Pregão
anacronista
Numa ducha rápida depois de uma hora de
caminhada forçada, me apressei pro desjejum.
Pego o pão, cubro-o com uma folha de
alface picada com as mãos, completo com a segunda fatia de pão; e adeus
sanduba.
Quantos cumprimentos deixarão o dia menos
ordinário?
Abria a porta quando a senhora que
varria a calçada deu-me aquele bom-dia de gente afoita, a querer de pronto demonstrar-se
educada.
Ainda que formal, contabilizarei esse
bom-dia na coluna positiva ou o travesseiro julgará carregadíssima a cabeça abalroada
pelo cotidiano de insensibilidade generalizada.
Bons dias!
Chegando de volta, na esquina perto de
casa, Luisinho atravessou meu caminho. Queria muito me contar que os ventos da
fortuna tinham encaminhado até ele uma ideia genial.
Observando os bem-te-vis que cantavam
sem razão para tamanha cantoria, o velho amigo de tantas jornadas disse que
achara a solução pros problemas do mundo.
Graças a um camarada entusiasmado, o
mundo tem solução.
Bons dias!
Sim. Mesmo pensadores geniais precisam
de ouvintes polidos. Até me ocorreu de abraçá-lo à vista de quem passava, mas
tive o impulso de ir-me logo. Que contasse em outro instante, me perdoasse a
pressa. Como desconhece bons modos, o intestino me cobrava celeridade.
De livro à mão, na página congelada,
regresso um tanto.
A mulher que varria a calçada talvez
tenha desejado que o meu dia fosse bom, todavia meus tímpanos de pessoa apurada
filtraram como mera formalidade aquele desejo simpático.
Bons dias!
Ontem mesmo, ouvi a criança que falava
uns versinhos ao vovô que a escutava interessado no que lhe era segredado com a
inocência que desconcerta cínicos, céticos e comediantes.
“No mundo de muitas faces, quem planta
couve não colhe tomates”.
O engraçado é que eu penso ter ouvido que
“no mundo das alfaces, quem semeia tomate colhe alicate”. Que surrealismo
frívolo.
Frívolo! Ô coisa gostosa. Inté falar
frívolo é bem frívolo.
Uma vez que não preciso crer na
infância, volto à criança que trago em mim. Volto sem medo, porque acredito na evolução
carismática de pedir, implorar, suplicar, espernear, esgoelar e quebrar
carrinhos como quem atira copos.
Espatifá-los-ia, mas não tocaria nos cacos, pois são deslumbrantes. Nada ameaçadores, ficam tão belos quando o sol bate nas faces.
Se nas alfaces brotassem alfajores, a
história seria bem outra. Com a meninada pedindo, se esperneando, suplicando
por alfajor alfácico.
Bons dias!
Corro ao papel. Sem nenhum aceno ao
Senado nem às Academias, escrevo o segredo que não pretendo revelado: há em mim
essa ânsia permanente, vitalícia e imortal. Me acho uma pessoa calma, de escrita
moderada, apenas um escrevinhador pacato.
Bons dias!
Sem embaraços, complicações, conflitos
paradoxais, sem provocar apoptose, quero-me anônimo, eterno anônimo, a escutar os
dias.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 31 de julho de 2022.