Banana
amassada
Papai, não se preocupe comigo. Estou
bem. Não estou sozinho em casa, mas minha companhia não vai causar problemas.
Como sempre, a solidão me acompanha.
É o anjo que não me guarda, é o ser que não
me protege de minhas instabilidades, então, acho bom não insistir em querer-me
mais calmo, assim, sem ter medo de mim mas arriscando estar enganado, vou ficar
sozinho em casa.
A solidão alivia-me da pressão que
aplico em mim, pois volta e meia eu corro, erro a mão, ponho peso onde não
devo, nem deveria cutucar, mas a tentação é grande, seduz a enfiar a mão na
cumbuca, e não sei se o caldo escuro do fundo é mel, preciso lamber o dedo para
saber se o mel ainda é doce, delicioso, ou é o cheiro que engana.
De vez em quando, papai, nos momentos em
que estou a ponto de cair no choro, a ansiedade por experimentar outra vez o
que conheço me faz apreciar mais ainda a companhia da minha consciência.
Sem dúvida, a solidão dá consciência à
pessoa que eu sou.
Quando vou desabar, perder o pé da
realidade, quando vou chorar sem saber a razão, então, papai, a sombra que me
sustenta na solidão desperta em mim a vontade de fumar um cigarrinho.
Eu não choro quando fumo, acendo um
cigarro e trago uma ou duas vezes, tusso feito idiota e, de pronto, jogo-o fora.
Não vou virar fumante de uma hora para outra porque a solução dos
desequilíbrios não passa pela euforia, talvez pela dor.
Não sinto dor, papai, logo sei que a mim
me penso.
Também não penso só em mim, penso nos
outros e saio andar; vou fumar em ambiente aberto porque os outros têm outras
dores.
Tomo o partido errado, o meu, pois sei
que fumar faz de mim o meu próprio inimigo, mas me defendo, mesmo errado,
porque sou cruel.
É por mim mesmo que volto a crueldade
contra mim, é pra controlar meu lado revoltado, mas não ajo assim pra que as
pessoas conheçam uma versão limpinha de mim, não quero que os outros saibam o
quanto posso ser insolente.
Se sou companhia incompreensível, que a
julguem os outros.
Papai, quando estou caminhando sem
ninguém a me acompanhar, estou cuidando de mim e resguardando os demais,
afastando-os desta minha faceta má.
Não preciso falar alto ou gesticular
como se eu estivesse possuído, a mim me basta andar calmamente, tragar tranquilamente,
nem preciso apagar o cigarro com a ponta do pé, nem imagino um alvo, apenas dou
um peteleco e vou adiante.
Eu andei e voltei. Mas eu não voltei consciente
de que o cigarro me satisfaz ao fumá-lo, voltei convicto de que estou certo de
que fumar me prejudica de modo tão gostoso.
Papai, entendo que falar que estou certo
dá motivo aos outros para dizer, orgulhosos, que conhecem um boa-praça que nem
eu.
Pessoa boa e correta, não me negarei a agir
como uma pessoa boa que não tem que sentir remorsos por fazer as coisas certas
que precisa fazer.
Mesmo sem um cigarrinho na boca,
varrerei pro lixo as baratas que atacavam a minha aveia.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 22 de outubro de 2023.
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