domingo, 31 de julho de 2022

Pregão anacronista

 

Pregão anacronista

 

Numa ducha rápida depois de uma hora de caminhada forçada, me apressei pro desjejum.

Pego o pão, cubro-o com uma folha de alface picada com as mãos, completo com a segunda fatia de pão; e adeus sanduba.

Quantos cumprimentos deixarão o dia menos ordinário?

Abria a porta quando a senhora que varria a calçada deu-me aquele bom-dia de gente afoita, a querer de pronto demonstrar-se educada.

Ainda que formal, contabilizarei esse bom-dia na coluna positiva ou o travesseiro julgará carregadíssima a cabeça abalroada pelo cotidiano de insensibilidade generalizada.

Bons dias!

Chegando de volta, na esquina perto de casa, Luisinho atravessou meu caminho. Queria muito me contar que os ventos da fortuna tinham encaminhado até ele uma ideia genial.

Observando os bem-te-vis que cantavam sem razão para tamanha cantoria, o velho amigo de tantas jornadas disse que achara a solução pros problemas do mundo.

Graças a um camarada entusiasmado, o mundo tem solução.

Bons dias!

Sim. Mesmo pensadores geniais precisam de ouvintes polidos. Até me ocorreu de abraçá-lo à vista de quem passava, mas tive o impulso de ir-me logo. Que contasse em outro instante, me perdoasse a pressa. Como desconhece bons modos, o intestino me cobrava celeridade.

De livro à mão, na página congelada, regresso um tanto.

A mulher que varria a calçada talvez tenha desejado que o meu dia fosse bom, todavia meus tímpanos de pessoa apurada filtraram como mera formalidade aquele desejo simpático.

Bons dias!

Ontem mesmo, ouvi a criança que falava uns versinhos ao vovô que a escutava interessado no que lhe era segredado com a inocência que desconcerta cínicos, céticos e comediantes.

“No mundo de muitas faces, quem planta couve não colhe tomates”.

O engraçado é que eu penso ter ouvido que “no mundo das alfaces, quem semeia tomate colhe alicate”. Que surrealismo frívolo.

Frívolo! Ô coisa gostosa. Inté falar frívolo é bem frívolo.

Uma vez que não preciso crer na infância, volto à criança que trago em mim. Volto sem medo, porque acredito na evolução carismática de pedir, implorar, suplicar, espernear, esgoelar e quebrar carrinhos como quem atira copos.

Espatifá-los-ia, mas não tocaria nos cacos, pois são deslumbrantes. Nada ameaçadores, ficam tão belos quando o sol bate nas faces.

Se nas alfaces brotassem alfajores, a história seria bem outra. Com a meninada pedindo, se esperneando, suplicando por alfajor alfácico.

Bons dias!

Corro ao papel. Sem nenhum aceno ao Senado nem às Academias, escrevo o segredo que não pretendo revelado: há em mim essa ânsia permanente, vitalícia e imortal. Me acho uma pessoa calma, de escrita moderada, apenas um escrevinhador pacato.

Bons dias!

Sem embaraços, complicações, conflitos paradoxais, sem provocar apoptose, quero-me anônimo, eterno anônimo, a escutar os dias.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de julho de 2022.

quinta-feira, 28 de julho de 2022

Amor livre

 

Amor livre

 

Com indignação, contaram-me este caso da celebridade que ousou sambar sobre o pavilhão nacional. Abalado pela prepotência ultrajante da relatada, fui tomado por uma força abissal. Parido pela memória, à tona não veio um mamute; num rato, degelei-me mentecapto.

Deste instante em diante, nunca mais serei quem achava que era até agora. Como houve tal gatilho, esse disparo à queima-roupa, entrei na dança sem nem atinar qual a seta ou qual o alvo.

Assim perdido, peço às luzes da sabedoria que iluminem os meus cômodos escuros, obscuros, mesmo tenebrosos, pois houve um tempo que, reles, coitado e panaca, fui mesmo um aluno.

