terça-feira, 31 de outubro de 2023

Mais uma chance

 

Mais uma chance

 

A menina bateu, e aguardou. Com mais força, tornou a bater. Sem paciência para esperar, ela bateu e bateu.

Ficar batendo era inútil, uma vez que aquela porta era igualzinha à do quarto dos pais, que gostava de ficar trancada sempre que trovões arrancavam-na da cama dos sonhos.

Com medo dos clarões, quer que seus punhos virem machado para abrir passagem. Com tantos raios, implora ser abrigada entre o pai e a mãe. Com todas as suas forças, desespera a esmurrá-la.

Apesar daquele estardalhaço, ninguém apareceu.

Já que a chuva tinha engrossado, a menina colocou a assadeira no capacho em que estava escrito: ‘lar de gente feliz’.

Essa gente ficará mais feliz com o bolo de cenoura; feliz e satisfeita, pois o bolo de cenoura tem um toque especial: em vez da cobertura de chocolate, está coberto com coco, com o recheio de coco que torna os bolos de aniversário irresistivelmente saborosos.

A menina levantou o papel-alumínio; aqueles pedacinhos a fizeram salivar. Pra resistir àquela vontade, precisava ir embora, mas não tinha como ir-se dali porque a chuva estava bastante forte.

É preciso lucidez pra resolver problemas sérios. Mas pessoa lúcida não implica que esteja serena. Embora sofra antes de decidir-se, tendo em vista o pior que pode acontecer, é preciso querer o menos ruim.

Se fosse embora debaixo daquela chuvarada, levaria bronca pelas suas roupas ensopadas. Então, até que a chuva diminuísse um pouco, o jeito seria balançar-se na cadeira da varanda. Se sentasse sem pedir ordem, a gente da casa iria passar-lhe um pito. Tomar sabão era muito injusto, só porque estava balançando, isso não era para tanto; além do mais, o aguaceiro vinha do céu, ela não tinha como controlá-lo.

Nisso, veio um cachorro abanando-se à garota.

Porque gostou da companhia, afagou-o, chamou-o de amigão, quis colocá-lo no colo, mas o bicho foi bisbilhotar a coisa à porta.

Ele farejou que aquilo era algo comestível. A pata serviu para rasgar o papel-alumínio. Pra abocanhá-los, o focinho soltou tijolinhos de bolo. Sem ‘au-aus’ a denunciá-lo esfomeado, enfarou-se.

Com o celular, a menina gravou tudo.

Aquele cachorrinho era mesmo esperto. Tão logo sentiu o cheirinho de coisa boa, devorou a maior parte. Ele fez o certo, pois o vento faria com que a chuva estragasse o bolo.

A chuva diminuiu e ela correu pra casa.

Assim que a viu encharcada, com palmadas na bunda, a criança foi surrada pela mãe.

Ela não tinha nada que ficar mostrando gravaçãozinha de cachorro ou ficar inventando que tinha feito algo bom, porque não tinha nada de ter dado o bolo prum vira-lata de rua.

Ela fosse se enxugar, mas a menina correu pro seu quarto, trancou a porta, pulou a janela e foi sentar-se na jabuticabeira.

Sem casa na árvore, pôde esconder-se atrás das folhas; quietinha, iria provar o seu ponto, que as roupas secam por conta.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de outubro de 2023.

domingo, 29 de outubro de 2023

A roupa do corpo

 

A roupa do corpo

 

Sobre a minha reserva, sou discreto. Mesmo que não me convenha, emudeço, fico retraído; já os fanfarrões mostram-se satisfeitos consigo; enquanto eu me absumo, espalhafatam-se.

Em meio a bruxos e mestres da natureza, faço a mágica de não me entregar à vaidade, vou vivendo. Pra não me apagar inteiramente, sigo existindo. De desaparição em desaparição, deixo migalhas.

Posso sumiços; e assentir-me poderoso, alegra-me.

Embora não sejam mágicos, meus poderes são potentes; tanto são que, atônito, fico convulsionado, bestificado, de queixo caído.

No esplendor de fazer-me tímido, recluso na tartamudez, torno-me observador concentrado no que vai pelo entorno; tanto me desconcerta o mundo que apuro o juízo pelo que avivo, à flor de mim, desabrochem idiossincrasias cristalinas; e deveras sensibilizado, tamanho o realismo da contenção, percebo-me: não sou mármore que respira.

Respiro mas sorrio a quem respira. Serenamente respiro; e cheguei a tal estado porque é deplorável quem vive na obsessão: a serenidade gere felicidade.

É feliz quem persevera no caminho da felicidade? Não creio.

Estou no mundo; e na ventura do instante, vivo e sobrevivo. Aceito a felicidade enquanto dure; só as frustrações martirizam-me; já que são efêmeras as decepções, consigo transformá-las ou superá-las.

Não é preciso um bom motivo para uma pessoa acreditar que possa imaginar-se o centro de cenas grandiosas, feito herói em ação.

O mundo basta a quem o observa, ele é real. Por ser real, o mundo não consola o cidadão. Pela realidade não ser bastante, o cidadão que tece linhas mentais usa da indivisibilidade pra notar o quanto às vezes o bem produz o mal e o mal, porventura, faz o bem.

No maniqueísmo dessa percepção, a fila do caixa anda.

ꟷ É azeite?

ꟷ É mel.

ꟷ Quanto custa?

ꟷ Não sei.

ꟷ Você compra as coisas sem saber o preço?

ꟷ Prefiro adoçar a vida naturalmente.

ꟷ Quer dizer que açúcar é química que prejudica a gente?

ꟷ Ele custa R$ 23,45, senhora.

ꟷ Que caro!

ꟷ O mel de casa empedrou, o senhor sabe como fazer voltar?

ꟷ Amiga, mel empedrado está estragado.

ꟷ Moça, é só colocar o mel cristalizado em banho-maria que o calor o deixará liquefeito novamente.

ꟷ Então, o mel ainda está bom?

Entre a ganância e o ressentimento, a máscara detestável que não uso é a de intermediário. E uma vez que não me seduzo a apaziguador ou a belicoso, converso com os meus botões.

“E as abelhinhas? Ninguém se preocupa com o aquecimento global matando milhares de milhões de abelhinhas mundo afora; ninguém se condói pelas pobrezinhas. E as pessoas têm orgulho de trabalhar pelo próprio sustento, e fazem questão de dizer que precisam ralar pelo pão de cada dia. As ignorantes reclamam do preço das frutas, lamentam a baixa qualidade dos frutos e não entendem a interligação de escassez e carestia.”

