domingo, 15 de outubro de 2023

Menino triste

 

Menino triste

 

Duas crianças brincam em casa. Meninas e meninos jogam na rua. Sem saber quem trouxe a bola, uma mulher e um homem divertem-se com a pelada que as meninas e os meninos disputam. O tapete, a sala e a varanda em que uma cadeira balança levemente com o vento estão na casa em frente daquela em que a senhora e o senhor vibram a cada bela jogada. Quanto à bola, as duas crianças, que não trocam o tapete pelos abraços nem ligam de sabê-la esférica e chutável, ambas não se importam com outro brinquedo a menos no porão.

E a gritaria não para. Quando sai gol, gritam de alegria ou reclamam da marcação. Quando há falta, porque a fizeram e porque a marcaram, a gritaria é de quem não tem razão e, até mais intensa, de quem a tem. Pois os gritos, a vontade de vencer, os dribles, as botinadas e o calão produzem tamanha euforia e muitíssimo entusiasmo.

De tanto gritar e querer vencer na marra, as meninas e os meninos da pelada da rua despertam o selvagem que toda pessoa faz de conta que nem traz dentro de si.

A selvageria a céu aberto não tem obstáculo que a impeça de subir. Lá no alto, o alvoroço faz São Pedro parar com os seus afazeres. E ele vem dar uma espiada no que está acontecendo sob suas barbas. E ele não hesita e não se excita, ele resolve de pronto: manda chuva.

Se fosse apenas água caindo dos céus, ninguém se importaria.

Há ventania, portas batendo, alarmes disparando, nuvens sombrias e nuvens totêmicas, há clarões instantâneos, estrondos chocantes, há mães espavoridas, papais estapafúrdios e avôs estrambóticos que, de todo comovidos, não têm como evitar os espasmos e espaventos.

Os otimistas, pessoas que se sensibilizam positivamente diante dos assombros do mundo, opinam que o temporal é ótima providência, por interromper o fluxo das faltinhas à pancadaria animalizada.

Bons escoteiros que não juram à toa, os pessimistas não duvidam que a tempestade despejada por São Pedro é pra acalmar os raivosos, torná-los aptos a jogar pelas regras; eles estão convictos de que o ser humano precisa ser contido, pra não dar ao lobo a pele do lobo.

Uma terceira corrente, todavia, não atribui ao santo a proeza de ter acabado com a alegria dos homens; essa gente sussurra que a chuva é a carapuça de uma fonte maligna: o demiurgo que governa o mundo tem tentáculos que os humanos são incapazes de sentir, e de recusar, portanto, a sua influência.

Assim, as duas crianças param de brincar quando um menino entra. Elas não olham a bola, é que o menino molhado que cria uma poça no tapete faz com que lhe peçam que as deixe em paz.

O menino que cria uma poça no tapete não quer criar caso, ele nem quer brincar com aquelas crianças que preferem brincar sobre o tapete da sala a brincar lá fora, a bater bola lá na chuva.

É triste, menino em pé sobre o tapete, todo mundo parece que nem fica chateado, que toda gente se contenta em ficar enfurnada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de outubro de 2023.

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