Um
pouco de paz
De segunda a sexta, a reforma da casa ao
lado da minha é bastante barulhenta: as marteladas começam às sete; já o
falatório dos homens começa antes, às seis e meia.
Quão poderosa é a magia dos homens. Ela
me estimula a saltar da cama, porque os meus ouvidos alvoroçam quando percebem
que o dia principia a precipitar seus eventos.
Enfeitiçado, sou útil e prático; e, uma
vez alvoroçado, essa persona impassível força o viço: acuado em mim, meus
dentes rangem e tenho língua cortante; diante de mim e de toda gente,
insulta-me ter que lutar comigo até que, intratável, me afaste, eu recue, isole-me.
Prevendo cansaço e pressentindo o
esgotamento, e porque não me apraz ser tirado do sono pelos negócios do mundo, tomo
banho e bebo café antes que os tais tagarelas entrem na obra.
Na pausa do almoço, ontem, à porta do
tapume estava um operário; desejei passar por ele sem comentar os efeitos dos ruídos
sobre mim, mas a tagarelice pode ser astuta e revelar-se mesmo numa pessoa até
no instante em que se imagina serena, de boa com o mundo.
Súbito vi-me vencido pela serra que bem
cedinho cortava ferragens, admiti a imbecilidade de acreditar que pensamentos
poderiam silenciar meus impulsos mais idiotas, tanto que me alegra pensar que
cumprirei surdo minha estadia no inferno.
O sujeito não parou de palitar um dente
qualquer até que sua língua percebesse-o limpo. Ele tirou o capacete; coçou o
cocuruto da cabeça. Se poderia conceder explicações sobre o que tanto fazia no
trabalho, livrou-se do palito com um peteleco. Sem sequer oferecer um, acendeu
o cigarro que tirou do maço que trazia na calça. Tragou e tossiu. Livrou-se do fósforo
com um peteleco. Novamente, tragou. Do meio-fio onde estava sentado, batucando
no capacete, olhou-me.
Aquele olhar era expressivo, entendi-o.
Pensei no peso de um martelo e o quanto
ficar martelando por horas todos os dias, de segunda a sexta, como era um
serviço estafante. Era esgotante, cansava, e isso deixaria cansada qualquer
pessoa.
O camarada não disse nada.
Sempre pensei que um operário deveria
ser simpático com quem o apoia e lhe é simpático, mas aquele olhar me dizia o
contrário, que era eu que o antipatizava, que eu estava atrapalhando sua hora
de almoço, que a pessoa que o irritava naquele seu tempinho de descanso era eu,
que sempre me vi como cidadão esclarecido, um defensor dos direitos dos
trabalhadores, que eu sempre fui uma voz na luta pelas igualdades econômica e
social.
Ele continuou calado, e fumante.
Precisei ser franco. Pedi que me
perdoasse, porque aquela reforma estava dando-lhe pão. Se não tinha motivo pra
aturar reclamações que julgava tolas, ele não perdesse a esperança de conseguir
um emprego melhor, de salário maior.
Sem ver a hora no celular, atirou longe
a bituca, repôs na cabeça o capacete e, portinhola adentro, a criatura sumiu.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 19 de outubro de 2023.
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