quinta-feira, 30 de maio de 2024

Três pedidos

 

Três pedidos

 

O almoço entrou na lista de eventos memoráveis. Quem merecia a atenção recebeu mais do que a aguardada atenção, a pessoa louvada no brinde e à parte, a tão amada de todos, a todos era amável.

No dia anterior à celebração, às nove, ao telefone, à filha mais nova não ocorreu de se desculpar pela ligação àquela hora, mesmo sabendo que a mãe só saía da cama depois das dez.

Mamãe, confessou a insolente, eu estou ligando pra que a senhora não seja surpreendida, colocada em saia-justa, seja convencida a fazer o que a Marta tanto ambiciona.

Marta era a filha mais velha da mulher forçada a levantar-se para ir atender o telefone que fica na sala.

Mamãe, prosseguiu a imprudente, a Marta quer tirar de mim o único item que o papai não se importaria que ficasse comigo. Além disso, ela nunca se interessou em aprender música. Nem de ouvido, mamãe. Ela sempre achou sanfona uma coisa brega.

Nos álbuns que a mãe possuía, Marta aparecia cabisbaixa; mesmo no tempo em que o celular não existia, ela manuseava essa bugiganga tão somente desejada.

Mamãe, a descuidada finalmente perdeu a pose, a minha irmãzinha quer o doce mais doce apenas porque eu gosto, porque tudo que gosto dá nela essa comichão de me ver contrariada. Então, mamãe, eu peço que desculpe a honestidade, mas quem deu o exemplo de ser sincera em tudo na vida foi a senhora. Então, mãezinha, faça o favor, nada de dar à Marta a sanfona do papai. Até porque, eu juro que vou aprender a tocá-la nem que seja a última coisa que a vida me conceda.

Enquanto a caçula falava, a mãe arrancava dos vasinhos uns matos que teimavam em crescer, indiferentes à Lua.

Guto, que sempre clica a família toda, ligou depois do almoço.

Mamãe, disse o solteirão de trinta e três anos, ninguém segura uma sanfona como se pombos fossem defecar em cima dela. A ciumeira da Marta cheira à blasfêmia, porque sanfona não é bezerro de ouro, nem a Marta é nenhuma Salomé pra exibi-la que nem troféu.

Enfim, como a sugerir-lhe que palavra alguma poderia ser repetida, a senhora dê um toque, só insinue à Marta o semancol, mãe.

Na hora do café, ali pelas quatro, Marta trouxe um vaso, que a mãe ajeitou entre os demais. Não que as orquídeas antecipassem que tinha algo a pedir; de fato, ela cuidava das flores.

Deixe todo mundo babando, disse a matriarca projetando a próxima fotografia, empunhe o fole aberto, garota.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de maio de 2024.

terça-feira, 28 de maio de 2024

Um cafezinho à toa

 

Um cafezinho à toa

 

O dia nublado, frio, pedindo café passado na hora, mas nada disso me impedirá de sair. Prevejo, alguma coisa será boa, muito boa, talvez eu fique besta, de pernas bambas, boquiaberto. E tal circunstância de sentir-me a um palmo do chão será convincente, essa coisa imaginada será igualmente boa, como essa chuvinha na minha careca.

― Se você quer ser agraciado pela sorte, amplie a probabilidade de que as forças obscuras da realidade o façam levitar por considerar os seus antecedentes, como ter nascido com a bunda virada pra lua.

― Luisinho, o sortudo não questiona, ele escolhe. Na bifurcação da estrada, ele nem petrifica por temer porcos-do-mato se prosseguir pela esquerda nem se precipita sobre os porcos-do-mato à direita.

― Aliás, a gente vive na cidade, então, a gente sabe que repelentes não eliminam ovos depositados em pneus ao relento, mas repelem os pernilongos, e isso basta.

― Cuidar do quintal, tirar da chuva o que acumule água é não dar sopa pro azar. Para não entrar na fila, implorando cura pra desleixo, o fundamental é cuidar-se.

― Procrastinador é outro nome pra azarado, meu amigo.

― A estrela da boa sorte costuma brilhar para mim quando eu nem a procuro. Pois então, fui comprar frios. Pedi à funcionária que pesasse duzentos gramas de peito de peru, recebi trezentos de presunto magro. Pedi duzentos gramas de queijo prato, o pacotinho continha duzentos gramas de muçarela. Só o salaminho veio certo, pois eu apontei o tipo que eu queria.

― Não foi a primeira vez que a funcionária deixou a desejar. Outro dia, ela demorou tanto que a minha boca fez bico. Desculpe a demora, é que o meu braço está machucado do final de semana, ela disse.

― Captei! Ela está pedindo para ser mandada embora.

― Mas, amigo, não vou reclamar do atendimento. Farei melhor, vou elogiá-la, direi que é a melhor atendente que conheço, direi que me faz começar o dia pelos frios, pra só depois pegar pães.

― Você é um gentleman.

― Sim, o camarada educado faz o oposto do que conta essa gente que sai no lucro com discussão e perda de tempo.

― Putisgrila! Se for para procrastinar, que apareça quem tem perna boa pra ter escapado dos porcos-do-mato.

― Ou venham os veterinários com seus dardos tranquilizantes.

Se me fiz entender, em dia de garoa intermitente e ventinho gelado, bom é tomar um cafezinho pra raciocinar sem ferver os miolos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de maio de 2024.

domingo, 26 de maio de 2024

Presente simples

 

Presente simples

 

Eu caminhando, o ônibus vindo, o ponto fugindo, a rua crescendo, o suor escorrendo, o fôlego encurtando, o passo encurtando, as pernas pesando, o ônibus parando, a boca amargando, o ponto esvaziando, o fôlego oprimindo, a roupa pesando, o ônibus partindo, os olhos vendo, o braço gesticulando, suplicando que pare, ofendendo que vá, uma vez que estou perdido, logo adianto que só me reste um ponto.

Vá lá, acabrunha-me o mundo.

São os ruídos do mundo que me aturdem e me fazem querer brigar. Escolho o ônibus, que ele é o dragão a ser vencido. Escolho a batalha, que a distância da esquina ao ponto move-se, contra mim ele se move. São os pneus que giram, são as setas piscando, estes detalhes estão contra mim. As pequenas coisas escolhem-me como alvo, querem que eu me apoquente, esquente, entre em parafuso, perca o pé, meta o pé. E são meus dentes que tornam mais excruciante o mundo.

