terça-feira, 3 de outubro de 2023

Um tanto maestro

 

Um tanto maestro

 

De repente, como se um raio tivesse caído de uma nuvem até então imperceptível, alguém reparou e, sem se achar ridículo ou messiânico, tal iluminado disse, com todas as letras, o que poucos tinham reparado: a vida era outra antigamente, até recentemente, até o instante em que a verdade do que ficou explícito virou a valer como placebo universal, ou seja, será difícil voltar ao que se conhecia, ao que nem se percebia, que era algo muito manjado, bem comum: a vida era simples, não pela simultaneidade, pela convivência não excludente, porque havia tempo para tudo, e ao mesmo tempo.

Sem chamar a atenção sobre si, o tempo seguia o seu curso como um rio que vai em frente sem se orgulhar, mas envaidecido, do respeito pelas margens que o instituem amigo, camarada e parceiro da fauna e da flora, e naturalmente do homem, que é esse bicho que não sossega até ser definido, logo abaixo do Homem Lá do Alto, como o cabeça da comédia cósmica.

Neste pastelão de cinema mudo, dá pra citar a elevada pressão que destempera, porque há: tempo pra amar e tempo pra odiar; tempo para semear e colher; tempo para dormir e para acordar; tempo de comer à mesa e para comer falando ao celular; tempo pra cancelar desafetos e tempo pros prosélitos; tempo de verão no inverno e dilúvio numa hora; tempo pra perder a esportiva com o aumento da gasolina e para ganhar a vida com hidrogênio verde, placas solares e papaias das barrancas do São Francisco.

Tempo transtornado por ciclones extratropicais, guie. Sem marra, e só por farra, oriente à alopração os tenentes.

Peça pra aplaudir com empolgação. Que os pés sejam batidos, que gritinhos sejam soltos, haja saltinhos no lugar. Façam-se fãs quem ficar à vontade no papel de paspalho excitado ou fiel abobalhado.

Em caso de arrependimento, haja mão no peito e olhar vidrado. Pois o delírio é força a ser dimensionada na apreensão do instante.

Haja arroz e feijão de cada dia e haja vinho nas noites de luar. Haja livro aberto no metrô e gritos em qualquer canto. Quem viva agindo por impulso seja quem sobreviva à lógica. A metade de uma com a metade de outra: seja una, seja uma, seja pessoa.

Os velhos tempos e os novos tempos dão um nó na gente, mas os delirantes sentem que ontem e hoje são um só, e sabem que o amanhã não existe nem haverá de existir.

Nas calendas soviéticas, a joça vivia ruça.

Nos velhos tempos, Cuba vivia cercada por soviéticos por todos os lados. E os soviéticos eram tantos, e vinham das beiras de Angola, das montanhas da Albânia, das barbas de Tito, dos mandarins cantoneses, das araguaias da Ilha Grande; e muitos cubanos eram soviéticos.

Mas os tempos são outros, nem charutos têm fumantes nem taças, amantes. Hoje o tempo da gente vale um bocado.

Pornograficamente, as redes viralizam a informação mais recente: opinião sem lastro não afunda, é foto que medra sem fatos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de outubro de 2023.

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