domingo, 1 de outubro de 2023

Passando pano

 

Passando pano

 

Pouco tenho ficado na varanda desde que removi a rede, faz já três meses. Se me emocionassem todas as coisas que faço, valorizaria as variadas sensações que o tédio produz. E teria certeza de que o tempo decorrido seria maior, bem como seria entorpecedora a serenidade.

Como não coro quando chuto a esmo, juro que certas estranhezas advêm da rede retirada. Porque cacholas serenamente entediadas têm autonomia, não nego que deploro quando penso nas messes de alface que teria feito nesse semestre. Sem balançar, indo fundo nessa versão horticultor, estaria ocupando a mente com o financiamento da próxima semeadura. Cáspite! Haja grana pra aparar tanta grama.

Não haja engano: uma pessoa determinada a mudar crê mesmo na mudança tão logo pense em transformações.

Vou voltar à varanda. Elevarei o pensamento: o que mais me alegra no momento é sentar quieto para admirar as abelhinhas voejando entre as lavandas do jardim. Esquecerei a rua. Para melhor tranquilizar-me, vou fechar meus olhos. Não vou trazer de volta a rede porque isso seria retroceder, e eu sou progressista. Ao pensar no mel e no trabalho que as abelhas têm para produzir o mel, vejo-me numa cadeira de balanço a calcular a felicidade de ficar valorizando a natureza.

Sem nenhuma obrigação de fazê-lo, abrirei os olhos. Diante de mim terei a realidade da varanda, outra vez. E verei o que posso fazer com o que enxergarei. Incomodado, indignado, ressabiado, tendo nas mãos o favo que colherei, vou revolucionar a varanda.

Serei verdadeiro. Direi que o ouro do fim do arco-íris tem cor de mel, cheiro de mel e sabor de mel. Fruto da liberdade, o mel que eu imagino é o ouro de que preciso, porque poderia rejeitá-lo.

Embora a varanda esteja empoeirada, pouco atrativa, vou restaurá-la, torná-la-ei o centro da casa. Cobiço o mel, e quero adoçar-me.

Para que o doce mais doce até enjoe por tanta docilidade, volto-me à varanda abandonada. Outra vez ativo, eu varro, retiro o grosso do pó e verifico com mais vagar, com maior cuidado.

Porque será preciso, lavarei e esfregarei, suarei sem dó.

Só depois é que a cadeira de balanço concebida por minha mente virá à varanda.

Comprarei tal objeto. Como ele há de ser, buscarei na internet.

Que a madeira seja dura e os cupins não a afetem. Que o desenho permita um balanço agradável, suave, silencioso, tranquilizante. Que a manutenção desse balanço pouco exija das pernas. Que a leveza leve ao sono, ao cochilo, ao desejo de permanecer mais um pouco, só mais um instante, um instantezinho de nada.

Mas é madrugada. Chamaram a polícia porque é madrugada.

Que eu pare com aquele barulho. Só maluco faz faxina às duas da matina. Eu aja com sobriedade. Se tudo tem hora, nem toda hora é pra tudo. E o sonho de balançar não se sobrepõe ao silêncio.

Melada de sonho, a cachola solta:

ꟷ Passar um paninho, isso eu posso?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de outubro de 2023.

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