Eram dias de ensino médio na Maria Angerami Scalamandré. Lá na escola eu tinha amigos, alguns colegas e muitos conhecidos. Todavia, éramos todos condôminos de um rincão paulista chamado Ibiúna.

Na hierarquia do colegial, os alunos estávamos na base.

E uma vez alocados na base, ou vestíamos o avental com o brasão da escola ou, no portão, barrar-nos-iam os serventes, operadores da ordem. Sem escolha com os ordeiros, saíamos já uniformizados.

Éramos estudantes, tínhamos nossas obrigações de colegiais. Os cadernos tinham pauta. O polegar media o início do parágrafo a partir do traço da pauta. A primeira letra do parágrafo era necessariamente maiúscula. Como éramos alunos, havíamos de seguir o ordenamento pra escrita. Aprendíamos a aprender que tínhamos que aprender e as notas azuis na caderneta mediam o tanto que tínhamos aprendido das lições que nos foram dadas.

Estudantes são alunos. Os alunos que reclamam pro bispo estão errados. Alunos precisam estudar o catecismo, respeitar as regras que comungam com os demais membros da mesma igreja e, obedientes e fiéis à ordem comungada, servirem de exemplo a alunos menores.

Sejam sempre respeitados os adultos exemplares que fazem leis e regramentos inteligentes, pois adultos são pessoas lúcidas, adoráveis e sabem mais da vida que os jovens.

Os jovens? Os jovens acham que sabem mais do que todo mundo, até mais que o pai e a mãe que também foram alunos, mas estudaram, dedicaram-se a aprender o que lhes era dito pra aprender e assumirem como pai e mãe de alunos em casa, na igreja e na escola.

Caramba, os jovens alunos que não se envergonham de proclamar a torto e a direito que sabem que a escola da vida ensina a se virar na hora do aperto. Entretanto o mundo não ensina, ele deseduca.

Na hora do hino, quem aprende a viver pelas regras do mundo não canta. Ele poderia ficar cabisbaixo, tentar se esconder entre os outros, mas o arrogante nem finge que tem boca pra amar o hino nacional.

E chegamos àqueles que se dizem democratas porque queimam a bandeira da nação encarnada nas cores da pátria.

Mas aprendemos, e somos homens livres, ordeiros e benevolentes, porque em nossos corações reina a flâmula augusta de Pasárgada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de julho de 2022.


terça-feira, 26 de julho de 2022

O previdente

 

O previdente

 

A mulher não precisava apenas do espelho para certificar-se de que os sapatos eram bonitos, tinha que, dando uns passos, medir a reação da vendedora, que foi profissionalíssima.

Ela tinha horror àqueles pés, àquelas unhas, ao calcanhar rachado. Achava ridículos aqueles pés minúsculos. Suportava vê-las, as unhas, porque estavam pintadas. E aquela tatuagem de barbatana de tubarão saindo das ondas nem escondia as marcas das fivelas arrochadas. Por isso, por tal sinceridade, a meiguice sorria urbana à beça.

A compradora tirou o bandeide, que aquilo pareceu-lhe por demais vulgar. Não que fosse esnobe, só tinha que cuidar da aparência. Tinha o cuidado de manter-se invejável, e sapatos novos maravilham quem tem que projetar beleza no entorno ou sofre, murcha, enfeia.

Educada para o belo, ela não precisava se preocupar com o preço de cada par. Levaria três, pois três lhe bastavam, parecia-lhe que três pares seriam o suficiente para fazê-la ignorar o contratempo de possuir apenas dois pés, dois frágeis pezinhos de princesa.

A filha aprovou o salto agulha do modelo cujo formato pressionava as veias, adensando-as disformes, sombrias, horrendas.

Fada madrinha na sétima semana de uma gestação não assumida, enjoadinha, querendo voltar pra casa tão logo o crédito fosse aceito, a adolescente recomendou outro, um cujo azul piscina combinava com o azul desmaiado do hipermetrópico olhar materno.

Entretanto, ela calçou um, calçou outro, desfilou cada um dos pares todos que lhe trouxera a funcionária, sempre cordialíssima.