ꟷ Não tem nada pra dizer, padre?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de outubro de 2023.


quinta-feira, 26 de outubro de 2023

Seres mundanos

 

Seres mundanos

 

Um alarme, na madrugada, denuncia: algo foi bolido.

Quisera não fosse acordado assim, por nada, por uma ninharia, por uma banalidade tão prosaica, mas eu fui.

Já que estou acordado e não consigo dormir, vou escrever.

“Queríamos muito ter dormido a noite inteira, mas a consciência tem razões abissais para bem nos abalar quando as aprouve bem.

“Uma vez escapulido o sono, nada há que nos dissuada de retomá-lo, de qualquer maneira recobrá-lo, nem que seja com a leitura do livro que encabeça a pilha de enjeitados.

“O marcador leva-nos à página donde o evadíramos. Recuemos a parágrafos que aprazariam atiná-lo pelo fio do sentido, e fomos falhos. O eleito à estatura de ultrajante é mágoa de nossas debilidades: fracos, não perseveramos; frouxos, sequer o repomos no monte; fracassados, reposicionamo-lo tampouco na estante.

“Venceríamos a contenda se houvéssemos entrado em campo com planejamento estratégico instituído, se preservássemos a organização ao longo do embate, se não abrandássemos da prévia bravura.”

Não fui acordado pela buzina, o ponto é o 5X0.

A equipe adversária dar um vareio no meu time, faz parte. A cachola dar uma canseira em mim, ela é dada a tais artes.

De fato, pelo que não desejara houvesse acontecido, a insônia me apanha ao breu da insatisfação. Colhido na floração do desalento, dou-me desamparado. Pela lembrança frustrante, sinto-me goleado.

Na escuridão que me oculta à mobília, permaneço sentado. Calado, não me aquieto nem me silencio, quero-me menos raivoso, mais tênue, sereno, melancólico.

Quero este estado mundano, um corpo na cadeira, uma pessoa no escuro. Indubitavelmente, me quero lembrado do dia seguinte.

Mas as pálpebras não colaboram. Mesmo fechadas, percebo meus olhos arderem. Não há grãos de areia nos meus olhos, mas o cansaço é essa areia.

O que me cansa é o sono que não vem, e lembro o clássico. Sinto-me transpassado pelo instante, pela implacabilidade do instante vivido que fica a reviver porque não me esqueço dos eventos recentes.

Queria ter entendido que desmaiava, e não houve desmaio. Queria o breu a envolver o quarto inteiro, mas não sou lâmpada apagada. Quis ter gerado energia suficiente para sonhar que recobrava os sentidos, e continuarei sonado por mais um dia.

Embora o cansaço inspire um futuro sombrio, a aurora já vem.

Outra jornada, mais uma vez. Todavia, o mesmo. Nas incertezas de caminhante, a mesma pessoa. Outro ser, eu mesmo, porque me quero gente disposta a descomplicar. Pelo que me possa, eu simplifique. Pra que me entenda, apesar de mim, eu respire, e busque respirar de olhos abertos. Pois eu procure em mim o que me permita ser menos eufórico, alguém diverso desse torcedor desassossegadamente derrotado.

De novo, apegado à luz, deito-me: mundano e medíocre, só desejo dormir um pouco mais, só isso, sim.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de outubro de 2023.


terça-feira, 24 de outubro de 2023

Ribanceira

 

Ribanceira

 

Antes de sair, verifique, deixe as janelas abertas.

Não transforme o lar num antro de poeira concentrada. Você fica pê da vida quando o nariz coça que não para mais, tem uma saraivada de espirros e, bastante peíssimo, vira a lacrimejar, já abatido.

Antes de espumar por ter saído voltado para o trabalho, adiante-se, não seja relapso, pense na vaidade, sorria, seja indulgente, coce-se na cuca, espirre, e vá suar, se for o caso, até se ressinta de tanto suor por dia, ao mês, sendo já este ser tão precisado de férias.

Antes de almoçar, urine.

Conserve o sorriso, tenha paciência com quem deseja discursar na refeição. Isso é certo, dispor de uma horinha pra preservar-se facilita o entendimento. Compreenda, sua intolerância beira o ridículo; entenda, um copo de baba pouco afeta as forças que movem o mundo. O terror traz o abismo pra perto, cola-o à pele, ficam sangue e urina misturados à poeira do mundo. Mantenha suas mãos limpas; não fique encanado, lave-se, dê funcionamento às torneiras.

Antes de dizer-se otimista com o futuro da humanidade, previna-se, tenha lido os últimos comentários de quem está à mesa com você, seja radical, recorde-se de que cordialidade exuberante dá azia. Beba água, um suco, aceite aquela taça de vinho, o branco resfriado, recuse o tinto; não pense no balde de sangue, seu corpo é engenhoca movida a sete litros de sangue. É o caso, volte a urinar e torne a lavar-se.

Antes de descansar, dirija sem olhar as placas mas respeite o farol; volte pra casa como um canarinho, assobie e cante junto, a música vai conduzi-lo, você tem o trajeto memorizado. Seja leve, divirta-se, o carro não é cão pra achar sozinho o caminho; descanse, ponha a mente em ponto morto. Você traz um passarinho nas veias, assobie, não cerre os dentes, cante. Cuide-se, não viva na banguela, que vicia.

Antes de arrepender-se, grite.

Você faz tanta coisa sem precisar de automóvel, ande a esmo, tome um ar, veja quanta gente anda devagar. Não banque o chato, sorria a quem o procura só pela conversa-fiada. Poupe-se das palavrinhas que não abrem nem guaraná, sorria a quem precisa ouvi-las, considerá-las sábias. Solte-se, dialogue, converse numa boa. Saiba sorrir quando for necessário; seja um camarada bom de papo, dê linha à prosa de gente que liga quando a hora voa; e ser vento às pipas até faz bem.

Antes de fechar a cara, escute as histórias, ria das piadas; rir não é preciso, mas gritar? Só faça um escarcéu quando pressionado. E diga o que lhe parece sem sentido, relate o seu estranhamento, sua falta de inteligência para comparar um penico com um balde ou um copo; e se tivesse um peniquinho embaixo da cama, saberia quantos litros produz de noite. Uma vez que você não tem como calcular o nível de felicidade quando urina, emburre e dê os seus coices.