Não perdoo o mundo que me põe imperdoável a meus olhos.

Quando acordei, na hora em que estou habituado a acordar, não fui lavar o rosto, faltava a vontade de urinar. Debrucei-me no parapeito e, sem temer tombar o metro e meio da janela ao chão, espiei e vi que as pessoas não passavam tão apressadas.

Observei-as como costumeiramente não faço, interessado, tentado a escutá-las, a reparar nos gestos, a traduzir-lhes as expressões. Para que eu estivesse em condições de imitá-las, a realidade tentava-me à desaceleração, ao passo comedido, ao fôlego sopesado.

Disposto a não me desgastar comigo, o agastamento teria que lutar para dobrar-me. Porque gente desacorçoada conquista a tranquilidade quando consciente do ar que respira, eu suspirei.

De suspiro em suspiro, quis sentir-me tranquilo. Vi a vida passando, mas eu não quis enfrentar-me, confrontar-me, pois cuidaria do dia.

Pra que a realidade não gorasse a semente, lavei o rosto com água fria, vesti camiseta regata e bermudão abaixo do joelho, calcei os tênis que não apertassem nos calos, pus fones pra ouvir as Quatro Estações de Buenos Aires sem me irritar com vozes aleatórias, caóticas, porque, aposentado, eu estou motivado.

Ontem, fui o Brasil batendo o Zaire por 3X0. Parece que foi ontem, fui Je vous salue, Marie passando na PUC-SP. Foi ontem mesmo, fui brotando por aí, fluindo o Beard dançando o bambolê ao som de Hello da Dragonette.

Por ontem e para hoje: mundo, algoritmotize-me!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de maio de 2024.

quinta-feira, 23 de maio de 2024

Pequenos aborrecimentos

 

Pequenos aborrecimentos

 

Convidaram-me, eu fui. Os convidados conversavam amenidades, não desafinei. Uma vez que comidas e bebidas não foram servidas em bandejas de prata, eu comi e bebi com a moderação dos discretos.

Não nego que cheguei robotizado, afeito à linguagem educada que a timidez tornava mecânica. Para descontrair, bastava que os ouvidos me distraíssem. Havendo-me informal, posei de bom ouvinte, pois ouvi muito papo furado. Mas escutar, só escutei umas poucas pessoas.

Par a par com a digestão, a sonolência surgiu de mansinho. Em vez de opinar sobre o que seja, com tantos subentendidos, sorri. Pra deixar tudo muito bem complicadinho, beberiquei a coca, busquei o vazio, que o pigarro falasse por mim. Sem confetes ao bolo, saborosíssimo!, pus o pratinho numa mesinha de canto e saí.

Carambolas, eu precisava dormir.

Quando acordei, percebi que o cérebro trabalhou sem sobressaltos. Do evento concorrido, com tanta gente que eu não sabia quem era nem quis saber quem fosse, a memória dispensou-me das trivialidades. Da noite passada, destacarei o que me confiara a mãe da noiva.

Ela me apartou dos demais. O burburinho ficou abafado pela porta, que precisou ser trancada. Sentado no banquinho da penteadeira, dei-lhe a atenção que ela queria ter de mim. Como abri mão de piadinhas, ela falava tranquilamente. Para que eu não a aborrecesse, até evitei o espelho às minhas costas. Com ela parada junto à janela, também não demonstrei qualquer interesse pela chuva batendo na vidraça.

Foi gentileza conservar-me atento. Soube ser simpático, calado. Fui prudente ao não mencionar o meu deslumbramento, mesmo os pingos fazendo e desfazendo esboços, formas e abstrações.

A mãe da noiva trancada no quarto com um cronista? Ainda assim, apesar da cama de casal e das janelas escancaradas, trancou-se.

Por vinte minutinhos, nós granjeamos a má fama de nos havermos duplicados nos convivas da alcova num dia de bodas.

Sem padre e juiz de paz, a festa foi feita para que fossem trocadas as alianças, para que a mãe levasse sua viuvez pra cama de núpcias.

― Ela tá grávida, rapaz. A menina vomita; são os boletos atrasados. Seus pés incham; ela não deveria ter comido o escondidinho. Até água enjoa; alguém precisa lavar o filtro.

A gravidez da filha não era a pimenta que ela tinha para oferecer, a brincadeira era esconder que a futura mamãe a faria avó.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de maio de 2024.

terça-feira, 21 de maio de 2024

Quem odeia a Nona de Beethoven?

 

Quem odeia a Nona de Beethoven?

 

Com a meninada batendo bola na rua, de quando em vez a bola cai num quintal porque há quem exagere no chute. Não é hora de apontar o dedo para criança que se empolga, dessas que irradiam a brincadeira valendo paçoquinhas.

Veja você, a culpa não é do entusiasmo de quem senta uma patada que furaria a rede se houvesse uma, até porque euforia cavalar dá em qualquer um, portanto, por ser baixinha, a responsabilidade é da grade.

Pra ser trazida de volta, a bola caída no vizinho precisa que o garoto da bicuda vá buscá-la. Ou ele pede ao dono da casa que a devolva ou a grade baixinha não será problema, já os cães, serão.

Para alegria dos peladeiros da rua, quando a primeira bola passou pela grade, o vizinho fechou o livro, desceu os degraus e, até sorrindo meio maroto, devolveu a bola com uma cabeçadinha.

Sobreveio uma segunda vez.

O velho fechou a cara, largou o livro na cadeira de balanço e, sem devolver a bola com a cabeçadinha de pessoa simpática, sequer olhou pra garotada pasma.

Sem efeito, a gurizada gritava. Os cachorros não paravam de rosnar e saltar, porque um menino deu dois passos na direção da grade. Outro telefonou, mas o chato não atendeu.

Outra bola apareceu, uma zero bala, porque a irmã do menino dono da pelota estraçalhada pelos cães foi correndo comprá-la no chinês da esquina.

Precavida, a criançada recomeçou o bate-bola. Mas a contenção só poderia durar pouco. De novo, uma bola pingou diante das mandíbulas atiçadas.

Outra vez, o velhaco ignorou o alvoroço dos cães e o estardalhaço da meninada; já o chinês da esquina era só gratidão.