Sua afabilidade irradiava confiança. Ela, de fato, ligava pro dinheiro que receberia, bastava concretizar a venda. E era enorme a variedade de estilos, cores e saltos. Sorte? Uma ova! Além dos sapatos, mostrou sandálias, tamancos, plataformas, átomos de um estoque colossal.

Na mesma loja, só que em outro mundo, quem tinha cascalho para ladrilhar os caminhos com tijolinhos dourados agia firme, convicto, sem ostentação gratuita do poder irrefreável dos seus cobres.

Pedira sem alarde, experimentava sem comoção.

Sentado, calmo, calçando o único par que, na esplêndida vitrine de multicoloridas bugigangas, apontou-o a quem o servia.

O rei dos vinténs apertou o dedão, apalpou o peito de cada pé, não perguntou que material era, pois era leve, de uma leveza irresistível.

Acariciando o rosto, cofiando uns fios do cavanhaque, o senhor da bufunfa aprovou a escolha, atraído por aquela joia reluzente, vistosa.

Embrulhassem para presente. Levaria o número 27. Daria ao filho, que um dia desses faria oito anos. Como era pai, tinha orgulho e sabia que seu dever era garantir as condições daquele futuro tão magnífico. E chuteira zero-bala era primordial pra que seu rebento estreasse com pé direito na venturosa trajetória rumo à mui valorosa seleção.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de julho de 2022.


domingo, 24 de julho de 2022

Careca

 

Careca

 

Parado à porta da cozinha, um homem observa o quintal.

Com a mão esquerda no quadril, o braço forma um arco que parece a asa de uma xícara. Segurada pela destra, a xícara tem café. Gostoso de ser bebido devagar, pois exala um aroma tentador.

Aquele homem tem jeito de quem não gosta de ser apressado. Não porque suas mãos encarquilhadas tenham manchas, o rosto exiba rugas ao redor dos olhos e haja vincos em torno da boca. Sim, embora tudo indique ter passado dos cinquenta, ele não sorri embasbacado com o sol nem tem cara de contente por estar vivo.

Não dá uma de indiferente porque se ache superior aos problemas. Finge não ligar pro mundo porque insiste que precisa acreditar que leva uma vida simples, descomplicada. Não se aceita no papel de vítima de uma sociedade corrupta, violenta, que mata pobres como quem dizima saúvas. Se não toca trompete nem tem topete, não gesta culpas.

Um dia, faz anos, quando o cabelo no cocuruto começou a cair de modo proeminente, não se recorda de ter duvidado de si ou da decisão, sabe apenas que tem a cabeça raspada faz bem uma década.

Ou seja, fez-se careca pelas próprias mãos.

Uma vez, a primeira, usou a navalha que fora do pai. E foi a única, porque se cortou e o sangramento muito o impressionou. Hoje, seguro, raspa a cabeça uma vez por semana com um aparelho descartável de três lâminas. Não teme a mão que não treme, raspa-se.

Se não nasceu predestinado a ser careca, como escolheu sê-lo?

Vendo os tumultos na TV, pesando os vinte centavos em questão, trabalhando por dois com o salário de um, digerindo mal o comercial do meio-dia, rangendo os dentes dia e noite, afogando carneirinhos a cada madrugada desesperada, esmagando pernilongos com patadas sintomáticas, somatizando rancores de raízes cabulosas, recolheu-se.

Colocando-se à parte. Separando-se da turba. Avesso às chusmas. Ansioso. Angustiado. Conhecendo-se em desespero. Com o estômago a ponto de implodir em sangramento. Recolhido à sombra de si, fez-se estranho de repente. Súbito, viu-se obrigado a mudar. Pra não perecer de uma hora pra outra, fez-se outro.

Sem colete, sem bússola, sem farol, o sujeito viu-se colhido por uma borrasca inesperada, avassaladora, assombrosa.

Diante da pessoa desconhecida que aflorou durante a tempestade, querendo ver-se na face nova que brotou em meio ao toró, procurando boiar à flor d’água, sem se debater por respostas a perguntas que nem saberia formular, pra sobreviver mais um instante, pra seguir em frente, apesar da lua, independentemente das marés, redescobrir-se naquele náufrago, sair do mar, pisar a areia, passar pela praia, pra aprender a conviver com a maresia, encarecou-se.

