terça-feira, 31 de outubro de 2023

Mais uma chance

 

Mais uma chance

 

A menina bateu, e aguardou. Com mais força, tornou a bater. Sem paciência para esperar, ela bateu e bateu.

Ficar batendo era inútil, uma vez que aquela porta era igualzinha à do quarto dos pais, que gostava de ficar trancada sempre que trovões arrancavam-na da cama dos sonhos.

Com medo dos clarões, quer que seus punhos virem machado para abrir passagem. Com tantos raios, implora ser abrigada entre o pai e a mãe. Com todas as suas forças, desespera a esmurrá-la.

Apesar daquele estardalhaço, ninguém apareceu.

Já que a chuva tinha engrossado, a menina colocou a assadeira no capacho em que estava escrito: ‘lar de gente feliz’.

Essa gente ficará mais feliz com o bolo de cenoura; feliz e satisfeita, pois o bolo de cenoura tem um toque especial: em vez da cobertura de chocolate, está coberto com coco, com o recheio de coco que torna os bolos de aniversário irresistivelmente saborosos.

A menina levantou o papel-alumínio; aqueles pedacinhos a fizeram salivar. Pra resistir àquela vontade, precisava ir embora, mas não tinha como ir-se dali porque a chuva estava bastante forte.

É preciso lucidez pra resolver problemas sérios. Mas pessoa lúcida não implica que esteja serena. Embora sofra antes de decidir-se, tendo em vista o pior que pode acontecer, é preciso querer o menos ruim.

Se fosse embora debaixo daquela chuvarada, levaria bronca pelas suas roupas ensopadas. Então, até que a chuva diminuísse um pouco, o jeito seria balançar-se na cadeira da varanda. Se sentasse sem pedir ordem, a gente da casa iria passar-lhe um pito. Tomar sabão era muito injusto, só porque estava balançando, isso não era para tanto; além do mais, o aguaceiro vinha do céu, ela não tinha como controlá-lo.

Nisso, veio um cachorro abanando-se à garota.

Porque gostou da companhia, afagou-o, chamou-o de amigão, quis colocá-lo no colo, mas o bicho foi bisbilhotar a coisa à porta.

Ele farejou que aquilo era algo comestível. A pata serviu para rasgar o papel-alumínio. Pra abocanhá-los, o focinho soltou tijolinhos de bolo. Sem ‘au-aus’ a denunciá-lo esfomeado, enfarou-se.

Com o celular, a menina gravou tudo.

Aquele cachorrinho era mesmo esperto. Tão logo sentiu o cheirinho de coisa boa, devorou a maior parte. Ele fez o certo, pois o vento faria com que a chuva estragasse o bolo.

A chuva diminuiu e ela correu pra casa.

Assim que a viu encharcada, com palmadas na bunda, a criança foi surrada pela mãe.

Ela não tinha nada que ficar mostrando gravaçãozinha de cachorro ou ficar inventando que tinha feito algo bom, porque não tinha nada de ter dado o bolo prum vira-lata de rua.

Ela fosse se enxugar, mas a menina correu pro seu quarto, trancou a porta, pulou a janela e foi sentar-se na jabuticabeira.

Sem casa na árvore, pôde esconder-se atrás das folhas; quietinha, iria provar o seu ponto, que as roupas secam por conta.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de outubro de 2023.

Nenhum comentário:

Postar um comentário