quinta-feira, 28 de setembro de 2023

Vaca amarela

 

Vaca amarela

 

Confesso que excepcionalmente hoje estou preocupado com o que vem a seguir. Nos momentos de atribulação com o futuro, noto que viro coadjuvante. Não sou eu que me circunscreverei encruado no incerto, será a escuridão. A crônica tome o rumo que houver que tomar. Assim, sem querer mas sem descuido, o escriba entrega o fim: deslocando o começo, tumultuando no meio e, só mais um pouquinho, adiando o fim, a anedota do pastorzinho que grita gratuitamente que o lobo vai atacar o rebanho fique subentendida como fragmento a retratar o contexto.

Sendo a crônica fluxo, haja refluxo.

À vista disso, Honório, eu próprio sou instado a tomar um antiácido, ou padecerei azedumes mais cáusticos que os costumeiros. E cronista a ponto de pular na jugular da primeira pessoa que ouse inquiri-lo é nó a ser desfeito com espada, adaga ou lasca de vidro.

Se houvesse outro projeto, dá-lo-ia como promissor, mas não há.

O cronista não é engenheiro nem arquiteto, suas ficções nada mais são que palavras após palavras. Cuidando para que continuem sendo, firmem-se as palavras.

Tomo cuidado comigo, que posso sumir no ar. Frágil, posso explodir com a próxima palavra. Se não é espinho, ela é: ruptura. Pois, solto ao teclado, digito: bolha de sabão que acaba sumida, aqui.

Bem aqui, percebo que vim pra cá, mas ainda quero ir pra lá.

Lá é a janela. Da janela do quarto, eu vejo: o céu é azul.

Se soubesse calcular o tempo, diria que o sol marca sete e quinze.

Com a janela aberta, o bafo quente do vento me estapeia e diz: Seu Rodrigues, estas maritacas que cruzam o céu, ainda que nem se pense nisso, elas voltarão logo mais, quiçá ao meio-dia.

Volto a cerrar as cortinas. Retorno à cama. Não dormirei, está muito quente e o calorão me incomoda. Gosto do frio, pois durmo melhor, eu como melhor e relaciono-me com as pessoas com bom humor, sem os ressentimentos de cidadão contrariado.

Tadinho de mim que fico com as cortinas fechadas, mesmo que elas não vedem totalmente a luminosidade, espero as maritacas voltarem e que o sol a pino me diga: é meio-dia, é hora de ter sono.

Sono! E não fome.

Então a liberdade é não saber qual a próxima palavra? Sabendo as opções, liberdade é poder escolher qual palavra: a implícita seria sono; ou esta, a desvelada fome.

Faminto de novidades, ligo a TV.

Em vez de entrar mudo e sair escamado, o cagoeta fala: morto não sobe rampa porque morto bom jaz bem sepultado; vampiro selado na campa não padece calamidade, carece de eternidade; o Caetano que Sampa ama é o Caetano que ama Sampa.

Samba!

Sobre a próxima crônica, digo: será flamenguista; será melancia por fora e por dentro; integrada ao tempo, a pobrezinha fará rir; com efeito, fará rir desbragadamente; com o sol forte das alucinações, ela será um chapéu; mágica, ela nascerá de fezes; irremediavelmente, a psica será cubensis.

Cadê a vaquinha, Honório?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de setembro de 2023.

Nenhum comentário:

Postar um comentário