Nada macambúzio nem sorumbático, o encarecado que toma café na xícara pirex está convicto de que não tem como passar de hoje.

Quem vai ter que aparar a grama do quintal será ele.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de julho de 2022.

quinta-feira, 21 de julho de 2022

A ocupação

A ocupação

 

A gata não subiu na cama pra me acordar, queria agrado. Ela gosta que a sua cabeça seja coçada de leve, com a ponta dos dedos. Fecha os olhos, faz um ruído que parece um motorzinho, ronrona.

Assim como a gata, quando meu cérebro é massageado por ideias, a consciência produz felicidade.

Minha mente funciona sem parar, mas não me dedico a escrever o tempo todo. Vou explorando o que tenho pra contar.

Se não fecho os meus olhos enquanto me delicio com os caminhos que se abrem, que a história me posicione no que vai sendo contado.

Permito-me ser conduzido.

Não digo que o valor da história está na qualidade do que conto, eu valorizo o modo, o como a história se sustenta depois que a considero legível. Não a valorizo pelo que diz, mas pela leitura agradável.

Cabe a quem lê gostar ou não do conteúdo, a mim me cabe gostar do jeito que escrevi.

Esboços surgem, modifico-os. Eu altero, retifico, aprovo, abandono, retomo, faço o que entendo ser necessário para que a história contada tenha algum valor.

Não creio que histórias acabem, que tenham um ponto final, porque sempre haverá o que alterar. A perfeição é irrealizável, inatingível, uma vez que as histórias que conto são fruto das circunstâncias.

Dependem de alegrias, tristezas, estabilidade econômica, finanças duvidosas, noites bem dormidas, pesadelos recorrentes, barriga cheia ou frutas por comprar. Como estou influencia a escolha das palavras.

Pois é, a maneira como eu conto uma história depende da cachola, do estômago, do estado em que me encontro ao pensar e ao escrever o que tenho para contar.

Não me controlo, produzo algo ruim.

E algo sem valor me faz sentir o gosto amargo do fracasso. Porque remorso é instrutivo, reescrevo.

Achar maravilhosa a história pelas palavras impactantes, pelo canto dos sons, pelo encantamento das metáforas, pelo encadeamento das ideias, pela mão do artista que fica exposta em cena, como se um texto fosse fantoche. Ainda que adorável, é fantoche mal manipulado.

Quando mal contada, uma história é como a gata em cima da cama. Ela morde a mão que erra, porque toca onde não deve ou por exagerar no carinho. Exageros cansam, são exibicionismo; as dores suportáveis devem ser evitadas, pois viciam.

Soberba, presunção, arrogância, petulância e vaidade contaminam a minha visão do que escrevo, mas a história pode ser salva com ironia, humor, humildade, abnegação, empatia, ternura.

Quando escrevo, leio. Viro leitor e luto comigo. Pelo desejo de que a história sobreviva depois da primeira leitura, procuro equilibrar asco e afeição, lucidez e insanidade, nitidez e obscuridade, dor e prazer.

O meu ofício é contar histórias. Há problemas quando brincar com as franjas da colcha é bem mais divertido do que chegar ao ponto final. E saber que histórias têm garras não me consola nem me salva quando ronrono de volta.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de julho de 2022.

terça-feira, 19 de julho de 2022

Defesa explícita

 

Defesa explícita

 

Dez e pouco da manhã, eu estou com a cabeça pousada nas mãos, sem pressa pra lidar com e-mails. Tenho tempo, é segundona.

Muita gente não gosta das segundas-feiras, todas elas. Depois do descanso que o domingo proporciona, melhor nem lembrar que terá o chefe exigindo celeridade nisso, naquilo, em tudo mais.

A mágica acontece. Não é justo reclamar, pois domingo é bom com chuva na praia ou sol de alucinar calango à sombra. Sem correrias nem pagamentos, ter um dia pra deixar pra depois o que quer que seja.