Mas, Zeca, não tire o pé, não coma a jaca, não seja jeca.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de outubro de 2023.

domingo, 22 de outubro de 2023

Banana amassada

 

Banana amassada

 

Papai, não se preocupe comigo. Estou bem. Não estou sozinho em casa, mas minha companhia não vai causar problemas. Como sempre, a solidão me acompanha.

É o anjo que não me guarda, é o ser que não me protege de minhas instabilidades, então, acho bom não insistir em querer-me mais calmo, assim, sem ter medo de mim mas arriscando estar enganado, vou ficar sozinho em casa.

A solidão alivia-me da pressão que aplico em mim, pois volta e meia eu corro, erro a mão, ponho peso onde não devo, nem deveria cutucar, mas a tentação é grande, seduz a enfiar a mão na cumbuca, e não sei se o caldo escuro do fundo é mel, preciso lamber o dedo para saber se o mel ainda é doce, delicioso, ou é o cheiro que engana.

De vez em quando, papai, nos momentos em que estou a ponto de cair no choro, a ansiedade por experimentar outra vez o que conheço me faz apreciar mais ainda a companhia da minha consciência.

Sem dúvida, a solidão dá consciência à pessoa que eu sou.

Quando vou desabar, perder o pé da realidade, quando vou chorar sem saber a razão, então, papai, a sombra que me sustenta na solidão desperta em mim a vontade de fumar um cigarrinho.

Eu não choro quando fumo, acendo um cigarro e trago uma ou duas vezes, tusso feito idiota e, de pronto, jogo-o fora. Não vou virar fumante de uma hora para outra porque a solução dos desequilíbrios não passa pela euforia, talvez pela dor.

Não sinto dor, papai, logo sei que a mim me penso.

Também não penso só em mim, penso nos outros e saio andar; vou fumar em ambiente aberto porque os outros têm outras dores.

Tomo o partido errado, o meu, pois sei que fumar faz de mim o meu próprio inimigo, mas me defendo, mesmo errado, porque sou cruel.

É por mim mesmo que volto a crueldade contra mim, é pra controlar meu lado revoltado, mas não ajo assim pra que as pessoas conheçam uma versão limpinha de mim, não quero que os outros saibam o quanto posso ser insolente.

Se sou companhia incompreensível, que a julguem os outros.

Papai, quando estou caminhando sem ninguém a me acompanhar, estou cuidando de mim e resguardando os demais, afastando-os desta minha faceta má.

Não preciso falar alto ou gesticular como se eu estivesse possuído, a mim me basta andar calmamente, tragar tranquilamente, nem preciso apagar o cigarro com a ponta do pé, nem imagino um alvo, apenas dou um peteleco e vou adiante.

Eu andei e voltei. Mas eu não voltei consciente de que o cigarro me satisfaz ao fumá-lo, voltei convicto de que estou certo de que fumar me prejudica de modo tão gostoso.

Papai, entendo que falar que estou certo dá motivo aos outros para dizer, orgulhosos, que conhecem um boa-praça que nem eu.

Pessoa boa e correta, não me negarei a agir como uma pessoa boa que não tem que sentir remorsos por fazer as coisas certas que precisa fazer.

Mesmo sem um cigarrinho na boca, varrerei pro lixo as baratas que atacavam a minha aveia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de outubro de 2023.

quinta-feira, 19 de outubro de 2023

Um pouco de paz

 

Um pouco de paz

 

De segunda a sexta, a reforma da casa ao lado da minha é bastante barulhenta: as marteladas começam às sete; já o falatório dos homens começa antes, às seis e meia.

Quão poderosa é a magia dos homens. Ela me estimula a saltar da cama, porque os meus ouvidos alvoroçam quando percebem que o dia principia a precipitar seus eventos.

Enfeitiçado, sou útil e prático; e, uma vez alvoroçado, essa persona impassível força o viço: acuado em mim, meus dentes rangem e tenho língua cortante; diante de mim e de toda gente, insulta-me ter que lutar comigo até que, intratável, me afaste, eu recue, isole-me.

Prevendo cansaço e pressentindo o esgotamento, e porque não me apraz ser tirado do sono pelos negócios do mundo, tomo banho e bebo café antes que os tais tagarelas entrem na obra.

Na pausa do almoço, ontem, à porta do tapume estava um operário; desejei passar por ele sem comentar os efeitos dos ruídos sobre mim, mas a tagarelice pode ser astuta e revelar-se mesmo numa pessoa até no instante em que se imagina serena, de boa com o mundo.

Súbito vi-me vencido pela serra que bem cedinho cortava ferragens, admiti a imbecilidade de acreditar que pensamentos poderiam silenciar meus impulsos mais idiotas, tanto que me alegra pensar que cumprirei surdo minha estadia no inferno.

O sujeito não parou de palitar um dente qualquer até que sua língua percebesse-o limpo. Ele tirou o capacete; coçou o cocuruto da cabeça. Se poderia conceder explicações sobre o que tanto fazia no trabalho, livrou-se do palito com um peteleco. Sem sequer oferecer um, acendeu o cigarro que tirou do maço que trazia na calça. Tragou e tossiu. Livrou-se do fósforo com um peteleco. Novamente, tragou. Do meio-fio onde estava sentado, batucando no capacete, olhou-me.

Aquele olhar era expressivo, entendi-o.

Pensei no peso de um martelo e o quanto ficar martelando por horas todos os dias, de segunda a sexta, como era um serviço estafante. Era esgotante, cansava, e isso deixaria cansada qualquer pessoa.

O camarada não disse nada.

Sempre pensei que um operário deveria ser simpático com quem o apoia e lhe é simpático, mas aquele olhar me dizia o contrário, que era eu que o antipatizava, que eu estava atrapalhando sua hora de almoço, que a pessoa que o irritava naquele seu tempinho de descanso era eu, que sempre me vi como cidadão esclarecido, um defensor dos direitos dos trabalhadores, que eu sempre fui uma voz na luta pelas igualdades econômica e social.

Ele continuou calado, e fumante.

Precisei ser franco. Pedi que me perdoasse, porque aquela reforma estava dando-lhe pão. Se não tinha motivo pra aturar reclamações que julgava tolas, ele não perdesse a esperança de conseguir um emprego melhor, de salário maior.