Certo de que “eu resolvo isso” era marcar um gol de placa, o pai do dono da bola não desviou o olhar da casa do outro lado da rua.

Sem dúvida, o dono da casa do outro lado da rua não seria babaca de não vir, imediatamente, atendê-lo no portão.

Depois de um minuto com as mãos nas ancas, o pai da menina que comprou a bola sacou qual a artimanha do adversário, então, atroz, ele fez a campainha virar sua metranca.

Como o idiota não entendeu inútil ficar pressionando a campainha, o proprietário da casa com as bolas esfrangalhadas ligou o som.

O diabo foi o senhorzinho pôr suas caixas na varanda.

Numa altura monstruosamente alta, era insuportável ficar na frente dos alto-falantes bombando no último, era impossível sobrepujar-se a essa maldita muralha sonora.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de maio de 2024.

domingo, 19 de maio de 2024

O nome da coisa

 

O nome da coisa

 

Tirando aquela gente de pouca intimidade que a chama de parceira, colega, vizinha, até minha querida, quem a ama, pelos laços de sangue ou pelo açúcar passado sobre o muro, é essa gente que a conhece por Das Dores.

Caio e Dodô, os filhos de Maria, arriscam mãe ou mãezinha quando precisam de dinheiro ou de colo.

Já suas amadas maninhas, Dolores e Socorro, enchem a boca para o mãezona de coração de ouro quando a carteira de Das Dores dá leite à prole que a mama de paixão.

As titias também soltam o verbo quanto às trapalhadas de cama e mesa dos pimpolhos pais de família, pois Das Dores tem que aprender a curtir os bons conselhos de quem nasceu para irmãs do zap.

Das Dores não sai da comunidade porque família é tudo.

Quando não se encontra o botão para desligar-se das tristezas, das lágrimas de saudade, família é lenço à mão.

Quando a alegria é coraçãozinho à boca querendo morder primeiro, regozije-se, porque família é espetinho na brasa.

― Eu dou conta de tudo, Jô.

Jô é Joelma, cujo nome é homenagem ao avô que foi voluntário no incêndio do Edifício Joelma. Não é que ela tenha medo de fogo, só não gosta de fustigar cinzas; quando preciso, ela é a primeira a se oferecer para soprar o mertiolate em machucado de joelho.

Desnecessário dizer, por redundante, que a amicíssima Jô sempre aparece nos momentos menos prováveis, como se fosse movida pelo mundo por um sensor de iminentes catástrofes, bastante improváveis a quem tem a vida pautada por coisas comezinhas, como levar criança na escola, fuxicar e ver os tratores descendo a XV na contramão.

― Nossa, Jô! Já faz um ano que fomos à gruta de São Sebastião.

Neste penúltimo domingo de maio, antecipando-se à passagem dos agricultores que ocuparão a praça da Matriz para outra missa campal, ela vai cedo ao supermercado.

Como não demora nas compras, Das Dores pode o luxo de sentar-se à sombra de uma arvoreta.

De repente, Das Dores chora; súbito, Jô abraça a chorona.

― Nem sei dizer o que me dá, Jô. Vivo precisando do carinho das amigas. Sexta passada em Santos, lá estava eu no papelão de chorar que nem criança. Para a minha sorte, um cavalheiro de terno e gravata me adiantou o seu lenço ou eu nem acenaria direito à Dolores, Socorro e nossa prima Dagmar que zarparam pra Búzios.

As rolinhas, neste ínterim, somem no céu porque fuligem e barulho tomam inteirinha a Rua Direita.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de maio de 2024.

quinta-feira, 16 de maio de 2024

Donzela em apuros

 

Donzela em apuros

 

Menos pelos roncos, mais pela ansiedade de livrar-me das aranhas que, estorninhos em revoada, babam o casulo em que me transfiguram os pesadelos da realidade, acordei da pestana.

À vera, já que celular não come mosca de modo algum, fui acordado pela bateria de notificações dos e-mails recebidos.

De fato, chegaram oito, todos o mesmo e apenas um, cuja chamada era: A VERDADE SOBRE O SUMIÇO DA FELICIDADE.

Abri-o, e seu conteúdo era um áudio, no qual alguém falava de uma nota surgida em página policial de um jornal da Bulgária.

Se há jornais, há Bulgária! Tanto há que o topônimo aparece até no planisfério mais interativo que a internet permite acessar sem que, uma vez que anúncios animados obram por isso, seja cobrado uma pataca aos consulentes.

A voz disse que em Burgas foi lavrado o boletim sobre o ataque ao Khushiyon ka Jahaaj, navio de bandeira butanesa, ocorrido nas águas costeiras de Creta, nas cercanias de Zacros, ou Cato Zacro.

De quem seria essa voz?

Eu conhecia o timbre. Ela tinha marcado sotaque americano. Se me concentrasse, apesar da nota breve, era possível identificá-la.

Depois de tocá-la diversas vezes para que não alimentasse dúvida, a voz do narrador pertencia ao Marlon Brando.

Homessa!

Como a voz do Marlon Brando veio parar num áudio vinte anos após a sua morte? Neste mundão de minha nossa, existirão mistérios que a inteligência não tenha o destemor de convertê-los em realidade? Com uma chusma de satélites devassando a Terra, o Marlon Brando contar que um navio butanês tenha sumido sem deixar rastro no Mediterrâneo cheira mesmo a troço descabelado?

A garantir como bem pouco provável de ser inverossímil a narrativa, foram-me enviados mais três e-mails com a mesmíssima supracitada gravação.

Embora a fala sugerisse algum acento nordestino, o Marlon Brando ouvido bem parecia oriundo do Recôncavo ou do Jequitinhonha, quiçá um baiano de energia muito positiva pela mansidão da prosódia, como se ele estivesse sorrindo ao gravar, num alto-astral contagiante.

Não dei azar ao checar o fato n’O Patriota, cuja tradução automática é: Segundo uma autoridade do Departamento de Assuntos Marítimos, a embarcação Ship of Happiness, tendo por destino o Porto dos Patos, sumiu das telas dos controladores à altura do Corno de Tooxin.

Sem barca furada!

