terça-feira, 24 de outubro de 2023

Ribanceira

 

Ribanceira

 

Antes de sair, verifique, deixe as janelas abertas.

Não transforme o lar num antro de poeira concentrada. Você fica pê da vida quando o nariz coça que não para mais, tem uma saraivada de espirros e, bastante peíssimo, vira a lacrimejar, já abatido.

Antes de espumar por ter saído voltado para o trabalho, adiante-se, não seja relapso, pense na vaidade, sorria, seja indulgente, coce-se na cuca, espirre, e vá suar, se for o caso, até se ressinta de tanto suor por dia, ao mês, sendo já este ser tão precisado de férias.

Antes de almoçar, urine.

Conserve o sorriso, tenha paciência com quem deseja discursar na refeição. Isso é certo, dispor de uma horinha pra preservar-se facilita o entendimento. Compreenda, sua intolerância beira o ridículo; entenda, um copo de baba pouco afeta as forças que movem o mundo. O terror traz o abismo pra perto, cola-o à pele, ficam sangue e urina misturados à poeira do mundo. Mantenha suas mãos limpas; não fique encanado, lave-se, dê funcionamento às torneiras.

Antes de dizer-se otimista com o futuro da humanidade, previna-se, tenha lido os últimos comentários de quem está à mesa com você, seja radical, recorde-se de que cordialidade exuberante dá azia. Beba água, um suco, aceite aquela taça de vinho, o branco resfriado, recuse o tinto; não pense no balde de sangue, seu corpo é engenhoca movida a sete litros de sangue. É o caso, volte a urinar e torne a lavar-se.

Antes de descansar, dirija sem olhar as placas mas respeite o farol; volte pra casa como um canarinho, assobie e cante junto, a música vai conduzi-lo, você tem o trajeto memorizado. Seja leve, divirta-se, o carro não é cão pra achar sozinho o caminho; descanse, ponha a mente em ponto morto. Você traz um passarinho nas veias, assobie, não cerre os dentes, cante. Cuide-se, não viva na banguela, que vicia.

Antes de arrepender-se, grite.

Você faz tanta coisa sem precisar de automóvel, ande a esmo, tome um ar, veja quanta gente anda devagar. Não banque o chato, sorria a quem o procura só pela conversa-fiada. Poupe-se das palavrinhas que não abrem nem guaraná, sorria a quem precisa ouvi-las, considerá-las sábias. Solte-se, dialogue, converse numa boa. Saiba sorrir quando for necessário; seja um camarada bom de papo, dê linha à prosa de gente que liga quando a hora voa; e ser vento às pipas até faz bem.

Antes de fechar a cara, escute as histórias, ria das piadas; rir não é preciso, mas gritar? Só faça um escarcéu quando pressionado. E diga o que lhe parece sem sentido, relate o seu estranhamento, sua falta de inteligência para comparar um penico com um balde ou um copo; e se tivesse um peniquinho embaixo da cama, saberia quantos litros produz de noite. Uma vez que você não tem como calcular o nível de felicidade quando urina, emburre e dê os seus coices.

Mas, Zeca, não tire o pé, não coma a jaca, não seja jeca.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de outubro de 2023.

Nenhum comentário:

Postar um comentário