Ribanceira
Antes de sair, verifique, deixe as
janelas abertas.
Não transforme o lar num antro de poeira
concentrada. Você fica pê da vida quando o nariz coça que não para mais, tem
uma saraivada de espirros e, bastante peíssimo, vira a lacrimejar, já abatido.
Antes de espumar por ter saído voltado
para o trabalho, adiante-se, não seja relapso, pense na vaidade, sorria, seja indulgente,
coce-se na cuca, espirre, e vá suar, se for o caso, até se ressinta de tanto
suor por dia, ao mês, sendo já este ser tão precisado de férias.
Antes de almoçar, urine.
Conserve o sorriso, tenha paciência com
quem deseja discursar na refeição. Isso é certo, dispor de uma horinha pra preservar-se
facilita o entendimento. Compreenda, sua intolerância beira o ridículo; entenda,
um copo de baba pouco afeta as forças que movem o mundo. O terror traz o abismo
pra perto, cola-o à pele, ficam sangue e urina misturados à poeira do mundo.
Mantenha suas mãos limpas; não fique encanado, lave-se, dê funcionamento às
torneiras.
Antes de dizer-se otimista com o futuro
da humanidade, previna-se, tenha lido os últimos comentários de quem está à
mesa com você, seja radical, recorde-se de que cordialidade exuberante dá azia.
Beba água, um suco, aceite aquela taça de vinho, o branco resfriado, recuse o
tinto; não pense no balde de sangue, seu corpo é engenhoca movida a sete litros
de sangue. É o caso, volte a urinar e torne a lavar-se.
Antes de descansar, dirija sem olhar as
placas mas respeite o farol; volte pra casa como um canarinho, assobie e cante
junto, a música vai conduzi-lo, você tem o trajeto memorizado. Seja leve,
divirta-se, o carro não é cão pra achar sozinho o caminho; descanse, ponha a
mente em ponto morto. Você traz um passarinho nas veias, assobie, não cerre os dentes,
cante. Cuide-se, não viva na banguela, que vicia.
Antes de arrepender-se, grite.
Você faz tanta coisa sem precisar de
automóvel, ande a esmo, tome um ar, veja quanta gente anda devagar. Não banque
o chato, sorria a quem o procura só pela conversa-fiada. Poupe-se das
palavrinhas que não abrem nem guaraná, sorria a quem precisa ouvi-las,
considerá-las sábias. Solte-se, dialogue, converse numa boa. Saiba sorrir
quando for necessário; seja um camarada bom de papo, dê linha à prosa de gente
que liga quando a hora voa; e ser vento às pipas até faz bem.
Antes de fechar a cara, escute as
histórias, ria das piadas; rir não é preciso, mas gritar? Só faça um escarcéu
quando pressionado. E diga o que lhe parece sem sentido, relate o seu
estranhamento, sua falta de inteligência para comparar um penico com um balde
ou um copo; e se tivesse um peniquinho embaixo da cama, saberia quantos litros
produz de noite. Uma vez que você não tem como calcular o nível de felicidade
quando urina, emburre e dê os seus coices.
Mas, Zeca, não tire o pé, não coma a
jaca, não seja jeca.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 24 de outubro de 2023.
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