Sem ver a hora no celular, atirou longe a bituca, repôs na cabeça o capacete e, portinhola adentro, a criatura sumiu.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de outubro de 2023.


terça-feira, 17 de outubro de 2023

Energia positiva

 

Energia positiva

 

Apesar de ser escorpião, acredito na realidade.

Circulo por aí porque as veredas que serpenteiam não implicam que minha labirintite dificulte os trânsitos do mundo.

Leio as placas e vou pela rua sem auxílio de bússola ou do sol.

Quando me perco, não me afobo, eu confio; o endereço virá ao meu encontro, não rezingo; o lugar vem dar comigo quando estou prestes a encontrá-lo, pois nele me encontro desde que saí buscá-lo.

E é por mim que saio por aí, e não vou sempre em frente, sou como os ponteiros de um relógio, só paro de circular quando acaba a bateria, falta corda ou quebra.

Como eu não quebro feito essa máquina que marca o tempo, posso ignorar os instantes quando durmo, mas a hora passa e o relógio segue funcionando, e eu, mesmo adormecido, também sigo.

Que coisa esplêndida é o ser humano, não é geringonça que roda, roda, roda e não sai do lugar.

Há gente que vai longe, voa por quilômetros, é criativa, usa a mente; pousa sem paraquedas porque tem trem de pouso, a fantasia.

Eu que não tenho asas nem viajo de avião, ando por aí, pelo mundo. Como não tenho necessidade de conquistar espaço nem preciso cavar um buraco que me abrigue, tenho o rosto lavado pelo vento.

Posso deitar na grama, maravilhar-me com o céu noturno e suspirar de amores quando me encanta uma estrela cadente.

Encantado, aceito que o sol, a lua, as nuvens condicionem a minha alegria, a minha tristeza, meu desdém e meus infortúnios, uma vez que me percebo suscetível aos campos de energia com os quais a natureza me sensibiliza.

Tocado pelo sentimento de estar no mundo, não escondo que tenho preferências e não me envergonho de anunciá-las: eu ando pela banda ímpar das ruas quando o sol bate implacável; não saio de casa quando chove, porque temo as calçadas esburacadas, desniveladas e as nem ainda assentadas, pois terra molhada vira lama e lama é traiçoeira.

Em suma, o mundo é uma arapuca.

Com tal ideia de armadilha na cachola, penso em quem a armou e, depois de uma espiada no espelho, reforço a ilusão: a pessoa que vejo vê apenas a mim, porque a mim eu me vejo quando ela me vê.

Se fôssemos gente íntima que não tem nada para revelar, eu ficaria bravo comigo, pois deveria contentar-me com a imagem vista.

Mas a infelicidade nada tem a ver com descontentamento nem com a mente fraca que não faz mover as nuvens.

A solução pro problema é simples: que a mente fraca leia os jornais, pois o farfalhar das folhas move o ar; com mais gente lendo horóscopo, maior a intensidade do vento; com a animação, o céu nublado fica azul e céu limpo vira chuvoso.

Ter tudo ao gosto do freguês é justo.

E freguês conta com que a rua leve à praça, na praça haja ipês, nos ipês haja canários cantores; sem ‘a’ nem ‘agá’, a previsão não falhe.

Conforme desejo ter demonstrado: acredito, a mente move moinhos assim como a lua, marota que só, controla mares, marés e maremotos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de outubro de 2023.

domingo, 15 de outubro de 2023

Menino triste

 

Menino triste

 

Duas crianças brincam em casa. Meninas e meninos jogam na rua. Sem saber quem trouxe a bola, uma mulher e um homem divertem-se com a pelada que as meninas e os meninos disputam. O tapete, a sala e a varanda em que uma cadeira balança levemente com o vento estão na casa em frente daquela em que a senhora e o senhor vibram a cada bela jogada. Quanto à bola, as duas crianças, que não trocam o tapete pelos abraços nem ligam de sabê-la esférica e chutável, ambas não se importam com outro brinquedo a menos no porão.

E a gritaria não para. Quando sai gol, gritam de alegria ou reclamam da marcação. Quando há falta, porque a fizeram e porque a marcaram, a gritaria é de quem não tem razão e, até mais intensa, de quem a tem. Pois os gritos, a vontade de vencer, os dribles, as botinadas e o calão produzem tamanha euforia e muitíssimo entusiasmo.

De tanto gritar e querer vencer na marra, as meninas e os meninos da pelada da rua despertam o selvagem que toda pessoa faz de conta que nem traz dentro de si.

A selvageria a céu aberto não tem obstáculo que a impeça de subir. Lá no alto, o alvoroço faz São Pedro parar com os seus afazeres. E ele vem dar uma espiada no que está acontecendo sob suas barbas. E ele não hesita e não se excita, ele resolve de pronto: manda chuva.

Se fosse apenas água caindo dos céus, ninguém se importaria.

Há ventania, portas batendo, alarmes disparando, nuvens sombrias e nuvens totêmicas, há clarões instantâneos, estrondos chocantes, há mães espavoridas, papais estapafúrdios e avôs estrambóticos que, de todo comovidos, não têm como evitar os espasmos e espaventos.

Os otimistas, pessoas que se sensibilizam positivamente diante dos assombros do mundo, opinam que o temporal é ótima providência, por interromper o fluxo das faltinhas à pancadaria animalizada.

Bons escoteiros que não juram à toa, os pessimistas não duvidam que a tempestade despejada por São Pedro é pra acalmar os raivosos, torná-los aptos a jogar pelas regras; eles estão convictos de que o ser humano precisa ser contido, pra não dar ao lobo a pele do lobo.

Uma terceira corrente, todavia, não atribui ao santo a proeza de ter acabado com a alegria dos homens; essa gente sussurra que a chuva é a carapuça de uma fonte maligna: o demiurgo que governa o mundo tem tentáculos que os humanos são incapazes de sentir, e de recusar, portanto, a sua influência.

Assim, as duas crianças param de brincar quando um menino entra. Elas não olham a bola, é que o menino molhado que cria uma poça no tapete faz com que lhe peçam que as deixe em paz.

O menino que cria uma poça no tapete não quer criar caso, ele nem quer brincar com aquelas crianças que preferem brincar sobre o tapete da sala a brincar lá fora, a bater bola lá na chuva.

