Donzela
em apuros
Menos pelos roncos, mais pela ansiedade de
livrar-me das aranhas que, estorninhos em revoada, babam o casulo em que me transfiguram
os pesadelos da realidade, acordei da pestana.
À vera, já que celular não come mosca de
modo algum, fui acordado pela bateria de notificações dos e-mails recebidos.
De fato, chegaram oito, todos o mesmo e apenas
um, cuja chamada era: A VERDADE SOBRE O SUMIÇO DA FELICIDADE.
Abri-o, e seu conteúdo era um áudio, no
qual alguém falava de uma nota surgida em página policial de um jornal da
Bulgária.
Se há jornais, há Bulgária! Tanto há que
o topônimo aparece até no planisfério mais interativo que a internet permite acessar
sem que, uma vez que anúncios animados obram por isso, seja cobrado uma pataca aos
consulentes.
A voz disse que em Burgas foi lavrado o
boletim sobre o ataque ao Khushiyon ka Jahaaj, navio de bandeira
butanesa, ocorrido nas águas costeiras de Creta, nas cercanias de Zacros, ou
Cato Zacro.
De quem seria essa voz?
Eu conhecia o timbre. Ela tinha marcado
sotaque americano. Se me concentrasse, apesar da nota breve, era possível
identificá-la.
Depois de tocá-la diversas vezes para
que não alimentasse dúvida, a voz do narrador pertencia ao Marlon Brando.
Homessa!
Como a voz do Marlon Brando veio parar num
áudio vinte anos após a sua morte? Neste mundão de minha nossa, existirão mistérios
que a inteligência não tenha o destemor de convertê-los em realidade? Com uma
chusma de satélites devassando a Terra, o Marlon Brando contar que um navio butanês
tenha sumido sem deixar rastro no Mediterrâneo cheira mesmo a troço descabelado?
A garantir como bem pouco provável de
ser inverossímil a narrativa, foram-me enviados mais três e-mails com a mesmíssima
supracitada gravação.
Embora a fala sugerisse algum acento
nordestino, o Marlon Brando ouvido bem parecia oriundo do Recôncavo ou do
Jequitinhonha, quiçá um baiano de energia muito positiva pela mansidão da
prosódia, como se ele estivesse sorrindo ao gravar, num alto-astral contagiante.
Não dei azar ao checar o fato n’O
Patriota, cuja tradução automática é: Segundo uma autoridade do Departamento
de Assuntos Marítimos, a embarcação Ship of Happiness, tendo por destino o Porto
dos Patos, sumiu das telas dos controladores à altura do Corno de Tooxin.
Sem barca furada!
Se a felicidade são cama, fogão e
geladeira, cinco mil compram.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 16 de maio de 2024.
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