terça-feira, 21 de maio de 2024

Quem odeia a Nona de Beethoven?

 

Quem odeia a Nona de Beethoven?

 

Com a meninada batendo bola na rua, de quando em vez a bola cai num quintal porque há quem exagere no chute. Não é hora de apontar o dedo para criança que se empolga, dessas que irradiam a brincadeira valendo paçoquinhas.

Veja você, a culpa não é do entusiasmo de quem senta uma patada que furaria a rede se houvesse uma, até porque euforia cavalar dá em qualquer um, portanto, por ser baixinha, a responsabilidade é da grade.

Pra ser trazida de volta, a bola caída no vizinho precisa que o garoto da bicuda vá buscá-la. Ou ele pede ao dono da casa que a devolva ou a grade baixinha não será problema, já os cães, serão.

Para alegria dos peladeiros da rua, quando a primeira bola passou pela grade, o vizinho fechou o livro, desceu os degraus e, até sorrindo meio maroto, devolveu a bola com uma cabeçadinha.

Sobreveio uma segunda vez.

O velho fechou a cara, largou o livro na cadeira de balanço e, sem devolver a bola com a cabeçadinha de pessoa simpática, sequer olhou pra garotada pasma.

Sem efeito, a gurizada gritava. Os cachorros não paravam de rosnar e saltar, porque um menino deu dois passos na direção da grade. Outro telefonou, mas o chato não atendeu.

Outra bola apareceu, uma zero bala, porque a irmã do menino dono da pelota estraçalhada pelos cães foi correndo comprá-la no chinês da esquina.

Precavida, a criançada recomeçou o bate-bola. Mas a contenção só poderia durar pouco. De novo, uma bola pingou diante das mandíbulas atiçadas.

Outra vez, o velhaco ignorou o alvoroço dos cães e o estardalhaço da meninada; já o chinês da esquina era só gratidão.

Certo de que “eu resolvo isso” era marcar um gol de placa, o pai do dono da bola não desviou o olhar da casa do outro lado da rua.

Sem dúvida, o dono da casa do outro lado da rua não seria babaca de não vir, imediatamente, atendê-lo no portão.

Depois de um minuto com as mãos nas ancas, o pai da menina que comprou a bola sacou qual a artimanha do adversário, então, atroz, ele fez a campainha virar sua metranca.

Como o idiota não entendeu inútil ficar pressionando a campainha, o proprietário da casa com as bolas esfrangalhadas ligou o som.

O diabo foi o senhorzinho pôr suas caixas na varanda.

Numa altura monstruosamente alta, era insuportável ficar na frente dos alto-falantes bombando no último, era impossível sobrepujar-se a essa maldita muralha sonora.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de maio de 2024.

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