É triste, menino em pé sobre o tapete, todo mundo parece que nem fica chateado, que toda gente se contenta em ficar enfurnada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de outubro de 2023.

quinta-feira, 12 de outubro de 2023

O pomo da concórdia

 

O pomo da concórdia

 

Imbuído da verve de bom entendedor, basta que desconfie de algo estranho para eu começar a rastrear o que não é dito. Mergulhado em tal espírito, o de farejador de entrelinhas, deixo entrar Luisinho, aquele que, tão seguro de si até em falsete, costuma dizer “faço o que quero”, como se fosse incontornável ouvi-lo a dizer: “sou livre”.

Quando uma pessoa cobra dele um posicionamento claro a respeito de algum assunto que esteja em evidência, notei que o meu amigo nem percebe que tem esse tique, ou já teria tirado melhor proveito, mas sua voz se altera quando pensa uma coisa e fala outra.

Desta vez, ao dizer que faz o que deseja, ele pretende dizer que faz o que se espera que faça, ou a sua presença seria insuportável.

Então, tal liberdade é osso enterrado no jardim. E cavarei porque o meu instinto carniceiro gosta de roer o que seja, só pelo cheiro, até que o tesouro desencavado torne inútil a imaginação.

Dá gosto modelar a carne, juntá-la ao osso, a carne ligada à carne. Sem precipitação, o esqueleto pare em pé. Sem neurose, haja o corpo. Para que a ideia baile, haja identificação. Que a ideia seja esmiuçada. Que os detalhes traduzam a encarnação, e leia-se o símbolo.

Encaro a tarefa, debruço-me sobre a circunstância.

Estou sentado. Chupo uma laranja. Há um par de rolinhas rondando o banco em que estou sentado chupando uma laranja. Os passarinhos não comem as sementes que eu cuspo. Não brotará uma laranjeira no cimentado. Sei que as aves não têm fome, é que mais cedo joguei-lhes migalhas. As duas rolinhas não arrulham nem pipilam. Enquanto chupo uma laranja sentadinho no banco que eu fiz, elas ciscam. Temerosas de que possa comê-las, as teimosas ciscam.

Desato o nó: rolinhas não são pombas; elas não representam a paz; ao fritá-las, não terei cometido nenhuma barbaridade.

Luisinho diz que penso muita bobagem, digo coisas absurdas para causar indignação, provoco as pessoas, só que nem todo mundo gosta de gente que parece se divertir com a irritação dos outros.

Ora, a natureza ensina, mas poucas pessoas a compreendem.

Se a macieira é sacudida, maçãs irão cair. Se uma escada é usada, maçãs serão colocadas no cesto. Maçãs acondicionadas no cesto não serão amassadas, logo vão demorar para estragar. Se mais maçãs são vendidas, mais dinheiro entra no bolso. Então, a pessoa cheia de maçã não tem que vender caro as suas compotas de geleia.

Então, Luisinho diz: se a macieira é sacudida, não será preciso usar escada; a pessoa com vertigem não cairá; ninguém correrá à farmácia atrás de creme analgésico; a sopa será servida de quando em quando; a dor na costela será menor desde que a pessoa fique deitada, procure não se mexer, tome a sopa quente de mandioquinha.

A razão prepondera: uma vez que o universo induz que chupemos, nós sacudimos a laranjeira, e cuspimos, só o bagaço nós cuspimos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de outubro de 2023.

terça-feira, 10 de outubro de 2023

Saída de emergência

 

Saída de emergência

 

A pessoa que se acha amável e afável é gente que vira de lado por mais cinco minutinhos. Afinal, não tem coisa mais prazerosa que obter mais um tanto de sono, ainda que seja apenas uma cochilada, mesmo que nem seja o bastante pra adiar o novo dia.

O novo dia pra essa gente, que se espreguiça, tem câimbra e estica as pernas, força os pés no colchão e lembra-se de que precisa comprar banana, o dia chega apenas depois do banho tomado.

E secar os cabelos com o vento da manhã também dá muito prazer a quem tem cabelo e tempo para que a natureza aja com tamanho zelo, isso, aliás, é um pedido singelo dessa gente, pra ser amada.

A pessoa que se acha assim, de bem com a própria identidade, está certa de que a água do chuveiro, as mãos que ensaboam o corpo e os neurônios que produzem energia funcionam em sintonia para sua mais honesta percepção, pois estão em sincronia pra que haja felicidade.

Gente feliz sabe que viver é não extrapolar as culpas, as desculpas e aquela passadinha de manteiga na fatia rica em macadâmia.

Sim, a felicidade está nas coisas simples da vida, como: acordar só; beber só um copo de leite ao sair da cama; depois de ter trabalhado o dia todo cuidando só do próprio sustento, pôr a cabeça no travesseiro sem ter que dividi-lo com as dívidas; embora esteja só na escuridão do quarto, e sem mais ninguém a mais, pegar no sono.

Porque vive só e pensa por si e entende-se, a pessoa compreende que realidade é nuvem cigana.

Mas o sol brilha, torna mais azul o céu limpo e põe a alma risonha, isso, todavia, é sinal de que o mundo sorri a quem levanta de uma noite tranquila, agradabilíssima.

Quem abre a janela certo de que o universo cuida bem de sua prole terrena tem motivo pra sorrir de volta ao sol anil que higieniza tudo, até os pensamentos incomunicáveis, os mais sombrios e sórdidos.

Pois bem. Hoje seja percebido como igual a ontem, ou a existência estará desconectada do mundo e propícia a insultos cerebrais.

Ainda que a pessoa seque os cabelos numa toalha, uma vez que a agenda do dia está carregada, sem espaço para desesperos, é melhor evitar insultos, refluxos e piriri.

Evite olhar-se no espelho. Penteie os cabelos sem olhar o que faz. Conte que possa repetir os movimentos, pois sua mente está mais que experimentada em pentear-se, ela nem precisa do reflexo.

Afinal, sempre há esperança: amanhã não será igual a hoje, pois, essa não!, está marcada uma reunião de família.

Preventivamente, não adiantam o que terá motivado a reunião. Pior que isso, fazem questão de dissimular, dizem que o encontro será uma noite de pizza, de mais a mais, banal.

Como se o fato de pessoas adultas se reunirem numa terça-feira à noite tivesse o mesmo astral de um churrasco num sábado à tarde.

