terça-feira, 17 de outubro de 2023

Energia positiva

 

Energia positiva

 

Apesar de ser escorpião, acredito na realidade.

Circulo por aí porque as veredas que serpenteiam não implicam que minha labirintite dificulte os trânsitos do mundo.

Leio as placas e vou pela rua sem auxílio de bússola ou do sol.

Quando me perco, não me afobo, eu confio; o endereço virá ao meu encontro, não rezingo; o lugar vem dar comigo quando estou prestes a encontrá-lo, pois nele me encontro desde que saí buscá-lo.

E é por mim que saio por aí, e não vou sempre em frente, sou como os ponteiros de um relógio, só paro de circular quando acaba a bateria, falta corda ou quebra.

Como eu não quebro feito essa máquina que marca o tempo, posso ignorar os instantes quando durmo, mas a hora passa e o relógio segue funcionando, e eu, mesmo adormecido, também sigo.

Que coisa esplêndida é o ser humano, não é geringonça que roda, roda, roda e não sai do lugar.

Há gente que vai longe, voa por quilômetros, é criativa, usa a mente; pousa sem paraquedas porque tem trem de pouso, a fantasia.

Eu que não tenho asas nem viajo de avião, ando por aí, pelo mundo. Como não tenho necessidade de conquistar espaço nem preciso cavar um buraco que me abrigue, tenho o rosto lavado pelo vento.

Posso deitar na grama, maravilhar-me com o céu noturno e suspirar de amores quando me encanta uma estrela cadente.

Encantado, aceito que o sol, a lua, as nuvens condicionem a minha alegria, a minha tristeza, meu desdém e meus infortúnios, uma vez que me percebo suscetível aos campos de energia com os quais a natureza me sensibiliza.

Tocado pelo sentimento de estar no mundo, não escondo que tenho preferências e não me envergonho de anunciá-las: eu ando pela banda ímpar das ruas quando o sol bate implacável; não saio de casa quando chove, porque temo as calçadas esburacadas, desniveladas e as nem ainda assentadas, pois terra molhada vira lama e lama é traiçoeira.

Em suma, o mundo é uma arapuca.

Com tal ideia de armadilha na cachola, penso em quem a armou e, depois de uma espiada no espelho, reforço a ilusão: a pessoa que vejo vê apenas a mim, porque a mim eu me vejo quando ela me vê.

Se fôssemos gente íntima que não tem nada para revelar, eu ficaria bravo comigo, pois deveria contentar-me com a imagem vista.

Mas a infelicidade nada tem a ver com descontentamento nem com a mente fraca que não faz mover as nuvens.

A solução pro problema é simples: que a mente fraca leia os jornais, pois o farfalhar das folhas move o ar; com mais gente lendo horóscopo, maior a intensidade do vento; com a animação, o céu nublado fica azul e céu limpo vira chuvoso.

Ter tudo ao gosto do freguês é justo.

E freguês conta com que a rua leve à praça, na praça haja ipês, nos ipês haja canários cantores; sem ‘a’ nem ‘agá’, a previsão não falhe.

Conforme desejo ter demonstrado: acredito, a mente move moinhos assim como a lua, marota que só, controla mares, marés e maremotos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de outubro de 2023.

Nenhum comentário:

Postar um comentário