terça-feira, 30 de julho de 2019

Adeus às ilusões


Adeus às ilusões

Corro. O mundo melhor não depende de mim. A vida nova foge do que faço. A realidade mais justa morre com o idealista indo ao banheiro de madrugada. O copo d’água a mais não vira sopa de batata. De cenho fechado, o real passa que nem olha para trás. O romântico conta as moedas. Vai, pensador, vai a pé ao Sarau no Sebo Café. Minha autoestima anda tão rasteira que até as baratas me fazem cafuné. O meu amor próprio está em cima do carrinho de pastel, e a Utopia está distante a uma olhada. Não faço, mas posso colocar em ordem alfabética as firmas de cobrança na minha caixa de e-mail. Nem a dúvida corre apagar a luz queimada do quarto. Não é uma pulga que me faz cócegas na barriga. Ouço quieto quem passa sermão, pois sabe com quem está lidando. De agora em diante, meu orgulho vai mancar, por ter pisado a latinha que fiz questão de não ver. Vítima da rede intermitente ou da recarga por fazer, não carrego página alguma. E celular que não dorme vive para comer pelas beiradas o que só é beirada. A razão me pede um antiácido, uma vez que o sangue ferve desde o julho de 2013. O coração comovido pede mais um turno ao pleito de 2018. Na boca, a minha língua serve apenas como isca para fantasmas surdos. Latindo no peito, as ansiedades do perplexo pululam. As contradições revolucionárias denunciam meus garranchos sem garrafa. O perfume noctívago do olíbano dos desejos mais indômitos está evaporado. Miragens de shopping abarrotado assombram o cartão já abatido pelo crédito. Nem me imagino engolindo a porção de fritas que recende a óleo rançoso. Finjo, rancoroso, não invejar a tulipa balançando por mais um chope. Os becos sem saída da calada da noite dão apagão na Itaipu das minhas sinapses tão lerdinhas. O sofá que me recolhe é o mesmo que entorta o meu sono. Ó poodle a unhar o cercado que o barra na sacada do apartamento. Ó gatinho taciturno que mantém a curiosidade além da porta. Ó frenética serra elétrica cortando o ferro para fundear a nave que trará Valhalla ao outro lado da rua. A rua, esta rua leva o nome de alguém de carne e osso, tributo a quem de complexada mente complexa, preito à pessoa que devia ter as finanças em dia. Cadê vacina a quem perdulário? Tenho dois dedos de café esfriando, pois não paro para pensar nem penso em parar para pensar. Stop! O meu lápis humorista traz o Drummond, o Carlos de Itabira, sabe? Sei, fui informado. Sei que o Louco não é o Rolo. Sei do mosquitinho miserável que inocula os labirintos da febre com uma picadinha. Sei, é preciso mais médicos, mais professores, e arroz com frango, sem brócolis. Sei, o Quincas Borba vive latindo da estante. Sei, e dou todas as letras: os aviões que pousam em Congonhas decolam; e em Congonhas a pedra sabão traduz o engenho do Aleijadinho. E pelo que sei, até onde sei ou acho que sei ─ faço questão de saber.
Por que tudo isso? Agosto está vindo aí.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 30 de julho de 2019.


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