Pra muita gente a semana começa na segunda, o domingo fique de fora do tempo útil. Há que se tirar um dia para não fazer nada que tenha utilidade, uma vez que são gratuitos o bem-estar, o prazer, a alegria. E o que faz feliz a mente, recarrega o corpo.

Não é o meu caso, pois gosto das segundas justamente porque sou fã de procrastinações. Vivo cada dia. Procuro viver um dia de cada vez, mas defendo o direito a adiar um segundo. Nada que seja preocupante, doentio. É que tirar um cochilo não faz mal algum a quem administra o tempo sem revelar fantasmas em lençol no varal.

Em outras palavras, quem não gosta de segunda não precisa gostar mais do sábado ou bater-se pela vagabundagem aos domingos.

Tendo tempo, é bom aparar a grama do quintal. Numa segunda não vai dar, mas num domingo... Que achado!

Confesso que não sou muito bom cumpridor de promessas. Gosto de prometer o que possa ser usado contra mim. Tenho essa queda pelo que avilta, e me reduza, à ameba, que se autoduplica sem esforço.

Acho que uma ameba não se esforça quando vira duas.

A preguiça me faz gostar da ideia de ser irresponsável enquanto o relógio me permitir. Sem culpa, fico à toa.

Sou melhor quando não me pressiono a ter expectativas.

Queria ser uma pessoa menos ordinária, mas tenho cócega. Se me coço, eu rio. Tenho facilidade para rir, gargalho. Emendo que gargalhar faz bem, é terapêutico e não espalha ódio.

Sou incapaz de desejar que chova no domingo só pra azarar quem adora andar de bicicleta com a família. Daria vexame se atirasse pedra no telhado de quem brinca com o cachorro na rua sem carros.

Sei que eu não preciso agradecer a quem passeia de bicicleta como se a vida fosse perfeita aos domingos, mas trato a segunda-feira como uma ponte pro ócio a quem não perde tempo quando descansa.

Não odeio quem me chama de traste, só ignoro.

Basta? Volto à luta e abro minha caixa de e-mail.

Apago o lixo de sempre. Aprecio as mensagens de quem me deseja uma boa semana, mesmo o bom-dia de praxe. Entretanto, alegra meu dia e torna menos enfadonha a minha semana, quem me dá um singelo OLÁ. Sem mais nada, simplesmente OLÁ.

O que você está pretendendo com esse OLÁ, hein. Só pode ser pra me deixar maluco de curioso. Que engraçado. Um OLÁ à solta, hein.

Pois fique sabendo que eu posso muito bem responder na mesma moeda. Assim seja. Mando pra você também, OLÁ!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de julho de 2022.


domingo, 17 de julho de 2022

A experiência

 

A experiência

 

Mesmo mal iluminada, atravessei a praça quando avistei um amigo. Desde que ele me pediu pra assinar uma petição, ando enojado. Quero detalhes sobre o surto repentino, quem caça maritacas?

Cúmplice da minha ignorância, um homem cortava cenoura, batata, batata doce, cebola e inhame numa lata de cinco litros ꟷ outrora cheia de tinta, agora com água fervendo. Pra manter o fogo, o homem punha mais um graveto. Havia em seu olhar a mesma inocência que me levou a quem o retratava, por que as massacram?

Bastou que o cumprimentasse, ele guardou a máquina numa bolsa. Não estendeu a mão, encaminhou-se pra barraquinha mais próxima e, sem se incomodar a responder ao que lhe perguntava, pagou um café. Não resisti, agradeci-lhe com um tapinha no ombro, mas que história é essa com as coitadas?

Contou que acordou com dor de estômago, que nunca sentira uma dor igual àquela. Até apalpou a barriga, mas não lhe localizou a origem.

Há cinco semanas, enquanto cuidava de terminar um trabalho com fotos tiradas recentemente, surgiu esse mal-estar no estômago.

Aquela não era uma dor igual à pancada do joelho num móvel. Se fosse, haveria comparação. Podendo comparar, teria como encontrar num quadro de referência o nome da coisa. Mas, a dor era inédita.

