quinta-feira, 19 de outubro de 2023

Um pouco de paz

 

Um pouco de paz

 

De segunda a sexta, a reforma da casa ao lado da minha é bastante barulhenta: as marteladas começam às sete; já o falatório dos homens começa antes, às seis e meia.

Quão poderosa é a magia dos homens. Ela me estimula a saltar da cama, porque os meus ouvidos alvoroçam quando percebem que o dia principia a precipitar seus eventos.

Enfeitiçado, sou útil e prático; e, uma vez alvoroçado, essa persona impassível força o viço: acuado em mim, meus dentes rangem e tenho língua cortante; diante de mim e de toda gente, insulta-me ter que lutar comigo até que, intratável, me afaste, eu recue, isole-me.

Prevendo cansaço e pressentindo o esgotamento, e porque não me apraz ser tirado do sono pelos negócios do mundo, tomo banho e bebo café antes que os tais tagarelas entrem na obra.

Na pausa do almoço, ontem, à porta do tapume estava um operário; desejei passar por ele sem comentar os efeitos dos ruídos sobre mim, mas a tagarelice pode ser astuta e revelar-se mesmo numa pessoa até no instante em que se imagina serena, de boa com o mundo.

Súbito vi-me vencido pela serra que bem cedinho cortava ferragens, admiti a imbecilidade de acreditar que pensamentos poderiam silenciar meus impulsos mais idiotas, tanto que me alegra pensar que cumprirei surdo minha estadia no inferno.

O sujeito não parou de palitar um dente qualquer até que sua língua percebesse-o limpo. Ele tirou o capacete; coçou o cocuruto da cabeça. Se poderia conceder explicações sobre o que tanto fazia no trabalho, livrou-se do palito com um peteleco. Sem sequer oferecer um, acendeu o cigarro que tirou do maço que trazia na calça. Tragou e tossiu. Livrou-se do fósforo com um peteleco. Novamente, tragou. Do meio-fio onde estava sentado, batucando no capacete, olhou-me.

Aquele olhar era expressivo, entendi-o.

Pensei no peso de um martelo e o quanto ficar martelando por horas todos os dias, de segunda a sexta, como era um serviço estafante. Era esgotante, cansava, e isso deixaria cansada qualquer pessoa.

O camarada não disse nada.

Sempre pensei que um operário deveria ser simpático com quem o apoia e lhe é simpático, mas aquele olhar me dizia o contrário, que era eu que o antipatizava, que eu estava atrapalhando sua hora de almoço, que a pessoa que o irritava naquele seu tempinho de descanso era eu, que sempre me vi como cidadão esclarecido, um defensor dos direitos dos trabalhadores, que eu sempre fui uma voz na luta pelas igualdades econômica e social.

Ele continuou calado, e fumante.

Precisei ser franco. Pedi que me perdoasse, porque aquela reforma estava dando-lhe pão. Se não tinha motivo pra aturar reclamações que julgava tolas, ele não perdesse a esperança de conseguir um emprego melhor, de salário maior.

Sem ver a hora no celular, atirou longe a bituca, repôs na cabeça o capacete e, portinhola adentro, a criatura sumiu.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de outubro de 2023.


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