domingo, 8 de outubro de 2023

Valentia adestrada

 

Valentia adestrada

 

Desde que ganhei um cachorro, tenho passado pela praça dia sim, outro também. E tal passagem diária permitiu-me a constatação de que antes da chegada do camaradinha eu tinha uma visão pacata da vida, pois era um cidadão pouco preocupado com a coisa pública.

Em vez de ser grato às árvores pela sombra nos dias muito quentes, eu gostava de chiar contra o serviço público de limpeza por deixar uma floresta de folhas no caminho.

Nos dias de chuva, é comum tombo emendar em outro.

O que dava razão de sobra para que eu acalentasse o juízo de que não deveria incidir uma taxa menor sobre a limpeza urbana, bom seria se a tarifa fosse zero. Com este imposto zero aplicável aos munícipes em geral, até àqueles sem interesse em saber qual o índice de quedas por folhas no caminho.

Sendo a realidade dinâmica, agora que tenho um cãozinho, a minha percepção está alterada: se lidava bem com as minhas necessidades, aprendi a colocar-me no lugar do animalzinho.

Justamente porque a minha tentativa de ensiná-lo a urinar e defecar num retângulo de areia foi um desastre, eu ganhei muito mais depois que desisti do adestramento sanitário.

Depois de ter mijo e fezes pela casa afora, eu entendi: a cidade tem postes que não precisam ser usados exclusivamente como suporte aos cartazes de gato perdido, amor conquistado e futuro na trinca de ases; as ruas têm calçadas das quais também pode ser removido mais que o lixo nosso de cada dia; árvores têm troncos para serem irrigados pelo bicho homem e seus bichinhos muito bem humanizados.

Em outras palavras, deixei de agir errado: o bom funcionamento das entranhas do meu cão não surpreende, por isso, nas nossas saidinhas, não me esqueço das folhas de jornal e sacolinhas plásticas.

Sem duvidar da minha determinação, lutei comigo até que me venci e retifiquei a minha postura diante do mundo: e tão naturalmente passei a apreciar o canto dos passarinhos, em vez de suplicar a ninguém que as buzinas fossem retiradas dos automóveis, até porque os motoristas nervosinhos continuam a compor música concreta, neuroticamente.

Como prefiro fugir dos congestionamentos, peguei gosto por ir cedo à praça. Com as ruas vazias, eu nem sinto a hora correr enquanto meu amicão dá as suas mijadinhas.

Outro dia, não me irritei com um barulhão incomum, fiquei curioso.

Pela abertura menor que um metro, além do barulho de máquina à toda, escapava um fumacê fedorento.

A pastelaria aberta às sete era estranho, mas o impressionante foi, porta afora, a fuga das baratas, que zanzavam pela calçada.

O meu cão não parava de latir, mas os insetos ignoravam-no.

Mas o engraçado foi quando ratos e mais ratos correram pela praça e o meu audacioso amiguinho veio na minha direção.

Sentado nas patas traseiras, com o rabinho a mil e a intrepidez dos indomáveis valentões, todo exibido, ele mostrava a guia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de outubro de 2023.

Nenhum comentário:

Postar um comentário