Sob o efeito de ter visto o fantasma da cara enfezada, e até pra não reter nas entranhas a maminha malpassada, o jeito é dar descarga.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de outubro de 2023.

domingo, 8 de outubro de 2023

Valentia adestrada

 

Valentia adestrada

 

Desde que ganhei um cachorro, tenho passado pela praça dia sim, outro também. E tal passagem diária permitiu-me a constatação de que antes da chegada do camaradinha eu tinha uma visão pacata da vida, pois era um cidadão pouco preocupado com a coisa pública.

Em vez de ser grato às árvores pela sombra nos dias muito quentes, eu gostava de chiar contra o serviço público de limpeza por deixar uma floresta de folhas no caminho.

Nos dias de chuva, é comum tombo emendar em outro.

O que dava razão de sobra para que eu acalentasse o juízo de que não deveria incidir uma taxa menor sobre a limpeza urbana, bom seria se a tarifa fosse zero. Com este imposto zero aplicável aos munícipes em geral, até àqueles sem interesse em saber qual o índice de quedas por folhas no caminho.

Sendo a realidade dinâmica, agora que tenho um cãozinho, a minha percepção está alterada: se lidava bem com as minhas necessidades, aprendi a colocar-me no lugar do animalzinho.

Justamente porque a minha tentativa de ensiná-lo a urinar e defecar num retângulo de areia foi um desastre, eu ganhei muito mais depois que desisti do adestramento sanitário.

Depois de ter mijo e fezes pela casa afora, eu entendi: a cidade tem postes que não precisam ser usados exclusivamente como suporte aos cartazes de gato perdido, amor conquistado e futuro na trinca de ases; as ruas têm calçadas das quais também pode ser removido mais que o lixo nosso de cada dia; árvores têm troncos para serem irrigados pelo bicho homem e seus bichinhos muito bem humanizados.

Em outras palavras, deixei de agir errado: o bom funcionamento das entranhas do meu cão não surpreende, por isso, nas nossas saidinhas, não me esqueço das folhas de jornal e sacolinhas plásticas.

Sem duvidar da minha determinação, lutei comigo até que me venci e retifiquei a minha postura diante do mundo: e tão naturalmente passei a apreciar o canto dos passarinhos, em vez de suplicar a ninguém que as buzinas fossem retiradas dos automóveis, até porque os motoristas nervosinhos continuam a compor música concreta, neuroticamente.

Como prefiro fugir dos congestionamentos, peguei gosto por ir cedo à praça. Com as ruas vazias, eu nem sinto a hora correr enquanto meu amicão dá as suas mijadinhas.

Outro dia, não me irritei com um barulhão incomum, fiquei curioso.

Pela abertura menor que um metro, além do barulho de máquina à toda, escapava um fumacê fedorento.

A pastelaria aberta às sete era estranho, mas o impressionante foi, porta afora, a fuga das baratas, que zanzavam pela calçada.

O meu cão não parava de latir, mas os insetos ignoravam-no.

Mas o engraçado foi quando ratos e mais ratos correram pela praça e o meu audacioso amiguinho veio na minha direção.

Sentado nas patas traseiras, com o rabinho a mil e a intrepidez dos indomáveis valentões, todo exibido, ele mostrava a guia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de outubro de 2023.

quinta-feira, 5 de outubro de 2023

O mundo dos sapatos

 

O mundo dos sapatos

 

A hora da boia foi boa, e você comeu o quanto quis, comeu o tanto que aguentou, mordeu o bife com os dentes restaurados, bebeu o suco de morango que adoçou com açúcar refinado, chupou com estridência o restinho do suco, tudo sem pressa, mastigando com gosto, sentindo o gosto, pois estava cansado de almoçar correndo, sempre engolindo ligeiro pra não ser devorado feito prato-feito, o tempo se danasse, tinha em compromisso manter-se atento mas em baixa tensão, faria esperar quem não achava certo ficar esperando, podia correr, se apressar, isso não seria problema, quem condicionado à rotina cumpre-a sem vacilar, o desempenho depende, pra não jejuar à toa, tem que pensar, embora nauseado com o mundo, você tome tento ao mastigar.

Não se aborreça, a conta de luz foi paga ontem, o carnê das roupas está pago, a prestação dos óculos em dia, a parcela do celular nunca ficou atrasada, consulta alguma foi desmarcada pela falta de dinheiro, nenhum exame deixou de ser realizado por medo de agulha, vendedor algum gastou saliva, porque você nunca foi de estripulias, assalariado que só faz gastos que não o assaltem à noite, se abusa das neuroses é porque traz ansiolíticos na carteira, você só dá o passo conforme ao solado dos sapatos, caminha olhando pra calçada, quer ver as cascas de banana, você se controla, e toma pouca água porque piso molhado é liso, você não quer se pegar contaminado pelas ansiedades alheias, pense, não se precipite, você pense, não queira sofrer em vão.

E você sofre, que seja por besteira ou algo sério, você sofre, ainda que a obrigação de lavar o quintal seja sua, você brinca com os cães, e não descansa, porque, Zeca, embora seja sábado, dia pra dar aquele passeio pelo bairro, você lava a bicicleta, lava o quintal, lava a casinha dos cachorros, e lava a louça do jantar, sim, você tem cães e pratos.

Os cães estão à porta, e você não se preocupa com os bebuns que desafinam, não o irritam os versos repetidos da canção, você assobia, se anima com o vento, com o ruído que o vento faz quando passa pelas árvores, você tem fome mas não vai beliscar, tem livro pra ler, não tem que retomar a leitura mas quer retomá-la, tem um clarão vindo de fora, dá pra ver a lua, e a contempla, a contempla, “essa lua, esse conhaque, botam a gente comovido como o diabo”, nem conhaque você bebe.