Se a felicidade são cama, fogão e geladeira, cinco mil compram.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de maio de 2024.

terça-feira, 14 de maio de 2024

Um centavo

 

Um centavo

 

A mãe manda que vá comprar pão, a filha obedece. Sempre que a mãe ordena, nem hesita. Se não é de questionar pedidos de adulto, da mãe, então, cada pedido é oportunidade para comprovar o tanto que a ama e venera, bem como a inveja.

Antes que o maninho se afobe, a garota pega o dinheiro. Sorrindo para si, atravessa a rua. Ignora que as buzinas a repreendam. Embora os cães não parem de latir, ela segue sorrindo para si.

Tem motivos para levitar, ela pensa.

Tão logo a declarem crescida, mandará nos filhos. Terá duas filhas e um menino. Por achar maravilhosa a casa em que vive, as suas filhas também nascerão antes do menino.

Quando as filhas começarem a ajudá-la, ficará brava e subirá a voz contra os enganos. O muito que possa, será educadora.

Pegará a vassoura, mostrará o certo, varrerá dos pés para adiante. Enquanto o sol não bater no quintal, deixará as camisetas penduradas pelos ombros. Usará uma colher de sopa para salgar o arroz na panela grande e a de café nos quatro dedos de água da abobrinha em rodelas. Apagará a luz ao sair de um cômodo, pois o ordenado assusta, fazendo que o vigésimo dia do mês anuncie a inadimplência ao vigésimo dia do próximo mês.

Para assegurar-se segura, feito mãe, mimetizará o exemplo.

Sorrindo, pede os pães. Com o troco nas mãos, a queijadinha pisca. Não é todo dia que uma queijadinha sabe ser tão simpática. A menina nem pisca, o doce está servido.

Abocanhando a queijadinha sem ligar de fazê-lo ali mesmo, diante do homem da padaria, a menina desencanta: sorri satisfeita. Uma vez que experimenta não se desculpar pela água na boca, a fazê-la querer mais uma, entretanto outra queijadinha lhe é negada.

O homem da padaria quer saber se a mãe dela teria autorizado que gastasse todo o dinheiro com queijadinhas.

Corada, a menina diz que pedirá à mãe. Com vozinha meio sumida, fala que, num pé, ela voltará. O novo sorriso é um até já.

Dito e feito, a toquinho de gente volta. Outra vez correndo, outra vez sem olhar para os dois lados, outra vez buzinam, freiam e latem. Outra vez a baixinha sorri a si mesma.

Uma vez que ela voltou com as notas que ele lhe havia entregue, o homem da padaria é todo sorrisos ao lhe apresentar a mais bonita das queijadinhas.

Mesmo que não volte para casa com um centavo sequer, o sorriso de gente feliz não dá à guria um ar de peralta, mas o de queridinha da mamãe.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de maio de 2024.

domingo, 12 de maio de 2024

Momento certo

 

Momento certo

 

De novo, abri a noite de sexta com pizza.

Comendo sem pressa, bebericando refri gelado, mastigando sem a ansiedade de trancar a entrada às minhas costas, a calma novamente não me abandonou.

Para permanecer em uma pizzaria lotada, precisei reaprender a não me fixar angustiado com ruídos, com crianças entre as mesas, comigo a me perseguir situado pela consciência.

Depois da última jornada no inferno, sobrevivi a ataques de pânico e à melancolia de arrastar-me ao silêncio. Pra que meses não virassem anos, tive que aprender a entender-me com o exílio que trago em mim. Apesar da voz que jamais se deixou domesticar, ainda que me abisme sem paraquedas, não me esborracha o chão do inferno.

Porque hábitos são agradáveis feito os vícios, pedi a primeira pizza depois que tomei a primeira garrafinha de guaraná.

Não matei a sede, acordei-a. E não era uma, eram várias. Não eram necessidades que precisavam ser satisfeitas, foram. Eram prazer sem borda recheada, com a dita cuja, porém, escandalosamente túrgida de catupiry.

Não saciei vontade alguma, escolhi a segunda pizza.

A de muçarela não me seduziu à portuguesa, mas na mesa ao lado comiam tão somente pizzas portuguesas, invejei-os.

No entanto, já bebericando o terceiro guaraná, pensei em prolongar a minha estada à sombra da Figueira do Conhecimento.

Se eu fosse consciente da sabedoria que me falta, levaria para casa algum resto do dinheiro, mas não me agrado com as sobras.

Para viagem, quis um brotinho, mais uma portuguesa.

À espera da pizza, troquei o refri por um pudim. Bastaram-me sete colheradas para o doce sumir do pratinho.

Novamente, fui à pizza porque me habituei a fazer da noite de sexta o momento certo para comer pizza.

Nem o psiquiatra nem a psicóloga incutiram em mim a necessidade de sair de casa porque sou um animal carente de socialização, porque a mente humana funciona melhor quando submetida a diferenças.

Posso muito bem ficar no escuro da sala, ouvindo música. Posso ir da Patética à Prélude à l’après-midi d’un Faune sem precisar por quais razões eu gosto tanto de navegar pelos mares da música.

Sou uma pessoa como outra qualquer.

Aprendi a não me censurar por tirar do caminho o que impeça de ir à pizza nas sextas. Peguei gosto de ir à pizzaria a três imóveis à direita. Já não me abatem o frio, a chuva, o calor, a rua vazia.

Pra ser sincero, o mais honesto é dizer que comer pizza toda sexta não é hábito, é peregrinação. Não vou lá só para que me vejam sozinho à mesa, largo a solidão em casa. Meio feliz e meio indiferente, não sou leão por devorar duas pizzas normais. Pizzas dão encarnação à alegria de viver, e eu sou louco por muçarela e calabresa.

De novo, como tenho conseguido fazer nos últimos cinco anos, abri o sábado sem a ressaca de sentir-me culpado por ter-me excedido um pouco, aquele tanto; certo mesmo é que foi só um lapso.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de maio de 2024.

sexta-feira, 10 de maio de 2024

Pedido de resgate

 

Pedido de resgate

 

Em respeito ao agendado, o funcionário chegou às oito, constatou que no poste havia ponto disponível, ele ligou uma ponta da fibra óptica na caixinha da rua, a outra foi jogada no telhado e esticada até descer pela lateral da sala, cuja parede foi furada para que eu passasse a me conectar diuturnamente à felicidade.

