terça-feira, 14 de maio de 2024

Um centavo

 

Um centavo

 

A mãe manda que vá comprar pão, a filha obedece. Sempre que a mãe ordena, nem hesita. Se não é de questionar pedidos de adulto, da mãe, então, cada pedido é oportunidade para comprovar o tanto que a ama e venera, bem como a inveja.

Antes que o maninho se afobe, a garota pega o dinheiro. Sorrindo para si, atravessa a rua. Ignora que as buzinas a repreendam. Embora os cães não parem de latir, ela segue sorrindo para si.

Tem motivos para levitar, ela pensa.

Tão logo a declarem crescida, mandará nos filhos. Terá duas filhas e um menino. Por achar maravilhosa a casa em que vive, as suas filhas também nascerão antes do menino.

Quando as filhas começarem a ajudá-la, ficará brava e subirá a voz contra os enganos. O muito que possa, será educadora.

Pegará a vassoura, mostrará o certo, varrerá dos pés para adiante. Enquanto o sol não bater no quintal, deixará as camisetas penduradas pelos ombros. Usará uma colher de sopa para salgar o arroz na panela grande e a de café nos quatro dedos de água da abobrinha em rodelas. Apagará a luz ao sair de um cômodo, pois o ordenado assusta, fazendo que o vigésimo dia do mês anuncie a inadimplência ao vigésimo dia do próximo mês.

Para assegurar-se segura, feito mãe, mimetizará o exemplo.

Sorrindo, pede os pães. Com o troco nas mãos, a queijadinha pisca. Não é todo dia que uma queijadinha sabe ser tão simpática. A menina nem pisca, o doce está servido.

Abocanhando a queijadinha sem ligar de fazê-lo ali mesmo, diante do homem da padaria, a menina desencanta: sorri satisfeita. Uma vez que experimenta não se desculpar pela água na boca, a fazê-la querer mais uma, entretanto outra queijadinha lhe é negada.

O homem da padaria quer saber se a mãe dela teria autorizado que gastasse todo o dinheiro com queijadinhas.

Corada, a menina diz que pedirá à mãe. Com vozinha meio sumida, fala que, num pé, ela voltará. O novo sorriso é um até já.

Dito e feito, a toquinho de gente volta. Outra vez correndo, outra vez sem olhar para os dois lados, outra vez buzinam, freiam e latem. Outra vez a baixinha sorri a si mesma.

Uma vez que ela voltou com as notas que ele lhe havia entregue, o homem da padaria é todo sorrisos ao lhe apresentar a mais bonita das queijadinhas.

Mesmo que não volte para casa com um centavo sequer, o sorriso de gente feliz não dá à guria um ar de peralta, mas o de queridinha da mamãe.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de maio de 2024.

Nenhum comentário:

Postar um comentário