quinta-feira, 5 de outubro de 2023

O mundo dos sapatos

 

O mundo dos sapatos

 

A hora da boia foi boa, e você comeu o quanto quis, comeu o tanto que aguentou, mordeu o bife com os dentes restaurados, bebeu o suco de morango que adoçou com açúcar refinado, chupou com estridência o restinho do suco, tudo sem pressa, mastigando com gosto, sentindo o gosto, pois estava cansado de almoçar correndo, sempre engolindo ligeiro pra não ser devorado feito prato-feito, o tempo se danasse, tinha em compromisso manter-se atento mas em baixa tensão, faria esperar quem não achava certo ficar esperando, podia correr, se apressar, isso não seria problema, quem condicionado à rotina cumpre-a sem vacilar, o desempenho depende, pra não jejuar à toa, tem que pensar, embora nauseado com o mundo, você tome tento ao mastigar.

Não se aborreça, a conta de luz foi paga ontem, o carnê das roupas está pago, a prestação dos óculos em dia, a parcela do celular nunca ficou atrasada, consulta alguma foi desmarcada pela falta de dinheiro, nenhum exame deixou de ser realizado por medo de agulha, vendedor algum gastou saliva, porque você nunca foi de estripulias, assalariado que só faz gastos que não o assaltem à noite, se abusa das neuroses é porque traz ansiolíticos na carteira, você só dá o passo conforme ao solado dos sapatos, caminha olhando pra calçada, quer ver as cascas de banana, você se controla, e toma pouca água porque piso molhado é liso, você não quer se pegar contaminado pelas ansiedades alheias, pense, não se precipite, você pense, não queira sofrer em vão.

E você sofre, que seja por besteira ou algo sério, você sofre, ainda que a obrigação de lavar o quintal seja sua, você brinca com os cães, e não descansa, porque, Zeca, embora seja sábado, dia pra dar aquele passeio pelo bairro, você lava a bicicleta, lava o quintal, lava a casinha dos cachorros, e lava a louça do jantar, sim, você tem cães e pratos.

Os cães estão à porta, e você não se preocupa com os bebuns que desafinam, não o irritam os versos repetidos da canção, você assobia, se anima com o vento, com o ruído que o vento faz quando passa pelas árvores, você tem fome mas não vai beliscar, tem livro pra ler, não tem que retomar a leitura mas quer retomá-la, tem um clarão vindo de fora, dá pra ver a lua, e a contempla, a contempla, “essa lua, esse conhaque, botam a gente comovido como o diabo”, nem conhaque você bebe.

Comovido, ainda que nem lhe ocorresse pensar que poderia acabar febril, você se emociona, as pálpebras tremem, a garganta coça, você não tem explicação nem pensa em encontrar uma, tem a mente sapeca de quem tira ouro do nariz, você sente o mundo, tem gente dormindo, tem gente querendo dormir, tem gente com fome, mas você assobia, é gente que sabe assobiar, gente que quer cantar, e você fecha a janela, corre as cortinas, apaga a luz, pois é hora de sonhar com gatos e ratos, e sonhar com um cão que não lhe cace os sapatos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de outubro de 2023.

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