quinta-feira, 16 de maio de 2024

Donzela em apuros

 

Donzela em apuros

 

Menos pelos roncos, mais pela ansiedade de livrar-me das aranhas que, estorninhos em revoada, babam o casulo em que me transfiguram os pesadelos da realidade, acordei da pestana.

À vera, já que celular não come mosca de modo algum, fui acordado pela bateria de notificações dos e-mails recebidos.

De fato, chegaram oito, todos o mesmo e apenas um, cuja chamada era: A VERDADE SOBRE O SUMIÇO DA FELICIDADE.

Abri-o, e seu conteúdo era um áudio, no qual alguém falava de uma nota surgida em página policial de um jornal da Bulgária.

Se há jornais, há Bulgária! Tanto há que o topônimo aparece até no planisfério mais interativo que a internet permite acessar sem que, uma vez que anúncios animados obram por isso, seja cobrado uma pataca aos consulentes.

A voz disse que em Burgas foi lavrado o boletim sobre o ataque ao Khushiyon ka Jahaaj, navio de bandeira butanesa, ocorrido nas águas costeiras de Creta, nas cercanias de Zacros, ou Cato Zacro.

De quem seria essa voz?

Eu conhecia o timbre. Ela tinha marcado sotaque americano. Se me concentrasse, apesar da nota breve, era possível identificá-la.

Depois de tocá-la diversas vezes para que não alimentasse dúvida, a voz do narrador pertencia ao Marlon Brando.

Homessa!

Como a voz do Marlon Brando veio parar num áudio vinte anos após a sua morte? Neste mundão de minha nossa, existirão mistérios que a inteligência não tenha o destemor de convertê-los em realidade? Com uma chusma de satélites devassando a Terra, o Marlon Brando contar que um navio butanês tenha sumido sem deixar rastro no Mediterrâneo cheira mesmo a troço descabelado?

A garantir como bem pouco provável de ser inverossímil a narrativa, foram-me enviados mais três e-mails com a mesmíssima supracitada gravação.

Embora a fala sugerisse algum acento nordestino, o Marlon Brando ouvido bem parecia oriundo do Recôncavo ou do Jequitinhonha, quiçá um baiano de energia muito positiva pela mansidão da prosódia, como se ele estivesse sorrindo ao gravar, num alto-astral contagiante.

Não dei azar ao checar o fato n’O Patriota, cuja tradução automática é: Segundo uma autoridade do Departamento de Assuntos Marítimos, a embarcação Ship of Happiness, tendo por destino o Porto dos Patos, sumiu das telas dos controladores à altura do Corno de Tooxin.

Sem barca furada!

Se a felicidade são cama, fogão e geladeira, cinco mil compram.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de maio de 2024.

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