domingo, 26 de maio de 2024

Presente simples

 

Presente simples

 

Eu caminhando, o ônibus vindo, o ponto fugindo, a rua crescendo, o suor escorrendo, o fôlego encurtando, o passo encurtando, as pernas pesando, o ônibus parando, a boca amargando, o ponto esvaziando, o fôlego oprimindo, a roupa pesando, o ônibus partindo, os olhos vendo, o braço gesticulando, suplicando que pare, ofendendo que vá, uma vez que estou perdido, logo adianto que só me reste um ponto.

Vá lá, acabrunha-me o mundo.

São os ruídos do mundo que me aturdem e me fazem querer brigar. Escolho o ônibus, que ele é o dragão a ser vencido. Escolho a batalha, que a distância da esquina ao ponto move-se, contra mim ele se move. São os pneus que giram, são as setas piscando, estes detalhes estão contra mim. As pequenas coisas escolhem-me como alvo, querem que eu me apoquente, esquente, entre em parafuso, perca o pé, meta o pé. E são meus dentes que tornam mais excruciante o mundo.

Não perdoo o mundo que me põe imperdoável a meus olhos.

Quando acordei, na hora em que estou habituado a acordar, não fui lavar o rosto, faltava a vontade de urinar. Debrucei-me no parapeito e, sem temer tombar o metro e meio da janela ao chão, espiei e vi que as pessoas não passavam tão apressadas.

Observei-as como costumeiramente não faço, interessado, tentado a escutá-las, a reparar nos gestos, a traduzir-lhes as expressões. Para que eu estivesse em condições de imitá-las, a realidade tentava-me à desaceleração, ao passo comedido, ao fôlego sopesado.

Disposto a não me desgastar comigo, o agastamento teria que lutar para dobrar-me. Porque gente desacorçoada conquista a tranquilidade quando consciente do ar que respira, eu suspirei.

De suspiro em suspiro, quis sentir-me tranquilo. Vi a vida passando, mas eu não quis enfrentar-me, confrontar-me, pois cuidaria do dia.

Pra que a realidade não gorasse a semente, lavei o rosto com água fria, vesti camiseta regata e bermudão abaixo do joelho, calcei os tênis que não apertassem nos calos, pus fones pra ouvir as Quatro Estações de Buenos Aires sem me irritar com vozes aleatórias, caóticas, porque, aposentado, eu estou motivado.

Ontem, fui o Brasil batendo o Zaire por 3X0. Parece que foi ontem, fui Je vous salue, Marie passando na PUC-SP. Foi ontem mesmo, fui brotando por aí, fluindo o Beard dançando o bambolê ao som de Hello da Dragonette.

Por ontem e para hoje: mundo, algoritmotize-me!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de maio de 2024.

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