quinta-feira, 23 de maio de 2024

Pequenos aborrecimentos

 

Pequenos aborrecimentos

 

Convidaram-me, eu fui. Os convidados conversavam amenidades, não desafinei. Uma vez que comidas e bebidas não foram servidas em bandejas de prata, eu comi e bebi com a moderação dos discretos.

Não nego que cheguei robotizado, afeito à linguagem educada que a timidez tornava mecânica. Para descontrair, bastava que os ouvidos me distraíssem. Havendo-me informal, posei de bom ouvinte, pois ouvi muito papo furado. Mas escutar, só escutei umas poucas pessoas.

Par a par com a digestão, a sonolência surgiu de mansinho. Em vez de opinar sobre o que seja, com tantos subentendidos, sorri. Pra deixar tudo muito bem complicadinho, beberiquei a coca, busquei o vazio, que o pigarro falasse por mim. Sem confetes ao bolo, saborosíssimo!, pus o pratinho numa mesinha de canto e saí.

Carambolas, eu precisava dormir.

Quando acordei, percebi que o cérebro trabalhou sem sobressaltos. Do evento concorrido, com tanta gente que eu não sabia quem era nem quis saber quem fosse, a memória dispensou-me das trivialidades. Da noite passada, destacarei o que me confiara a mãe da noiva.

Ela me apartou dos demais. O burburinho ficou abafado pela porta, que precisou ser trancada. Sentado no banquinho da penteadeira, dei-lhe a atenção que ela queria ter de mim. Como abri mão de piadinhas, ela falava tranquilamente. Para que eu não a aborrecesse, até evitei o espelho às minhas costas. Com ela parada junto à janela, também não demonstrei qualquer interesse pela chuva batendo na vidraça.

Foi gentileza conservar-me atento. Soube ser simpático, calado. Fui prudente ao não mencionar o meu deslumbramento, mesmo os pingos fazendo e desfazendo esboços, formas e abstrações.

A mãe da noiva trancada no quarto com um cronista? Ainda assim, apesar da cama de casal e das janelas escancaradas, trancou-se.

Por vinte minutinhos, nós granjeamos a má fama de nos havermos duplicados nos convivas da alcova num dia de bodas.

Sem padre e juiz de paz, a festa foi feita para que fossem trocadas as alianças, para que a mãe levasse sua viuvez pra cama de núpcias.

― Ela tá grávida, rapaz. A menina vomita; são os boletos atrasados. Seus pés incham; ela não deveria ter comido o escondidinho. Até água enjoa; alguém precisa lavar o filtro.

A gravidez da filha não era a pimenta que ela tinha para oferecer, a brincadeira era esconder que a futura mamãe a faria avó.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de maio de 2024.

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