A
roupa do corpo
Sobre a minha reserva, sou discreto.
Mesmo que não me convenha, emudeço, fico retraído; já os fanfarrões mostram-se satisfeitos
consigo; enquanto eu me absumo, espalhafatam-se.
Em meio a bruxos e mestres da natureza,
faço a mágica de não me entregar à vaidade, vou vivendo. Pra não me apagar
inteiramente, sigo existindo. De desaparição em desaparição, deixo migalhas.
Posso sumiços; e assentir-me poderoso,
alegra-me.
Embora não sejam mágicos, meus poderes
são potentes; tanto são que, atônito, fico convulsionado, bestificado, de
queixo caído.
No esplendor de fazer-me tímido, recluso
na tartamudez, torno-me observador concentrado no que vai pelo entorno; tanto me
desconcerta o mundo que apuro o juízo pelo que avivo, à flor de mim, desabrochem
idiossincrasias cristalinas; e deveras sensibilizado, tamanho o realismo da contenção,
percebo-me: não sou mármore que respira.
Respiro mas sorrio a quem respira.
Serenamente respiro; e cheguei a tal estado porque é deplorável quem vive na
obsessão: a serenidade gere felicidade.
É feliz quem persevera no caminho da
felicidade? Não creio.
Estou no mundo; e na ventura do
instante, vivo e sobrevivo. Aceito a felicidade enquanto dure; só as
frustrações martirizam-me; já que são efêmeras as decepções, consigo
transformá-las ou superá-las.
Não é preciso um bom motivo para uma
pessoa acreditar que possa imaginar-se o centro de cenas grandiosas, feito
herói em ação.
O mundo basta a quem o observa, ele é
real. Por ser real, o mundo não consola o cidadão. Pela realidade não ser
bastante, o cidadão que tece linhas mentais usa da indivisibilidade pra notar o
quanto às vezes o bem produz o mal e o mal, porventura, faz o bem.
No maniqueísmo dessa percepção, a fila
do caixa anda.
ꟷ É azeite?
ꟷ É mel.
ꟷ Quanto custa?
ꟷ Não sei.
ꟷ Você compra as coisas sem saber o
preço?
ꟷ Prefiro adoçar a vida naturalmente.
ꟷ Quer dizer que açúcar é química que
prejudica a gente?
ꟷ Ele custa R$ 23,45, senhora.
ꟷ Que caro!
ꟷ O mel de casa empedrou, o senhor sabe
como fazer voltar?
ꟷ Amiga, mel empedrado está estragado.
ꟷ Moça, é só colocar o mel cristalizado
em banho-maria que o calor o deixará liquefeito novamente.
ꟷ Então, o mel ainda está bom?
Entre a ganância e o ressentimento, a
máscara detestável que não uso é a de intermediário. E uma vez que não me seduzo
a apaziguador ou a belicoso, converso com os meus botões.
“E as abelhinhas? Ninguém se preocupa
com o aquecimento global matando milhares de milhões de abelhinhas mundo afora;
ninguém se condói pelas pobrezinhas. E as pessoas têm orgulho de trabalhar pelo
próprio sustento, e fazem questão de dizer que precisam ralar pelo pão de cada
dia. As ignorantes reclamam do preço das frutas, lamentam a baixa qualidade dos
frutos e não entendem a interligação de escassez e carestia.”
ꟷ Não tem nada pra dizer, padre?
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 29 de outubro de 2023.
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