Seres
mundanos
Um alarme, na madrugada, denuncia: algo
foi bolido.
Quisera não fosse acordado assim, por
nada, por uma ninharia, por uma banalidade tão prosaica, mas eu fui.
Já que estou acordado e não consigo
dormir, vou escrever.
“Queríamos muito ter dormido a noite
inteira, mas a consciência tem razões abissais para bem nos abalar quando as
aprouve bem.
“Uma vez escapulido o sono, nada há que nos
dissuada de retomá-lo, de qualquer maneira recobrá-lo, nem que seja com a
leitura do livro que encabeça a pilha de enjeitados.
“O marcador leva-nos à página donde o
evadíramos. Recuemos a parágrafos que aprazariam atiná-lo pelo fio do sentido, e
fomos falhos. O eleito à estatura de ultrajante é mágoa de nossas debilidades:
fracos, não perseveramos; frouxos, sequer o repomos no monte; fracassados, reposicionamo-lo
tampouco na estante.
“Venceríamos a contenda se houvéssemos
entrado em campo com planejamento estratégico instituído, se preservássemos a
organização ao longo do embate, se não abrandássemos da prévia bravura.”
Não fui acordado pela buzina, o ponto é
o 5X0.
A equipe adversária dar um vareio no meu
time, faz parte. A cachola dar uma canseira em mim, ela é dada a tais artes.
De fato, pelo que não desejara houvesse
acontecido, a insônia me apanha ao breu da insatisfação. Colhido na floração do
desalento, dou-me desamparado. Pela lembrança frustrante, sinto-me goleado.
Na escuridão que me oculta à mobília,
permaneço sentado. Calado, não me aquieto nem me silencio, quero-me menos
raivoso, mais tênue, sereno, melancólico.
Quero este estado mundano, um corpo na
cadeira, uma pessoa no escuro. Indubitavelmente, me quero lembrado do dia
seguinte.
Mas as pálpebras não colaboram. Mesmo
fechadas, percebo meus olhos arderem. Não há grãos de areia nos meus olhos, mas
o cansaço é essa areia.
O que me cansa é o sono que não vem, e
lembro o clássico. Sinto-me transpassado pelo instante, pela implacabilidade do
instante vivido que fica a reviver porque não me esqueço dos eventos recentes.
Queria ter entendido que desmaiava, e
não houve desmaio. Queria o breu a envolver o quarto inteiro, mas não sou lâmpada
apagada. Quis ter gerado energia suficiente para sonhar que recobrava os
sentidos, e continuarei sonado por mais um dia.
Embora o cansaço inspire um futuro
sombrio, a aurora já vem.
Outra jornada, mais uma vez. Todavia, o
mesmo. Nas incertezas de caminhante, a mesma pessoa. Outro ser, eu mesmo,
porque me quero gente disposta a descomplicar. Pelo que me possa, eu
simplifique. Pra que me entenda, apesar de mim, eu respire, e busque respirar
de olhos abertos. Pois eu procure em mim o que me permita ser menos eufórico,
alguém diverso desse torcedor desassossegadamente derrotado.
De novo, apegado à luz, deito-me: mundano
e medíocre, só desejo dormir um pouco mais, só isso, sim.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 26 de outubro de 2023.
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