Comovido, ainda que nem lhe ocorresse pensar que poderia acabar febril, você se emociona, as pálpebras tremem, a garganta coça, você não tem explicação nem pensa em encontrar uma, tem a mente sapeca de quem tira ouro do nariz, você sente o mundo, tem gente dormindo, tem gente querendo dormir, tem gente com fome, mas você assobia, é gente que sabe assobiar, gente que quer cantar, e você fecha a janela, corre as cortinas, apaga a luz, pois é hora de sonhar com gatos e ratos, e sonhar com um cão que não lhe cace os sapatos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de outubro de 2023.

terça-feira, 3 de outubro de 2023

Um tanto maestro

 

Um tanto maestro

 

De repente, como se um raio tivesse caído de uma nuvem até então imperceptível, alguém reparou e, sem se achar ridículo ou messiânico, tal iluminado disse, com todas as letras, o que poucos tinham reparado: a vida era outra antigamente, até recentemente, até o instante em que a verdade do que ficou explícito virou a valer como placebo universal, ou seja, será difícil voltar ao que se conhecia, ao que nem se percebia, que era algo muito manjado, bem comum: a vida era simples, não pela simultaneidade, pela convivência não excludente, porque havia tempo para tudo, e ao mesmo tempo.

Sem chamar a atenção sobre si, o tempo seguia o seu curso como um rio que vai em frente sem se orgulhar, mas envaidecido, do respeito pelas margens que o instituem amigo, camarada e parceiro da fauna e da flora, e naturalmente do homem, que é esse bicho que não sossega até ser definido, logo abaixo do Homem Lá do Alto, como o cabeça da comédia cósmica.

Neste pastelão de cinema mudo, dá pra citar a elevada pressão que destempera, porque há: tempo pra amar e tempo pra odiar; tempo para semear e colher; tempo para dormir e para acordar; tempo de comer à mesa e para comer falando ao celular; tempo pra cancelar desafetos e tempo pros prosélitos; tempo de verão no inverno e dilúvio numa hora; tempo pra perder a esportiva com o aumento da gasolina e para ganhar a vida com hidrogênio verde, placas solares e papaias das barrancas do São Francisco.

Tempo transtornado por ciclones extratropicais, guie. Sem marra, e só por farra, oriente à alopração os tenentes.

Peça pra aplaudir com empolgação. Que os pés sejam batidos, que gritinhos sejam soltos, haja saltinhos no lugar. Façam-se fãs quem ficar à vontade no papel de paspalho excitado ou fiel abobalhado.

Em caso de arrependimento, haja mão no peito e olhar vidrado. Pois o delírio é força a ser dimensionada na apreensão do instante.

Haja arroz e feijão de cada dia e haja vinho nas noites de luar. Haja livro aberto no metrô e gritos em qualquer canto. Quem viva agindo por impulso seja quem sobreviva à lógica. A metade de uma com a metade de outra: seja una, seja uma, seja pessoa.

Os velhos tempos e os novos tempos dão um nó na gente, mas os delirantes sentem que ontem e hoje são um só, e sabem que o amanhã não existe nem haverá de existir.

Nas calendas soviéticas, a joça vivia ruça.

Nos velhos tempos, Cuba vivia cercada por soviéticos por todos os lados. E os soviéticos eram tantos, e vinham das beiras de Angola, das montanhas da Albânia, das barbas de Tito, dos mandarins cantoneses, das araguaias da Ilha Grande; e muitos cubanos eram soviéticos.

Mas os tempos são outros, nem charutos têm fumantes nem taças, amantes. Hoje o tempo da gente vale um bocado.

Pornograficamente, as redes viralizam a informação mais recente: opinião sem lastro não afunda, é foto que medra sem fatos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de outubro de 2023.

domingo, 1 de outubro de 2023

Passando pano

 

Passando pano

 

Pouco tenho ficado na varanda desde que removi a rede, faz já três meses. Se me emocionassem todas as coisas que faço, valorizaria as variadas sensações que o tédio produz. E teria certeza de que o tempo decorrido seria maior, bem como seria entorpecedora a serenidade.

Como não coro quando chuto a esmo, juro que certas estranhezas advêm da rede retirada. Porque cacholas serenamente entediadas têm autonomia, não nego que deploro quando penso nas messes de alface que teria feito nesse semestre. Sem balançar, indo fundo nessa versão horticultor, estaria ocupando a mente com o financiamento da próxima semeadura. Cáspite! Haja grana pra aparar tanta grama.

Não haja engano: uma pessoa determinada a mudar crê mesmo na mudança tão logo pense em transformações.

Vou voltar à varanda. Elevarei o pensamento: o que mais me alegra no momento é sentar quieto para admirar as abelhinhas voejando entre as lavandas do jardim. Esquecerei a rua. Para melhor tranquilizar-me, vou fechar meus olhos. Não vou trazer de volta a rede porque isso seria retroceder, e eu sou progressista. Ao pensar no mel e no trabalho que as abelhas têm para produzir o mel, vejo-me numa cadeira de balanço a calcular a felicidade de ficar valorizando a natureza.

Sem nenhuma obrigação de fazê-lo, abrirei os olhos. Diante de mim terei a realidade da varanda, outra vez. E verei o que posso fazer com o que enxergarei. Incomodado, indignado, ressabiado, tendo nas mãos o favo que colherei, vou revolucionar a varanda.

Serei verdadeiro. Direi que o ouro do fim do arco-íris tem cor de mel, cheiro de mel e sabor de mel. Fruto da liberdade, o mel que eu imagino é o ouro de que preciso, porque poderia rejeitá-lo.

Embora a varanda esteja empoeirada, pouco atrativa, vou restaurá-la, torná-la-ei o centro da casa. Cobiço o mel, e quero adoçar-me.

Para que o doce mais doce até enjoe por tanta docilidade, volto-me à varanda abandonada. Outra vez ativo, eu varro, retiro o grosso do pó e verifico com mais vagar, com maior cuidado.

Porque será preciso, lavarei e esfregarei, suarei sem dó.

Só depois é que a cadeira de balanço concebida por minha mente virá à varanda.

Comprarei tal objeto. Como ele há de ser, buscarei na internet.

Que a madeira seja dura e os cupins não a afetem. Que o desenho permita um balanço agradável, suave, silencioso, tranquilizante. Que a manutenção desse balanço pouco exija das pernas. Que a leveza leve ao sono, ao cochilo, ao desejo de permanecer mais um pouco, só mais um instante, um instantezinho de nada.

Mas é madrugada. Chamaram a polícia porque é madrugada.

Que eu pare com aquele barulho. Só maluco faz faxina às duas da matina. Eu aja com sobriedade. Se tudo tem hora, nem toda hora é pra tudo. E o sonho de balançar não se sobrepõe ao silêncio.

