às vezes, anseio explodir muita coisa; por isso, gosto de ler. As vertigens do carbonário passam às entrelinhas, dão na praia das ideias românticas; assim náufragas, o mundo sobrevive. Já o ridículo não tem escapatória, merece vaia ou acordar. Enfim.
Gosto imensamente que leiam para mim, do jeito que for. Se as linhas embaralham, se a ênfase come o fôlego, e daí?
Na sala onde me encontro, uma pessoa está lendo um texto. Cuidando sobremodo da leitura, ela mantém a elegância quando a página trava ou fecha por conta própria. Enquanto o homem lambe sabão, tem batata podre no porão. Já dizia a minha avó que nem pegou a internet.
Cativante, a leitora garante em mim o prazer da audição.
E isso me remete ao pé do rádio, que fui alimentado pelas ondas da Jovem Pan, de São Paulo. Com o rádio comigo pela casa dos meus pais, lá em Ibiúna, e os tímpanos ligados aos neurônios, cresci tomando siso do mundo via Jornal da Manhã. A fidelidade à emissora me fazia escutar o que fosse possível, e tinha um programa, do qual lembro o bordão, é noite, tudo se sabe, cujo nome da apresentadora agora me deixa encucado.
Como você já percebeu, leitora perspicaz ou leitor arguto, se me empolgo com algo, a narrativa vai ganhando interpolações, ou seja, viajo. Deixo-me afetar pelo que leio, ouço ou vejo.
O texto sendo lido de maneira tão cristalina me faz ir ao país das ideias. Entro pela minha mente. Vou derrubando paredes, retirando portas, tirando cortinas, e tudo isso para mais e mais me perder em mim. Escutando atentamente, acabo estimulado a navegar. Singro a simultaneidade de ir ouvindo e pensando.
A leitura chega ao fim. Ouvi-a em silêncio, com respeito. E o que pensei ficará para outra vez. Afinal, não importa se porei em palavras que a escrita é colete salva-vidas. Nem sempre o que o ouvido fisga a consciência abocanha. Nas engenharias da vida, faz água a boca que degusta o chuchu condimentado como marmelada.
Mesmo com a mente à deriva, dou aspas ao que pude ouvir. Bem ali, onde jaz o jornalista que não fui, bate o coração que entra em sintonia com os meus parênteses mentais porque concorda que “precisamos pensar se queremos um mundo de fatos para se contrapor ao mundo baseado nas emoções”.
E mais ainda, como opina Alan Rusbridger, o autor das palavras aspeadas, um mundo que se fundamenta apenas nas emoções, sem que, lógica e coerentemente, a razão dê a devida sustentação a argumentos a favor ou contra o que quer que seja, este é um mundo perigoso.
E como vivo a cultivar os sabiás do sonho, a vida é muito, muito perigosa. Pois... Para quem tomba em bosta de pomba, até cana pesteia o banana. Ô saudade, vó.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 20 de agosto de 2019.




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