Menino
triste
Duas crianças brincam em casa. Meninas e
meninos jogam na rua. Sem saber quem trouxe a bola, uma mulher e um homem
divertem-se com a pelada que as meninas e os meninos disputam. O tapete, a sala
e a varanda em que uma cadeira balança levemente com o vento estão na casa em
frente daquela em que a senhora e o senhor vibram a cada bela jogada. Quanto à
bola, as duas crianças, que não trocam o tapete pelos abraços nem ligam de sabê-la
esférica e chutável, ambas não se importam com outro brinquedo a menos no porão.
E a gritaria não para. Quando sai gol,
gritam de alegria ou reclamam da marcação. Quando há falta, porque a fizeram e
porque a marcaram, a gritaria é de quem não tem razão e, até mais intensa, de
quem a tem. Pois os gritos, a vontade de vencer, os dribles, as botinadas e o
calão produzem tamanha euforia e muitíssimo entusiasmo.
De tanto gritar e querer vencer na
marra, as meninas e os meninos da pelada da rua despertam o selvagem que toda
pessoa faz de conta que nem traz dentro de si.
A selvageria a céu aberto não tem
obstáculo que a impeça de subir. Lá no alto, o alvoroço faz São Pedro parar com
os seus afazeres. E ele vem dar uma espiada no que está acontecendo sob suas
barbas. E ele não hesita e não se excita, ele resolve de pronto: manda chuva.
Se fosse apenas água caindo dos céus,
ninguém se importaria.
Há ventania, portas batendo, alarmes
disparando, nuvens sombrias e nuvens totêmicas, há clarões instantâneos,
estrondos chocantes, há mães espavoridas, papais estapafúrdios e avôs
estrambóticos que, de todo comovidos, não têm como evitar os espasmos e
espaventos.
Os otimistas, pessoas que se
sensibilizam positivamente diante dos assombros do mundo, opinam que o temporal
é ótima providência, por interromper o fluxo das faltinhas à pancadaria animalizada.
Bons escoteiros que não juram à toa, os
pessimistas não duvidam que a tempestade despejada por São Pedro é pra acalmar
os raivosos, torná-los aptos a jogar pelas regras; eles estão convictos de que
o ser humano precisa ser contido, pra não dar ao lobo a pele do lobo.
Uma terceira corrente, todavia, não
atribui ao santo a proeza de ter acabado com a alegria dos homens; essa gente
sussurra que a chuva é a carapuça de uma fonte maligna: o demiurgo que governa o
mundo tem tentáculos que os humanos são incapazes de sentir, e de recusar,
portanto, a sua influência.
Assim, as duas crianças param de brincar
quando um menino entra. Elas não olham a bola, é que o menino molhado que cria
uma poça no tapete faz com que lhe peçam que as deixe em paz.
O menino que cria uma poça no tapete não
quer criar caso, ele nem quer brincar com aquelas crianças que preferem brincar
sobre o tapete da sala a brincar lá fora, a bater bola lá na chuva.
É triste, menino em pé sobre o tapete,
todo mundo parece que nem fica chateado, que toda gente se contenta em ficar
enfurnada.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 15 de outubro de 2023.
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