O médico bateu com os nós dos dedos, não tinha gases na barriga. Falou três vezes trinta e três, os pulmões não fizeram barulho. Seguiu a ponta do dedo sem ficar vesgo, a visão continuava normal.

Depois de olhar pro teto, consultar páginas na internet, mordiscar a tampa da caneta, o doutor afirmou que nunca nenhum paciente tinha vindo com algo desconhecido, daí não arriscaria prognosticar nada.

Recomendou-lhe que, tal qual os fizera, repetisse os procedimentos da manhã em que a dor manifestou-se pela primeira vez.

Foi o que fez. Como se a manhã fosse replicável, reviveu-a. Porém, agiu consciente de que era sua obrigação manter-se atento aos sinais de quando a dor começasse, porque o remédio certo dependia de sua percepção. Mesmo sendo perspicaz com o que sentia, a dor veio.

O doutor pediu que agisse tal qual a primeira manhã, mas o fizesse à tarde. E a tarde foi que nem a primeira manhã, e a dor veio.

Angustiado com a curiosidade não satisfeita, o doutor pediu-lhe que repetisse tudo à noite. As fotos foram as mesmas e nenhuma legenda teve vírgula alterada, até a dor foi idêntica.

Preocupado com a irresolução do problema, pediu que fizesse tudo pela manhã, pulasse a tarde e repetisse o roteiro à noite. Sem começar pela cabeça, a dor foi igual.

Prestes a jogar a toalha, ele pediu pra agir como sempre, mas que, depois de três horas, comesse um pãozinho. Foi quando a dor acabou por não acontecer.

Eureca! Comendo pão de três em três horas, o trabalho rende.

Pra que nenhum estômago doa sem pãozinho na hora certa, o bom doutor compreendeu que precisava ser senador.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de julho de 2022.

quinta-feira, 14 de julho de 2022

Sonho vespertino

 

Sonho vespertino

 

A gente tinha combinado de ir aos armarinhos da 25 de Março, mas há interdições. Pegou fogo num prédio; tem dez andares perigando ruir a qualquer trepidação. Com garoinha glacial, o vento veio com intenso desconhecimento da inconsistência material, que cimento, cal, areia, o ferro e saliva têm esse misterioso dom de virarem pó num estralo, seja de dedo ou de concreto.

Consumidores sensíveis, compraremos noutra freguesia, a digital.

Compraremos não porque nutrimos a avidez dos cúpidos, teremos, ainda nesta semana, um aniversário a ser festejado.

Com balões pelo salão, as toalhas paramentando as mesinhas e as cabeças enchapeladas, pois, bem ornamentados, festejaremos.

E há de ser uma vitória atingida a felicidade compartilhada. Será grande a nossa alegria que, dados os parabéns, apagadas as velinhas, dada a primeira fatia, não recuaremos da limpeza do buffet.

Faremos valer as horas de comilança, pois brindaremos ao amor, à amizade e ao quindim caprichado. Sopraremos língua de sogra mesmo que a sogra desaprove. Não atiraremos à tristeza quem aspira a beijos, abraços, uma porção de coxinhas em pratinho de plástico. Beberemos tubaína como se fosse tubaína. E brindaremos de felicidade, ainda que efêmera. Enquanto houvermos felizes, saudaremos quem nos destina o amor que tanto nos aproxima, une e fortalece.

A gente até esquece que está frio, garoando. Há um calor que afaga as carências, aconchega as saudades insepultas, revive nas cinzas a brasa dos amores da vida. Há que se viver, amar, sofrer pelo medo de que se acabe o amor. Amar, ainda que o medo faça sentir-se aviltada, desprezada, abalada, envergonhada, dolorosamente só. A gente anda precisando de sentir-se amada.

Num momento de abandono, conheci o desgosto do desespero.

Foi no meu tempo de menino.

Como a minha família vivia no interior, fui crescendo naquela Ibiúna dos anos setenta. Nada de fantástico acontecia do dia pra noite, havia pão e leite à porta das casas, ia-se a pé pra escola.

