quinta-feira, 30 de maio de 2024

Três pedidos

 

Três pedidos

 

O almoço entrou na lista de eventos memoráveis. Quem merecia a atenção recebeu mais do que a aguardada atenção, a pessoa louvada no brinde e à parte, a tão amada de todos, a todos era amável.

No dia anterior à celebração, às nove, ao telefone, à filha mais nova não ocorreu de se desculpar pela ligação àquela hora, mesmo sabendo que a mãe só saía da cama depois das dez.

Mamãe, confessou a insolente, eu estou ligando pra que a senhora não seja surpreendida, colocada em saia-justa, seja convencida a fazer o que a Marta tanto ambiciona.

Marta era a filha mais velha da mulher forçada a levantar-se para ir atender o telefone que fica na sala.

Mamãe, prosseguiu a imprudente, a Marta quer tirar de mim o único item que o papai não se importaria que ficasse comigo. Além disso, ela nunca se interessou em aprender música. Nem de ouvido, mamãe. Ela sempre achou sanfona uma coisa brega.

Nos álbuns que a mãe possuía, Marta aparecia cabisbaixa; mesmo no tempo em que o celular não existia, ela manuseava essa bugiganga tão somente desejada.

Mamãe, a descuidada finalmente perdeu a pose, a minha irmãzinha quer o doce mais doce apenas porque eu gosto, porque tudo que gosto dá nela essa comichão de me ver contrariada. Então, mamãe, eu peço que desculpe a honestidade, mas quem deu o exemplo de ser sincera em tudo na vida foi a senhora. Então, mãezinha, faça o favor, nada de dar à Marta a sanfona do papai. Até porque, eu juro que vou aprender a tocá-la nem que seja a última coisa que a vida me conceda.

Enquanto a caçula falava, a mãe arrancava dos vasinhos uns matos que teimavam em crescer, indiferentes à Lua.

Guto, que sempre clica a família toda, ligou depois do almoço.

Mamãe, disse o solteirão de trinta e três anos, ninguém segura uma sanfona como se pombos fossem defecar em cima dela. A ciumeira da Marta cheira à blasfêmia, porque sanfona não é bezerro de ouro, nem a Marta é nenhuma Salomé pra exibi-la que nem troféu.

Enfim, como a sugerir-lhe que palavra alguma poderia ser repetida, a senhora dê um toque, só insinue à Marta o semancol, mãe.

Na hora do café, ali pelas quatro, Marta trouxe um vaso, que a mãe ajeitou entre os demais. Não que as orquídeas antecipassem que tinha algo a pedir; de fato, ela cuidava das flores.

Deixe todo mundo babando, disse a matriarca projetando a próxima fotografia, empunhe o fole aberto, garota.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de maio de 2024.

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