Quem
odeia a Nona de Beethoven?
Com a meninada batendo bola na rua, de quando
em vez a bola cai num quintal porque há quem exagere no chute. Não é hora de
apontar o dedo para criança que se empolga, dessas que irradiam a brincadeira
valendo paçoquinhas.
Veja você, a culpa não é do entusiasmo de
quem senta uma patada que furaria a rede se houvesse uma, até porque euforia cavalar
dá em qualquer um, portanto, por ser baixinha, a responsabilidade é da grade.
Pra ser trazida de volta, a bola caída
no vizinho precisa que o garoto da bicuda vá buscá-la. Ou ele pede ao dono da
casa que a devolva ou a grade baixinha não será problema, já os cães, serão.
Para alegria dos peladeiros da rua, quando
a primeira bola passou pela grade, o vizinho fechou o livro, desceu os degraus
e, até sorrindo meio maroto, devolveu a bola com uma cabeçadinha.
Sobreveio uma segunda vez.
O velho fechou a cara, largou o livro na
cadeira de balanço e, sem devolver a bola com a cabeçadinha de pessoa
simpática, sequer olhou pra garotada pasma.
Sem efeito, a gurizada gritava. Os cachorros
não paravam de rosnar e saltar, porque um menino deu dois passos na direção da
grade. Outro telefonou, mas o chato não atendeu.
Outra bola apareceu, uma zero bala, porque
a irmã do menino dono da pelota estraçalhada pelos cães foi correndo comprá-la
no chinês da esquina.
Precavida, a criançada recomeçou o bate-bola.
Mas a contenção só poderia durar pouco. De novo, uma bola pingou diante das
mandíbulas atiçadas.
Outra vez, o velhaco ignorou o alvoroço
dos cães e o estardalhaço da meninada; já o chinês da esquina era só gratidão.
Certo de que “eu resolvo isso” era marcar
um gol de placa, o pai do dono da bola não desviou o olhar da casa do outro
lado da rua.
Sem dúvida, o dono da casa do outro lado
da rua não seria babaca de não vir, imediatamente, atendê-lo no portão.
Depois de um minuto com as mãos nas
ancas, o pai da menina que comprou a bola sacou qual a artimanha do adversário,
então, atroz, ele fez a campainha virar sua metranca.
Como o idiota não entendeu inútil ficar
pressionando a campainha, o proprietário da casa com as bolas esfrangalhadas
ligou o som.
O diabo foi o senhorzinho pôr suas caixas
na varanda.
Numa altura monstruosamente alta, era
insuportável ficar na frente dos alto-falantes bombando no último, era
impossível sobrepujar-se a essa maldita muralha sonora.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 21 de maio de 2024.
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