terça-feira, 13 de agosto de 2019

Não alimente o dragão


Não alimente o dragão

Queria me entender comigo, mas nem sempre me agradam as respostas. Às perguntas tortas, tortas respostas. Falho ao querer me compreender, pois configuro apenas a caricatura da pessoa que penso que sou. E queria não temer tanto, mas as cobertas não deletam a madrugada que brota em meus ossos.
Quanta comiseração. Melhor mudar a prosa, estão de olho no que é dito. Até em pensamento, espiam. E em rede.
A cabeça, então, torna-se a prioridade. Não caí da cama, perdi o sono. Viro de um lado para outro. Puxo a manta. Ajeito o travesseiro. Vou ao banheiro. Olho a hora. Tiro a manta. Vou beber água. Olho o celular. Afofo o travesseiro. O lençol não esconde o esqueleto. É tal incômodo, a cabeça.
A cabeça abarrotada de lutas. Tantas batalhas perdidas. A guerra da vida pela vida viraliza vítimas. Uma delas perdeu o sono. Não tem a esperança de que os vencedores venham a se declarar vitoriosos. Como sempre, a ganância os impede de lacrar às claras. Rastreiam o vírus. E cobram a fatura pelo que já um dia foi faturado. É a internet das coisas?
A cabeça percebe que dentro dela está crescendo uma massa esquisita. Um troço que imagino horrível. E a gororoba me dá a sensação de ter um cheiro nauseabundo. É pegajosa. Intromete-se nas palavras. Espalha-se pelas ideias. Grudenta.
Nada invisível, a coisa me quer ausente. Mas...
Cabeça, não faça perguntas. Ou terá de respondê-las.
A surdez da obediência nem pede quem a ordene. A ordem da cegueira nem precisa de quem a oriente. O mudo se faz de calado para mais bem não se ouvir. A mácula do inocente está na perna curta das conveniências. Falso pirata, e bucaneiro de primeira. Mas carnaval a vida toda? Maldição!
Tomado por uma decisão, irei mesmo aonde todo mundo que conheço sabe que pode fazer. Já está decidido, e farei. Irei lá, sem medo. E sem hesitação alguma. Largarei o abismo do sonho tornado pesadelo naquela lixeira. Não irei apedrejá-lo. Preciso socar o peste. Darei as pauladas necessárias, até que suma ali. Vou marretá-lo com convicção. Mas algo me diz que isso vai me complicar. E quanto mais penso no que pretendo fazer, mais a coisa cresce. A fúria alimenta a desgraça? O ódio fortalece o monstro? O ruim da cabeça escapa da caçamba para ir comigo por todo canto? Não seria melhor mergulhar o corpo na vala já coberta de mato? Então, viriam os curiosos de sempre. Achariam o afogado naquela baba nojenta. Com medo de contaminação, porém, não tocariam na carcaça podre. A face do asco me faz acordar. Contido a tempo, quebro o taco de beisebol que nem é meu.
Ê cabeça, cabeçona, cabeçorra. Ê cabeção.
Sem querer, encontrei o bicho que vive para me fustigar. A fera que me enoja quer mais que me finja de morto. O poder de fogo da besta está nas cinzas de sua passagem. Por causa do perigo, vou arrumar uma placa.
Caramba... Justo agora, a bateria está por um fio.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 13 de agosto de 2019.



















Nenhum comentário:

Postar um comentário