Pra que sua atuação fosse felizmente produtiva, não acrescentando banalidades à apresentação protocolarmente segura feita na chegada, eu cruzei as pernas.

― Preciso de pá e vassoura, senhor.

Na sacolinha que eu também lhe entreguei, ele jogou o pó.

― Que vergonha o que está ocorrendo no Sul, hein?

― Vergonha em que sentido?

― A enchente atingindo todo mundo, independente de ser governo ou trabalhador, e todo mundo é gente e gente tem que ser tratada igual, sem a política separando quem do bem e quem do mal.

― Estão dividindo assim?

― O que é isso, doutor? O senhor não está sabendo que as Forças Armadas não estão podendo ajudar?

― Mas eu vi na TV que elas estão ajudando, sim.

― Aposto que isso passou num desses canais que ganha dinheiro com fake news. Cadê o amor que tanto invocam? O zap informa a real. Então, um militar não tem família nem amigos pra socorrer?

― Olha, não estou em nenhum grupo de zap.

― Me desculpe, doutor, mas o senhor está desinformado. O Brasil do senhor não é o mesmo país em que eu vivo.

― Como é, existem dois Brasis?

― O Brasil da gente batalhadora não é igual ao Brasil de quem lucra com as lorotas que inventa. E o povo do Sul merece respeito.

Com a instalação completa, o rapaz pediu que eu ligasse a TV.

― Veja isso, doutor. A coitada da égua nesse telhado há dias, tendo que ser castigada pela fome. Sem água, sem dormir. A desgraçada só é culpada de ser montaria da Brigada.

― Mas, repare, há botes indo resgatar o bicho.

― Só que são bombeiros paulistas que estão agindo.

― Você tem certeza de que são paulistas?

― Tenho certeza, pois foi feito um pedido direto aos irmãos de São Paulo. Se não fosse o governador escutar a dor do coração evangélico da esposa do nosso líder, do verdadeiro presidente impedido de sentar na cadeira, não fosse isso, a égua já teria morrido.

O jovem desliga a TV assim que as imagens mostram o presidente sobrevoando uma área devastada pelas águas.

― Que insulto! O sujeito dentro de um helicóptero, ele tira a gravata e dobra a manga da camisa como se honrasse a gente honesta. Quem ele pensa que é? Ele foi posto no cargo e fica posando de líder legítimo.

Terminado o serviço, o funcionário entendeu por bem:

― Sendo o senhor uma pessoa de mente aberta, que não se deixa levar, eu lhe imploro que ore pelo Brasil.

Ligo a TV e os repórteres informam: o cavalo resgatado não é uma égua; ninguém sabe a quem pertença; pra evitar problemas ao colocá-lo no bote, o animal foi sedado; sendo cuidado por profissionais em um hospital veterinário de Canoas, o Caramelo está bem.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de maio de 2024.

terça-feira, 7 de maio de 2024

Pata na cara

 

Pata na cara

 

Estou irritado. Uma vez irritado, recolho-me. Prefiro escutar música a ouvir asneiras. Ponho os fones. Escolho o que escutar. Tento serenar a minha alma. Acredito que tenho uma alma para sossegar. Opto pelo crédito de que posso recolher-me à música que tranquilize.

Quando tocado à tranquilidade, a minha irritação é maior.

Meus pensamentos dão coices. Provocam-me as ideias. Um átomo muda de nível ou foge, combina-se a outro átomo. Que isso explique, entenderei a explicação. Razoável, embora me traduza em abstrações, vou na onda, entro no fluxo, torno-me outro. Naturalmente sou um novo elemento surgido por conta e obra da transfiguração.

Pela irritação que transforma, eu até mordisco os lábios.

Só de raiva, observo. Não espero que a minha frieza seja percebida como óbvia. Pode ser que minha indiferença seja atraente, e a atração traga confiança, que a pessoa cativada pela imagem que passo esteja persuadida a sorrir de volta.

Tal sorriso faz-me crer que sou compreendido. O meu amor-próprio não apresenta fissuras. Por inteiramente sereno, quero ajudar. Quando posso ajudar, não darei uma banana há quem precise. A quem precisa comer para não desmaiar, que a banana dada seja comestível.

Só de raiva, amo o próximo. Ouço-o, que ele tinha razão para ficar de boca aberta. Que há perigos e há traições. Mesmo quem ama pode apunhalar, sorrindo.

Só de raiva, debocho. Digo bobagens, sou insensível. Torno-me um sujeito que abraça, afaga, acolhe. Com espírito desarmado, minto. Sou cínico, dou dois reais a quem não pede a esmola. Não pelo valor, pelo gesto, sou descarado: vá, vagabundo, vá comer arroz, feijão e bife.

Pela raiva sentida, haja reação. Que a pessoa humilhada me dê um tapa. Só de raiva, reaja. Eu mereço ser estapeado.

Por amor ao próximo, choro. Que a comoção me permita entender o quanto careço de ser corrigido. Ao ser estapeado, que eu sofra, sinta a dor que se volta contra mim. Que eu preste atenção em quem me faz chorar — por amor, não pela raiva.

Que o amor ao próximo tire de mim a propensão ao patético, que o meu choro seja discreto, pouco espalhafatoso, nada homérico. Dentro de mim, porém, Leda precisa do Cisne, Narciso de Eco, e Troia conta com o Cavalo. E o próximo ensine o amor ao próximo.

E amarei quem chora, quem pede ajuda, quem dispense meu amor, porque serei infantil, desobediente, entrarei de cabeça, subirei respirar quando os pulmões suplicarem por oxigênio.

Só de raiva, furarei um poço, regarei o bananal com a água brotada e darei fruta a quem pedir, a quem melindrado não peça, a quem a leve à gente, ainda, não vinda.

Por amor, beberei da água parida pela montanha.

Solidário, fraterno, amorosamente muito racional, uma vez que não sou aquele que não sou, oxalá, por escutar meu coração, serei sereno, e muito adulto, amarei as suas patas, transubstanciado Kafka.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de maio de 2024.

domingo, 5 de maio de 2024

Travessura inocente

 

Travessura inocente

 

Se desejasse agradar o diabo, eu mesmo continuaria como estava, não pondo em dúvida que a performance é realista, que emulo estátua que porventura a minha memória preserva sem que me recorde a que personagem represente ou onde esteja erguida.

