Energia
positiva
Apesar de ser escorpião, acredito na
realidade.
Circulo por aí porque as veredas que serpenteiam
não implicam que minha labirintite dificulte os trânsitos do mundo.
Leio as placas e vou pela rua sem
auxílio de bússola ou do sol.
Quando me perco, não me afobo, eu confio;
o endereço virá ao meu encontro, não rezingo; o lugar vem dar comigo quando estou
prestes a encontrá-lo, pois nele me encontro desde que saí buscá-lo.
E é por mim que saio por aí, e não vou
sempre em frente, sou como os ponteiros de um relógio, só paro de circular
quando acaba a bateria, falta corda ou quebra.
Como eu não quebro feito essa máquina
que marca o tempo, posso ignorar os instantes quando durmo, mas a hora passa e
o relógio segue funcionando, e eu, mesmo adormecido, também sigo.
Que coisa esplêndida é o ser humano, não
é geringonça que roda, roda, roda e não sai do lugar.
Há gente que vai longe, voa por quilômetros,
é criativa, usa a mente; pousa sem paraquedas porque tem trem de pouso, a
fantasia.
Eu que não tenho asas nem viajo de
avião, ando por aí, pelo mundo. Como não tenho necessidade de conquistar espaço
nem preciso cavar um buraco que me abrigue, tenho o rosto lavado pelo vento.
Posso deitar na grama, maravilhar-me com
o céu noturno e suspirar de amores quando me encanta uma estrela cadente.
Encantado, aceito que o sol, a lua, as
nuvens condicionem a minha alegria, a minha tristeza, meu desdém e meus
infortúnios, uma vez que me percebo suscetível aos campos de energia com os
quais a natureza me sensibiliza.
Tocado pelo sentimento de estar no
mundo, não escondo que tenho preferências e não me envergonho de anunciá-las: eu
ando pela banda ímpar das ruas quando o sol bate implacável; não saio de casa quando
chove, porque temo as calçadas esburacadas, desniveladas e as nem ainda assentadas,
pois terra molhada vira lama e lama é traiçoeira.
Em suma, o mundo é uma arapuca.
Com tal ideia de armadilha na cachola,
penso em quem a armou e, depois de uma espiada no espelho, reforço a ilusão: a
pessoa que vejo vê apenas a mim, porque a mim eu me vejo quando ela me vê.
Se fôssemos gente íntima que não tem
nada para revelar, eu ficaria bravo comigo, pois deveria contentar-me com a
imagem vista.
Mas a infelicidade nada tem a ver com
descontentamento nem com a mente fraca que não faz mover as nuvens.
A solução pro problema é simples: que a
mente fraca leia os jornais, pois o farfalhar das folhas move o ar; com mais
gente lendo horóscopo, maior a intensidade do vento; com a animação, o céu
nublado fica azul e céu limpo vira chuvoso.
Ter tudo ao gosto do freguês é justo.
E freguês conta com que a rua leve à
praça, na praça haja ipês, nos ipês haja canários cantores; sem ‘a’ nem ‘agá’,
a previsão não falhe.
Conforme desejo ter demonstrado:
acredito, a mente move moinhos assim como a lua, marota que só, controla mares,
marés e maremotos.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 17 de outubro de 2023.
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