Pequenos
aborrecimentos
Convidaram-me, eu fui. Os convidados conversavam
amenidades, não desafinei. Uma vez que comidas e bebidas não foram servidas em
bandejas de prata, eu comi e bebi com a moderação dos discretos.
Não nego que cheguei robotizado, afeito
à linguagem educada que a timidez tornava mecânica. Para descontrair, bastava que
os ouvidos me distraíssem. Havendo-me informal, posei de bom ouvinte, pois ouvi
muito papo furado. Mas escutar, só escutei umas poucas pessoas.
Par a par com a digestão, a sonolência surgiu
de mansinho. Em vez de opinar sobre o que seja, com tantos subentendidos, sorri.
Pra deixar tudo muito bem complicadinho, beberiquei a coca, busquei o vazio,
que o pigarro falasse por mim. Sem confetes ao bolo, saborosíssimo!, pus o
pratinho numa mesinha de canto e saí.
Carambolas, eu precisava dormir.
Quando acordei, percebi que o cérebro
trabalhou sem sobressaltos. Do evento concorrido, com tanta gente que eu não sabia
quem era nem quis saber quem fosse, a memória dispensou-me das trivialidades. Da
noite passada, destacarei o que me confiara a mãe da noiva.
Ela me apartou dos demais. O burburinho
ficou abafado pela porta, que precisou ser trancada. Sentado no banquinho da
penteadeira, dei-lhe a atenção que ela queria ter de mim. Como abri mão de piadinhas,
ela falava tranquilamente. Para que eu não a aborrecesse, até evitei o espelho
às minhas costas. Com ela parada junto à janela, também não demonstrei qualquer
interesse pela chuva batendo na vidraça.
Foi gentileza conservar-me atento. Soube
ser simpático, calado. Fui prudente ao não mencionar o meu deslumbramento, mesmo
os pingos fazendo e desfazendo esboços, formas e abstrações.
A mãe da noiva trancada no quarto com um
cronista? Ainda assim, apesar da cama de casal e das janelas escancaradas, trancou-se.
Por vinte minutinhos, nós granjeamos a
má fama de nos havermos duplicados nos convivas da alcova num dia de bodas.
Sem padre e juiz de paz, a festa foi feita
para que fossem trocadas as alianças, para que a mãe levasse sua viuvez pra cama
de núpcias.
― Ela tá grávida, rapaz. A menina
vomita; são os boletos atrasados. Seus pés incham; ela não deveria ter comido o
escondidinho. Até água enjoa; alguém precisa lavar o filtro.
A gravidez da filha não era a pimenta
que ela tinha para oferecer, a brincadeira era esconder que a futura mamãe a
faria avó.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 23 de maio de 2024.
Nenhum comentário:
Postar um comentário