Evidentemente lasso, estou sentado. Sem tocar no copo, deixando a cerveja esquentar, vejo a TV. Peço que troquem o meu copo. Mando trazerem outra garrafa. Torço, que não mudem de canal.

Em Copacabana, montam o palco no qual uma famigerada estrela se apresentará para um milhão e meio de não pagantes. A mulher tem sessenta e cinco anos, quarenta de estrada pop, e não sei lá quantos chicotinhos na bolsinha de látex.

Bem percebo pelo alvoroço, a danada não rebola só pelo prazer de sassaricar a sua graça nas areias tupiniquins, a musa, imaculadamente sapeca, sabe se manter estimulante à idolatria.

Mamma mia! Que entusiasmo colossal será rebolar para um mar de fãs. Quando rebolo, só rebolo pro espelho. E olhe lá, bambina.

Não é nenhuma aventura contar que pensava na apresentação da bomba loira quando Luisinho veio interpor sua barbicha grisalha entre as minhas retinas vidradas e a TV.

Viver é ser interrompido por inconveniências.

Por inconveniente, o meu amigo sentou sem pedir licença, pôs mais sal na porção que nem se acanhou de beliscá-la e passou a elogiar-se das coisas boas que andava fazendo desde manhã.

Sentar pegando da batata alheia e anunciando o quanto era irritante todo aquele circo em torno daquela americana botoxilizada, isso tinha a cara do Luisinho, cujo maior talento é criar rusgas à toa.

Seria bom se não o contrariasse, que ele chegou pilhado. Ainda que reze mesmo sem se ajoelhar, ele é mestre em contestar.

Ele não suporta vê-la na pele de vestal: tão carnuda, a virgem dos lábios bombados, a pouco zen, amante de carne malpassada.

Ao me ver sentado sozinho, bebendo sozinho e comendo sozinho a porção grande de batata frita, o amigo preocupado com a saúde deste camarada acha por bem agir.

A ele importa: que eu dê vazão às minhas angústias, ou não estaria isolado; que não me faça avesso às minhas mágoas, ou estaria sóbrio; e, sobremodo, que não lhe sejam negadas as batatinhas.

Não o impeço que coma, beba e tagarele. Nem assim o amigo baixa a bola, uma vez que veio investido de ranheta a fim de criticar tudo que ache certo espinafrar.

Depois que meu irmãozinho foi-se embora porque a porção acabou, Aristeu junta-se a mim na mesa escondida.

Aristeu aposta que a Madonna não fará o espetáculo no Rio, que o buchicho é publicidade para artista em fim de linha, que adiarão o show por conta da calamidade gaúcha, que haverá de ter um juiz que proíba imoralidades na TV.

Por decadente, me extravia a indecência? Na impureza de me atirar a quem seduz à sombra, não me sinto iluminado?

Louco de batata, like a virgin, sacudo a minha cintura dura.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de maio de 2024.

quinta-feira, 2 de maio de 2024

Só me faltava essa

 

Só me faltava essa

 

Por falta de alternativa, o mais pacato possível, liguei o carregador na tomada, verifiquei que estava ligado, pus o telefone na cômoda, me deitei sem resmungar além do costumeiro.

Por falta de equilíbrio, o menos afoito possível, fiquei deitado, cocei os olhos, por nada, por alguma poeira, por ser necessário ficar deitado bem mais que um segundo, porque tenho esse hábito de ficar na cama até que os cachorros do vizinho se aquietem.

Por falta de paciência, o mais sereno que me houvesse de imaginar, virei contar o que não sabia por onde ia, fui indo de palavra em palavra, que rascunhar mentalmente uma história seria a maneira de conquistar a paciência que eu precisava.

Por falta de assunto, o menos tenso possível, pigarreei sem motivo, cocei os olhos sem razão aparente, a história foi interrompida à altura que nem sei se no meio ou no fim, porque as minhas mãos resolveram que seria bom escorar a cabeça, embora o travesseiro nem precisasse ser afofado, eu o afofei, sentimental.

Por falta de sono, o mais inteligente que houvesse de fazer, retomei a história, que havia uma menina batendo pênaltis, chutando a bola na parede, calmamente ela ajeitava a bola, contava sete passos para trás e desferia uma bicuda, imaginei-a que batia na bola alternando os pés, e que isso bastava, que era tudo.

Por falta de inteligência, o menos patético que achei possível, fui à janela, vi que os cachorros da casa ao lado corriam ao longo da grade, latiam por nada, pra ninguém, mesmo que não passassem pessoas ou automóveis, aqueles cães não paravam de correr ao longo da grade e não paravam de latir, ainda que não houvesse nenhum monstro na rua, na calçada, junto à grade.

Por falta de luz, gritei, e foi debalde que eu gritei.

Por falta de banho, o mais razoável que entendi, tirei a roupa, entrei no chuveiro, lavei-me todo, ensaboei-me todo, medi o que incomodava, que era os cães da casa vizinha latirem pela fome que sentiam, que eu precisava fazer o certo, que era dar comida àqueles cães.

Por falta de coisa melhor para fazer, o menos hesitante possível, fui dar comida aos coitados, mas eles continuaram a latir, pularam contra a grade, pularam na direção da vasilha que coloquei no chão.

Por falta de comida, o mais ligeiro que pude ser, voltei, fiz o almoço, comi o que pus no prato, julguei o que tinha feito, pensei que o menos doloroso seria confessar minha burrice, porque só um tolo confessaria que ração possui o poder de domesticar cães coléricos.

Por excesso de sensatez, por ser “sem destino a trovejar espantos”, quero-me sensível, permaneço na janela, e sigo vendo as gentes indo pelo feriado afora, elas vão comer lasanha, pedirão coelho assado, vão saborear um saborosíssimo sorvetinho de pistache.

Esperar que o rapaz de tênis ensebados saiba passar ‘bigode’ para ‘mustache’ não é bárbaro, é um prêmio.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de maio de 2024.

terça-feira, 30 de abril de 2024

Desde aquele jogo

 

Desde aquele jogo

 

Conheço aquele sujeito há muito tempo. Por baixo, temos convivido há trinta anos. Fomos colegas de escola, íamos à missa aos domingos, tomávamos sauna no clube que éramos sócios, até dei seu nome a um chihuahua que eu tive.

