Vaca
amarela
Confesso que excepcionalmente hoje estou
preocupado com o que vem a seguir. Nos momentos de atribulação com o futuro, noto
que viro coadjuvante. Não sou eu que me circunscreverei encruado no incerto, será
a escuridão. A crônica tome o rumo que houver que tomar. Assim, sem querer mas
sem descuido, o escriba entrega o fim: deslocando o começo, tumultuando no meio
e, só mais um pouquinho, adiando o fim, a anedota do pastorzinho que grita
gratuitamente que o lobo vai atacar o rebanho fique subentendida como fragmento
a retratar o contexto.
Sendo a crônica fluxo, haja refluxo.
À vista disso, Honório, eu próprio sou
instado a tomar um antiácido, ou padecerei azedumes mais cáusticos que os
costumeiros. E cronista a ponto de pular na jugular da primeira pessoa que ouse
inquiri-lo é nó a ser desfeito com espada, adaga ou lasca de vidro.
Se houvesse outro projeto, dá-lo-ia como
promissor, mas não há.
O cronista não é engenheiro nem
arquiteto, suas ficções nada mais são que palavras após palavras. Cuidando para
que continuem sendo, firmem-se as palavras.
Tomo cuidado comigo, que posso sumir no
ar. Frágil, posso explodir com a próxima palavra. Se não é espinho, ela é:
ruptura. Pois, solto ao teclado, digito: bolha de sabão que acaba sumida, aqui.
Bem aqui, percebo que vim pra cá, mas
ainda quero ir pra lá.
Lá é a janela. Da janela do quarto, eu vejo:
o céu é azul.
Se soubesse calcular o tempo, diria que
o sol marca sete e quinze.
Com a janela aberta, o bafo quente do
vento me estapeia e diz: Seu Rodrigues, estas maritacas que cruzam o céu, ainda
que nem se pense nisso, elas voltarão logo mais, quiçá ao meio-dia.
Volto a cerrar as cortinas. Retorno à
cama. Não dormirei, está muito quente e o calorão me incomoda. Gosto do frio, pois
durmo melhor, eu como melhor e relaciono-me com as pessoas com bom humor, sem
os ressentimentos de cidadão contrariado.
Tadinho de mim que fico com as cortinas
fechadas, mesmo que elas não vedem totalmente a luminosidade, espero as
maritacas voltarem e que o sol a pino me diga: é meio-dia, é hora de ter sono.
Sono! E não fome.
Então a liberdade é não saber qual a
próxima palavra? Sabendo as opções, liberdade é poder escolher qual palavra: a implícita
seria sono; ou esta, a desvelada fome.
Faminto de novidades, ligo a TV.
Em vez de entrar mudo e sair escamado, o
cagoeta fala: morto não sobe rampa porque morto bom jaz bem sepultado; vampiro
selado na campa não padece calamidade, carece de eternidade; o Caetano que
Sampa ama é o Caetano que ama Sampa.
Samba!
Sobre a próxima crônica, digo: será
flamenguista; será melancia por fora e por dentro; integrada ao tempo, a
pobrezinha fará rir; com efeito, fará rir desbragadamente; com o sol forte das
alucinações, ela será um chapéu; mágica, ela nascerá de fezes;
irremediavelmente, a psica será cubensis.
Cadê a vaquinha, Honório?
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 28 de setembro de 2023.
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