domingo, 29 de outubro de 2023

A roupa do corpo

 

A roupa do corpo

 

Sobre a minha reserva, sou discreto. Mesmo que não me convenha, emudeço, fico retraído; já os fanfarrões mostram-se satisfeitos consigo; enquanto eu me absumo, espalhafatam-se.

Em meio a bruxos e mestres da natureza, faço a mágica de não me entregar à vaidade, vou vivendo. Pra não me apagar inteiramente, sigo existindo. De desaparição em desaparição, deixo migalhas.

Posso sumiços; e assentir-me poderoso, alegra-me.

Embora não sejam mágicos, meus poderes são potentes; tanto são que, atônito, fico convulsionado, bestificado, de queixo caído.

No esplendor de fazer-me tímido, recluso na tartamudez, torno-me observador concentrado no que vai pelo entorno; tanto me desconcerta o mundo que apuro o juízo pelo que avivo, à flor de mim, desabrochem idiossincrasias cristalinas; e deveras sensibilizado, tamanho o realismo da contenção, percebo-me: não sou mármore que respira.

Respiro mas sorrio a quem respira. Serenamente respiro; e cheguei a tal estado porque é deplorável quem vive na obsessão: a serenidade gere felicidade.

É feliz quem persevera no caminho da felicidade? Não creio.

Estou no mundo; e na ventura do instante, vivo e sobrevivo. Aceito a felicidade enquanto dure; só as frustrações martirizam-me; já que são efêmeras as decepções, consigo transformá-las ou superá-las.

Não é preciso um bom motivo para uma pessoa acreditar que possa imaginar-se o centro de cenas grandiosas, feito herói em ação.

O mundo basta a quem o observa, ele é real. Por ser real, o mundo não consola o cidadão. Pela realidade não ser bastante, o cidadão que tece linhas mentais usa da indivisibilidade pra notar o quanto às vezes o bem produz o mal e o mal, porventura, faz o bem.

No maniqueísmo dessa percepção, a fila do caixa anda.

ꟷ É azeite?

ꟷ É mel.

ꟷ Quanto custa?

ꟷ Não sei.

ꟷ Você compra as coisas sem saber o preço?

ꟷ Prefiro adoçar a vida naturalmente.

ꟷ Quer dizer que açúcar é química que prejudica a gente?

ꟷ Ele custa R$ 23,45, senhora.

ꟷ Que caro!

ꟷ O mel de casa empedrou, o senhor sabe como fazer voltar?

ꟷ Amiga, mel empedrado está estragado.

ꟷ Moça, é só colocar o mel cristalizado em banho-maria que o calor o deixará liquefeito novamente.

ꟷ Então, o mel ainda está bom?

Entre a ganância e o ressentimento, a máscara detestável que não uso é a de intermediário. E uma vez que não me seduzo a apaziguador ou a belicoso, converso com os meus botões.

“E as abelhinhas? Ninguém se preocupa com o aquecimento global matando milhares de milhões de abelhinhas mundo afora; ninguém se condói pelas pobrezinhas. E as pessoas têm orgulho de trabalhar pelo próprio sustento, e fazem questão de dizer que precisam ralar pelo pão de cada dia. As ignorantes reclamam do preço das frutas, lamentam a baixa qualidade dos frutos e não entendem a interligação de escassez e carestia.”

ꟷ Não tem nada pra dizer, padre?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de outubro de 2023.


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