Meu cão morreu que nem lembro quando; ultimamente o camarada me encontra quando não quero papo, quero pílula pra dormir.

Outro dia, a criatura achou de apostar na lotérica que fica em frente do bar onde eu bebia. Não escondi a cerveja, ele guardou a carteira.

— Que surpresa, Marcondes!

— Quanto tempo, Aristides!

— Tá pensando em ir nadar com tubarões em Aruba?

— Tô precisando pegar sol nem que seja no Gonzaguinha.

O avatar da boa fortuna tem a comichão de gastar o que não deve, suando pra não ser enforcado pelos juros do cartão. Em outras palavras, perde quem o acha filando breja a dois passos de uma lotérica.

Nos esbarramos na fila da Mega acumulada. Essa fora a última vez, no último sábado de março de 2020; guardei a data, pois só o comércio essencial não teve que fechar no início da Covid-19.

Depois do nosso pileque, os boatos sobre o paradeiro do Aristides pipocaram. Que ele foi o único ganhador da Mega, aquilo pegou, virou epidemia. Ele sumiu, mas eram autênticas as fotos numa cidadezinha francesa, isso viralizou que nem rastilho de pólvora.

Imaginá-lo comendo escargot? Se arranhasse francês... Projetá-lo num iate na Côte d’Azur? Se soubesse onde Cannes fica...

Sobre a quina que ganhou, o boboca garganteou. Vieram parentes, amigos, parentes dos amigos, todos com problemas que só o dinheiro para saná-los. Por suas mágicas de santo, cuja santidade era medida pelos zeros debitados à filantropia, o ídolo teve a aura evaporada.

Ao nos abraçarmos, na semana passada, obtive a comprovação da suspeita, que santo de carne e osso adora abraços quando um devoto lhe paga a cerveja.

A festa pagã rolava sem traumas, mas algo rompeu o lacre e a arca dos segredos deixou escapar um fantasma.

Eis que outra vez alcancei a iluminação: bêbado que desconheça a força mental dos próprios alagadiços pantanosos é lenda.

Como não lhe conviria reprimir o metano que pulsava na sua mente, Aristides contou como tudo começou.

Num dia qualquer da sua infância, ele entrou na sala pisando firme. Para trazer à tona o que vislumbrara enquanto observava um mosquito sendo devorado por uma aranha, ele trazia uma tesourinha sem ponta, uma caneta e uma folha de papel.

Aristides se esquecera da régua, correu pegá-la.

Ele mediu, riscou retas, cortou quadradinhos, numerou-os de um a sessenta.

O menino pegou o chapéu de palha que o pai usava nas pescarias, jogou os papeizinhos dobrados na boca da copa do chapéu, sacudiu-o como se garimpasse e tirou seis pepitas.

Sem olhar pra trás, encantado, foi à lotérica e apostou.

Sozinho, riu da fraqueza transcendental que o fez captar as falsas dezenas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de abril de 2024.

domingo, 28 de abril de 2024

Passeio pelo raso

 

Passeio pelo raso

 

Pessoas amigas, aquelas festivamente próximas, sabem que o meu peito abriga um pirata oitenta porcento fanfarrão. As íntimas me acham na enseada em que, fundeado, flutuo ao léu da brisa. Um porcento de mim, nessa clareira onde gota d’água é oceano, são extraordinárias as amadas que, por palavras, imagens e silêncio, afetam minha bússola, desnorteando-me.

Por temer naufrágios, saio para respirar, não para tomar sol.

Respiro, logo sou simpático a quem venha bater papo. Por conta da fome que não sinto, sendo pego comendo churro, preciso de um tempo para, na conversa, eu não ser tão indigesto.

Às vezes as ironias azedam; ou arroto, facilmente distraído.

Seduzido, sentado no banco de frente pro coreto, chapinho na beira do mar, escuto as aves marinhas, vejo surfistas curtindo as ondas, de vez em quando uma onda traz a espuma lamber meus pés, nem assim desisto do prazer de lagartear ao sol. Ainda que o sol narcotize, sendo esse sol às três, respiro enquanto mastigo.

Não surfo nem mergulho, não me quero engasgado pelo churro que eu como. A imaginação me diz que tenho os pés enfiados num riacho, aquele riachinho que não me apavora, embora corra além da barraca de churros, não deixo de gostar do sol, desta praça sem areia.

O riacho existe, corre nos fundos do terreno onde fica a minha casa. Tal riacho não me faz aguar a boca, o churro faz. Lambo os lábios, me delicio com a mente ao senti-la aberta, arejada, iluminada.

A cachola digere o que tanto lhe apraz. Sou a maré que me embala ao sabor das vontades.

Não vim iludido.

Tendo achado, já pela manhã ao tomar café, que hoje poderia ser um dia de churros depois do almoço, me entusiasmei.

Quando eu saísse para pagar alguma conta, ou resolvesse comprar o que nem está faltando. Uma vez resolvido, aceito que vou ao churro mais próximo. Nem abrirei o armário da despensa, pois nem precisam faltar o arroz, o pó de café ou o que seja que realmente esteja faltando, vou ao churro sem nem mesmo querer ir ao supermercado, irei apenas para não me ludibriar, que saí de casa somente pelos churros.

Vou ao supermercado porque preciso de trocados. No momento de pagar a moça dos churros, quero dar o valor exato. Com isso, ganharei um sorriso. Porque espontâneo, será um belo sorriso. Me satisfaço que o sorriso da moça me leve a pensar que sou um cara bacana. Uma vez que ela me considere um bom sujeito, eu também sorrirei.

É tudo uma questão de organizar-se e agir segundo o planejado, aí churros não assoreiam o pensamento no instante de reforçar que o sol brilha gostoso, aí nenhum arroto será conveniente quando a conversa cansar, aí a pessoa voltará para casa pensando mal, mas a tarde será mais que um encontro maçante.

