Mais
uma chance
A menina bateu, e aguardou. Com mais força,
tornou a bater. Sem paciência para esperar, ela bateu e bateu.
Ficar batendo era inútil, uma vez que aquela
porta era igualzinha à do quarto dos pais, que gostava de ficar trancada sempre
que trovões arrancavam-na da cama dos sonhos.
Com medo dos clarões, quer que seus
punhos virem machado para abrir passagem. Com tantos raios, implora ser
abrigada entre o pai e a mãe. Com todas as suas forças, desespera a esmurrá-la.
Apesar daquele estardalhaço, ninguém
apareceu.
Já que a chuva tinha engrossado, a
menina colocou a assadeira no capacho em que estava escrito: ‘lar de gente
feliz’.
Essa gente ficará mais feliz com o bolo
de cenoura; feliz e satisfeita, pois o bolo de cenoura tem um toque especial:
em vez da cobertura de chocolate, está coberto com coco, com o recheio de coco
que torna os bolos de aniversário irresistivelmente saborosos.
A menina levantou o papel-alumínio;
aqueles pedacinhos a fizeram salivar. Pra resistir àquela vontade, precisava ir
embora, mas não tinha como ir-se dali porque a chuva estava bastante forte.
É preciso lucidez pra resolver problemas
sérios. Mas pessoa lúcida não implica que esteja serena. Embora sofra antes de
decidir-se, tendo em vista o pior que pode acontecer, é preciso querer o menos
ruim.
Se fosse embora debaixo daquela
chuvarada, levaria bronca pelas suas roupas ensopadas. Então, até que a chuva
diminuísse um pouco, o jeito seria balançar-se na cadeira da varanda. Se
sentasse sem pedir ordem, a gente da casa iria passar-lhe um pito. Tomar sabão
era muito injusto, só porque estava balançando, isso não era para tanto; além
do mais, o aguaceiro vinha do céu, ela não tinha como controlá-lo.
Nisso, veio um cachorro abanando-se à garota.
Porque gostou da companhia, afagou-o,
chamou-o de amigão, quis colocá-lo no colo, mas o bicho foi bisbilhotar a coisa
à porta.
Ele farejou que aquilo era algo
comestível. A pata serviu para rasgar o papel-alumínio. Pra abocanhá-los, o
focinho soltou tijolinhos de bolo. Sem ‘au-aus’ a denunciá-lo esfomeado,
enfarou-se.
Com o celular, a menina gravou tudo.
Aquele cachorrinho era mesmo esperto.
Tão logo sentiu o cheirinho de coisa boa, devorou a maior parte. Ele fez o
certo, pois o vento faria com que a chuva estragasse o bolo.
A chuva diminuiu e ela correu pra casa.
Assim que a viu encharcada, com palmadas
na bunda, a criança foi surrada pela mãe.
Ela não tinha nada que ficar mostrando
gravaçãozinha de cachorro ou ficar inventando que tinha feito algo bom, porque
não tinha nada de ter dado o bolo prum vira-lata de rua.
Ela fosse se enxugar, mas a menina
correu pro seu quarto, trancou a porta, pulou a janela e foi sentar-se na
jabuticabeira.
Sem casa na árvore, pôde esconder-se atrás
das folhas; quietinha, iria provar o seu ponto, que as roupas secam por conta.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 31 de outubro de 2023.