Um
tanto maestro
De repente, como se um raio tivesse
caído de uma nuvem até então imperceptível, alguém reparou e, sem se achar
ridículo ou messiânico, tal iluminado disse, com todas as letras, o que poucos
tinham reparado: a vida era outra antigamente, até recentemente, até o instante
em que a verdade do que ficou explícito virou a valer como placebo universal,
ou seja, será difícil voltar ao que se conhecia, ao que nem se percebia, que
era algo muito manjado, bem comum: a vida era simples, não pela simultaneidade,
pela convivência não excludente, porque havia tempo para tudo, e ao mesmo
tempo.
Sem chamar a atenção sobre si, o tempo seguia
o seu curso como um rio que vai em frente sem se orgulhar, mas envaidecido, do
respeito pelas margens que o instituem amigo, camarada e parceiro da fauna e da
flora, e naturalmente do homem, que é esse bicho que não sossega até ser
definido, logo abaixo do Homem Lá do Alto, como o cabeça da comédia
cósmica.
Neste pastelão de cinema mudo, dá pra
citar a elevada pressão que destempera, porque há: tempo pra amar e tempo pra
odiar; tempo para semear e colher; tempo para dormir e para acordar; tempo de
comer à mesa e para comer falando ao celular; tempo pra cancelar desafetos e
tempo pros prosélitos; tempo de verão no inverno e dilúvio numa hora; tempo pra
perder a esportiva com o aumento da gasolina e para ganhar a vida com hidrogênio
verde, placas solares e papaias das barrancas do São Francisco.
Tempo transtornado por ciclones
extratropicais, guie. Sem marra, e só por farra, oriente à alopração os
tenentes.
Peça pra aplaudir com empolgação. Que os
pés sejam batidos, que gritinhos sejam soltos, haja saltinhos no lugar.
Façam-se fãs quem ficar à vontade no papel de paspalho excitado ou fiel abobalhado.
Em caso de arrependimento, haja mão no
peito e olhar vidrado. Pois o delírio é força a ser dimensionada na apreensão
do instante.
Haja arroz e feijão de cada dia e haja
vinho nas noites de luar. Haja livro aberto no metrô e gritos em qualquer canto.
Quem viva agindo por impulso seja quem sobreviva à lógica. A metade de uma com a
metade de outra: seja una, seja uma, seja pessoa.
Os velhos tempos e os novos tempos dão
um nó na gente, mas os delirantes sentem que ontem e hoje são um só, e sabem
que o amanhã não existe nem haverá de existir.
Nas calendas soviéticas, a joça vivia
ruça.
Nos velhos tempos, Cuba vivia cercada
por soviéticos por todos os lados. E os soviéticos eram tantos, e vinham das
beiras de Angola, das montanhas da Albânia, das barbas de Tito, dos mandarins
cantoneses, das araguaias da Ilha Grande; e muitos cubanos eram soviéticos.
Mas os tempos são outros, nem charutos
têm fumantes nem taças, amantes. Hoje o tempo da gente vale um bocado.
Pornograficamente, as redes viralizam a
informação mais recente: opinião sem lastro não afunda, é foto que medra sem
fatos.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 03 de outubro de 2023.
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