Melada de sonho, a cachola solta:

ꟷ Passar um paninho, isso eu posso?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de outubro de 2023.

quinta-feira, 28 de setembro de 2023

Vaca amarela

 

Vaca amarela

 

Confesso que excepcionalmente hoje estou preocupado com o que vem a seguir. Nos momentos de atribulação com o futuro, noto que viro coadjuvante. Não sou eu que me circunscreverei encruado no incerto, será a escuridão. A crônica tome o rumo que houver que tomar. Assim, sem querer mas sem descuido, o escriba entrega o fim: deslocando o começo, tumultuando no meio e, só mais um pouquinho, adiando o fim, a anedota do pastorzinho que grita gratuitamente que o lobo vai atacar o rebanho fique subentendida como fragmento a retratar o contexto.

Sendo a crônica fluxo, haja refluxo.

À vista disso, Honório, eu próprio sou instado a tomar um antiácido, ou padecerei azedumes mais cáusticos que os costumeiros. E cronista a ponto de pular na jugular da primeira pessoa que ouse inquiri-lo é nó a ser desfeito com espada, adaga ou lasca de vidro.

Se houvesse outro projeto, dá-lo-ia como promissor, mas não há.

O cronista não é engenheiro nem arquiteto, suas ficções nada mais são que palavras após palavras. Cuidando para que continuem sendo, firmem-se as palavras.

Tomo cuidado comigo, que posso sumir no ar. Frágil, posso explodir com a próxima palavra. Se não é espinho, ela é: ruptura. Pois, solto ao teclado, digito: bolha de sabão que acaba sumida, aqui.

Bem aqui, percebo que vim pra cá, mas ainda quero ir pra lá.

Lá é a janela. Da janela do quarto, eu vejo: o céu é azul.

Se soubesse calcular o tempo, diria que o sol marca sete e quinze.

Com a janela aberta, o bafo quente do vento me estapeia e diz: Seu Rodrigues, estas maritacas que cruzam o céu, ainda que nem se pense nisso, elas voltarão logo mais, quiçá ao meio-dia.

Volto a cerrar as cortinas. Retorno à cama. Não dormirei, está muito quente e o calorão me incomoda. Gosto do frio, pois durmo melhor, eu como melhor e relaciono-me com as pessoas com bom humor, sem os ressentimentos de cidadão contrariado.

Tadinho de mim que fico com as cortinas fechadas, mesmo que elas não vedem totalmente a luminosidade, espero as maritacas voltarem e que o sol a pino me diga: é meio-dia, é hora de ter sono.

Sono! E não fome.

Então a liberdade é não saber qual a próxima palavra? Sabendo as opções, liberdade é poder escolher qual palavra: a implícita seria sono; ou esta, a desvelada fome.

Faminto de novidades, ligo a TV.

Em vez de entrar mudo e sair escamado, o cagoeta fala: morto não sobe rampa porque morto bom jaz bem sepultado; vampiro selado na campa não padece calamidade, carece de eternidade; o Caetano que Sampa ama é o Caetano que ama Sampa.

Samba!

Sobre a próxima crônica, digo: será flamenguista; será melancia por fora e por dentro; integrada ao tempo, a pobrezinha fará rir; com efeito, fará rir desbragadamente; com o sol forte das alucinações, ela será um chapéu; mágica, ela nascerá de fezes; irremediavelmente, a psica será cubensis.

Cadê a vaquinha, Honório?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de setembro de 2023.

quarta-feira, 27 de setembro de 2023

Boa gente

 

Boa gente

 

Mesmo que as rotulem idiotas, há pessoas que sorriem quando lhes são feitos pedidos. Ficar de braços cruzados não tem graça, melhor é limpar caixa d’água. Sim, dinheiro importa, mas o menor bico é menos estressante que a ociosidade. Pois dez minutos em inatividade é mais exasperante que tirar cinquentinha por trocar um sifão em dez minutos.

Tem gente que vende a imagem de pessoa que não gosta de perder tempo, só não revela que faz tudo às pressas. Sem falar na dificuldade que é encontrar um portão mal pintado que testemunhe a favor dessa gente que vira maria-mole porque tem trabalho duro pra dar conta.

Com a experiência, sempre vem o momento em que o fígado toma a iniciativa de suplicar por alopáticos bem conceituados.

Afora o bom conceito dos seus princípios ativos, pro fármaco chegar a quem demanda uma limpeza quântica das entranhas que as estrelas recomendam, as maiores redes de farmácias sabem ser audazes com a respeitável audiência, ou não contratariam carinhas conhecidas que o público legitima como astros de ilibada magnitude.

Todo corpo de brilho intenso gera campo magnético, mas não basta simpatia a famosas e famosos, para que a atração gere calor e o calor seja transformado em afeto, eles têm que ser subscritores deste adágio elementar: como não machuca o prestígio nem arranha a consciência, dinheiro é chaga boa de coçar.

E gente que adora coçar a bondade alheia sabe integrar-se à fama, fazendo mais relevante quem mereça curtidas contínuas, perscrutando postagens pra que mais pessoas julguem positivamente quem merece que as curtidas sigam em alta, examinando imagens com o objetivo de expandir órbitas, tornando vasto o território iluminado pelos astros que não cessam de evoluir, esculpindo a aura bruta até que venha à luz a alegria deste ser que não enjoa, não entedia nem repele, o ídolo.

Não se trata de “sarna”, trata-se de “generosidade”.

Assim como beijar fotos de gente admirável é uma coisa excelente, replicar gentilezas é rebelar-se contra os amargos, os pessimistas e os reacionários.

Fulcral é denunciar essa turba que não propaga o amor, mas almeja ser agradecida pela mente aguçada. Embora admita trazer um buraco negro na alma, esta chusma adora fazer-se inútil, disfuncional, mão na roda pra atrapalhar quem deseja alçar-se à fortuna.

Aliás, é de bom-tom afirmar que cachê graúdo não impulsiona quem diz que é amoroso não dispensar a ajuda de pessoas solícitas que não conseguem manter-se de braços cruzados.

Eita!

As estrelas são adoráveis justamente porque intuem: quem trabalha pra caramba leva jeito pra fama de não ter vergonha de aceitar a ajuda de mãozinhas colaboradoras.

Alma altruísta, que só sabe ser gentil sem moderação, faça selfies, compartilhe os elogios que lhe fazem, beba sem cara feia a mistura de conhaque, vermute e suco de limão.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de setembro de 2023.