Como só churro não basta, politicamente educado é falar de boca cheia sobre a deliciosa e espetacularmente caprichada esfiha assada em forno à lenha.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de abril de 2024.

quinta-feira, 25 de abril de 2024

As boas intenções

 

As boas intenções

 

Repare bem, mas ao reparar, tente disfarçar. Não entregue de cara o que pensa. Faça com que acreditem que não tem tanto interesse no que inegavelmente a motiva a mascarar-se. Olhe e sinta. Procure não transparecer a ansiedade. Ansiosos caem ao primeiro passo, nem bem abrem a boca para afetar indiferença. O que valoriza é ter compaixão, faça ver que se controla ao dar-se em compaixão. Como o tamanho da dose acarreta o efeito, não se empolgue. Condoa-se sem humilhação, dê a ver que tem compostura, que raciocina, que não se precipita nem escancara o pasmo de se envolver, comiserar-se, compreender.

Compreenda e seja compreensivo, embora a pessoa esteja morta, você não. Deixe ver que mantém os pés no chão, ainda que as nuvens sejam leves e ligeiras, são elas que barram a luminosidade excessiva. Demonstre-se adaptado ao sol do meio-dia, que o seu olhar traduz-se como nuvens. Embora a pessoa esteja viva, mantenha-se apática.

Apiede-se, note o olhar carregado de lirismo da pessoa que espera. Ela aguarda que aclare o porquê da desolação que magoa, espera que se coloque na pele de quem sofre. Solidária, revele-se outra pessoa a sofrer por amor. Fraterna, mostre suportar-se covarde.

Embora seja uma pessoa movida a trivialidades, seja complacente, sorria, ponha no rosto a cara amiga de quem entende o sofrimento de quem ama. Mesmo que o amor por vezes seja impiedoso, sorria.

Quando convém que a lição seja passada pela carne que transpira, torne-se nuvens. A quem ama seja o olho d’água, que a sede aplacada aquiete o coração aos pulos. Aja como se não invejasse quem ama em tal grau e intensidade, de trazer o coração pulsando a mil. Aja como se não amasse, não buscasse consolo nesse amor invejado. Faça ver que convém se acalmar, entediar-se, dosar o amor que desconsola.

Porque o tédio cicatriza, não apaga o sorriso magoado, cuide-se.

Diante de quem ama sem pudor de revelar-se inconsolável, sorria, demonstre saber que o amor pode ser curado pelo entediante, pelo dia a dia que não conhece píncaros nem fossas. Porque o ardor da pessoa morta em vida quer a melhor saída pro que não tem solução. Porque a solução talvez seja a porta às costas, quiçá a mais próxima.

Endireite-se, mostre o quanto compreende, que se irmana à pessoa que sofre. Seja lírico, diga palavras que tranquilizem. Lírica, ela anseia que o amor não a consuma, seja água à alma que arde. Amorosa, seja a mão mais serena a segurar as mãos que tremem.

A pessoa deseja, não a afronte. Quando quer refrescar a garganta, ela não deseja o gole d’água. Se se recorda do balanço, não lhe aponte o sangue nos joelhos. Na falta de ar, passe-lhe um café. Se a cachola desespera da paixão inconsolável, leia um poema.

Para que a pessoa possa amparar-se no invisível, pelo indizível do que ama, sinta que se retirar à própria miséria é um sinal de amor.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de abril de 2024.

terça-feira, 23 de abril de 2024

A foto do aniversário

 

A foto do aniversário

 

Quando penso que terei um banho de sol no quintal, que nada. Há isso e aquilo para reparar, limpar, reparar melhor. Tenho as unhas dos pés para cortar. Tenho e-mails pra responder, e para nem abrir, muitos. Há papéis de bala e um palito de dente à espera de que o cinzeiro seja limpo. Por que mantenho um cinzeiro se não fumo nem fumantes vêm ao meu quarto? Ainda que o sol continue esplêndido, limpo o cinzeiro, batendo-o na borda da lixeira ao lado da escrivaninha.

Fumar eu não fumo, todavia escrevo.

E junto papéis, cartões, fichas e papeizinhos, todos juntados porque neles rabisquei. E tenho garranchos a decifrar. Vejo uns; rasgo os sem futuro. Leio outros, e há os salváveis. Salvo o seguinte:

A foto registra um pai sorrindo pra câmera, ao lado da menina que está no colo da mãe, ambas sorridentes. No bolo sobre a mesa há uma vela acesa, pois a criança de colo completa um ano.

Mesmo batida, é com tal cena que faço a ciranda rodar. Para não a deixar abafada pela banalidade, reescrevo-a.

Como legenda à fotografia da menina de colo, Adamastor comenta que é feliz porque tem uma família que o completa, pois sua felicidade vem da felicidade da esposa e dos seus filhos, da menina mais velha, do menino do meio e da sorridente que faz um ano.

Releio o que está escrito. Formulo ideias, descarto muitas. O início reescrito pode ser aproveitado. Aproveito-o, e o retomo:

Sob a foto publicada na sua página, Adamastor comenta que a festa é porque a sua filhinha faz um ano.

No mesmo minuto, Adalgisa, a irmã cinco anos mais velha que ele, dá os parabéns à aniversariante, deseja que ela brinque até cansar e, cansada, deixe a casa em paz, pra que todos durmam em paz.

Em paz, Adamastor marca a leitura com um like.

Um minuto depois do comentário de Adalgisa, Maria Eduarda, feliz pela felicidade do tio, comenta a foto: que criança linda é a Ana Maria, que Deus lhe conserve a saúde do sorriso encantador, que a vida traga mais alegrias que tristezas, que tudo ocorre no instante em que precisa acontecer, pois Ele quer o melhor para cada um de nós.

Deus sabe, sim, o que é bom para cada um. Adamastor, sua menina trilhará o caminho de tijolos amarelos da felicidade. Ela viverá dias de liberdade, sem acabar morta por bandidos, que não viverão no mesmo mundo que nós.

A mensagem foi apagada dois minutos depois de publicada. Ela foi postada por Sérgio, o cunhado mais triste de Adamastor e pai de Maria Antônia, a falecida irmã de Maria Eduarda.

Sérgio republica a mensagem escrita há minutos, com o acréscimo: Adamastor, a Ana Maria conhecerá a glória de viver cem anos!

Altair, irmão caçula de Adamastor, pede que sejam publicadas mais fotos, aquelas nas quais a felizarda do dia apareça com a boca suja da cobertura do bolo, alguma em que esteja gritando de tanta alegria, uma que seja na qual você sorri, uma em que você deseje sorrir.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de abril de 2024.