Um
centavo
A mãe manda que vá comprar pão, a filha
obedece. Sempre que a mãe ordena, nem hesita. Se não é de questionar pedidos de
adulto, da mãe, então, cada pedido é oportunidade para comprovar o tanto que a
ama e venera, bem como a inveja.
Antes que o maninho se afobe, a garota pega
o dinheiro. Sorrindo para si, atravessa a rua. Ignora que as buzinas a repreendam.
Embora os cães não parem de latir, ela segue sorrindo para si.
Tem motivos para levitar, ela pensa.
Tão logo a declarem crescida, mandará
nos filhos. Terá duas filhas e um menino. Por achar maravilhosa a casa em que
vive, as suas filhas também nascerão antes do menino.
Quando as filhas começarem a ajudá-la,
ficará brava e subirá a voz contra os enganos. O muito que possa, será educadora.
Pegará a vassoura, mostrará o certo,
varrerá dos pés para adiante. Enquanto o sol não bater no quintal, deixará as
camisetas penduradas pelos ombros. Usará uma colher de sopa para salgar o arroz
na panela grande e a de café nos quatro dedos de água da abobrinha em rodelas. Apagará
a luz ao sair de um cômodo, pois o ordenado assusta, fazendo que o vigésimo dia
do mês anuncie a inadimplência ao vigésimo dia do próximo mês.
Para assegurar-se segura, feito mãe, mimetizará
o exemplo.
Sorrindo, pede os pães. Com o troco nas
mãos, a queijadinha pisca. Não é todo dia que uma queijadinha sabe ser tão simpática.
A menina nem pisca, o doce está servido.
Abocanhando a queijadinha sem ligar de
fazê-lo ali mesmo, diante do homem da padaria, a menina desencanta: sorri satisfeita.
Uma vez que experimenta não se desculpar pela água na boca, a fazê-la querer
mais uma, entretanto outra queijadinha lhe é negada.
O homem da padaria quer saber se a mãe
dela teria autorizado que gastasse todo o dinheiro com queijadinhas.
Corada, a menina diz que pedirá à mãe.
Com vozinha meio sumida, fala que, num pé, ela voltará. O novo sorriso é um até
já.
Dito e feito, a toquinho de gente volta.
Outra vez correndo, outra vez sem olhar para os dois lados, outra vez buzinam,
freiam e latem. Outra vez a baixinha sorri a si mesma.
Uma vez que ela voltou com as notas que
ele lhe havia entregue, o homem da padaria é todo sorrisos ao lhe apresentar a
mais bonita das queijadinhas.
Mesmo que não volte para casa com um
centavo sequer, o sorriso de gente feliz não dá à guria um ar de peralta, mas o
de queridinha da mamãe.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 14 de maio de 2024.
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