Ao ano, uma ou outra vez, havia acontecimentos marcantes, esses que não morrem. Porque os de mais idade haverão de rememorá-los, vez ou outra, entre um trago e outro. Seja um acidente automobilístico com pessoas muito queridas, seja um foguetório na madrugada porque houve quem dormisse com a vela acesa, seja quando um teco-teco fez pouso forçado numa estradinha. Talvez o fogo-fátuo subisse da várzea da represa. Até encrencasse a amante com um pulha desaforento.

Porque a vida vira, outro circo veio.

E teve lona subindo aos céus; macacos comendo banana em jaula forrada de palha; a me abundarem a saliva, coristas cosendo as suas malhas. Pra brincar de vagamundo, o picadeiro foi quintal.

Quando um do palhaços machucou o quadril, o ajudante do atirador de faca fez-se de palhaço. Em vão eu quis ajudar com as facas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de julho de 2022.

terça-feira, 12 de julho de 2022

Anjo bom

 

Anjo bom

 

Está ventando forte. Amanheceu nublado. O tempo virou enquanto eu dormia. Estamos carrancudos.

Não há engano: estou carregado de melancolias nubladas.

As copas das árvores vão balançando com as rajadas. Os pássaros lutam pra voar. Um cachorro usa uma caçamba de lixo pra se proteger.

A natureza não percebe que não sinto vergonha porque nada posso fazer pra mudar as condições atmosféricas. Só me sinto abatido.

Imagino o sol brilhando; e tenho eriçados os pelos dos braços. Não quero olhar chateado a rua, contudo continuo à janela.

Ficaria em casa, mas o dia não adia nada.

Preparo o almoço e almoço: ovos mexidos, e sem alho.

O céu está ameaçando abrir. Por entre as nuvens, o sol espia minha alma acinzentada. E isso quase me anima a dar um pulinho ao banco, uma passadinha no mercado e conversar bobagens.

É bem possível que me mantenha sereno, simpático, sociável.

À saída de casa, piso numas fezes. Deslizo, paro, não me estatelei. Rezingo. Querendo que a saída seja breve, me distraí. Que azar!

Volto para trocar os meus tênis porque, sei lá que bicho me mordeu, esfreguei a sola de um no peito do outro.

Omito o calão, avacalho-me.

Fiz porcaria. Ela que me aguarde à beira do tanque porque preciso tomar o rumo de banco e supermercado.

Como é pra já, vou no pique.

Na esquina, vejo um trio de moradores de rua. Um deles retira uma garrafinha de água da lixeira, mas ela está seca. Atiçando um cachorro pra que salte e lata, outro bate os pés e as mãos, grunhindo brincalhão. Já o que está descalço examina os pés, mas, ô alívio!, ele não pisou o cocô que eu houvera pisado ainda há pouco.

Quis cruzar a rua, porém o lado de lá também está ensolarado. Ou seja, neste horário, entre meio-dia e uma da tarde, o sol acanhado não esconde que as duas calçadas estão perfeitas para mendigos, crianças e adultos em geral. É dia de semana, o fluxo está normal.

Na rotina de sempre, estou meio deslocado.

Tenta-me o desejo. Reconheço-me motivado como bom ouvinte. Aí, encurto o passo. Não me distancio dos molambentos. Só me preocupo que não me notem a ouvi-los. Preciso da invisibilidade para me manter anônimo, incógnito, um escutador casual de um papo espontâneo.

Não me confundo: tenho tímpanos treinados.

No ponto de táxi, pedem trocados pra bife, cachaça e pão.

Moram na rua, mas têm como fritar a carne, têm onde lanchar sem que os condenem pelos golinhos de pinga. Estão chapados de álcool, não estão noiados. Confessam-se cachaceiros, mas não é que gostem de beber, bebem para não ter fome. O problema que, bêbados, eles se lembram de que não comeram. Daí, pedem dinheiro, mas o dinheiro é só para comprar comida. Não gastam com bebida porque a sorte deles é bem grande, eles sempre acham o que beber.

Um taxista entra no mercado, compra-lhes pães, frios e coca de 2l.

Quer um desfecho sem pieguice?

Vira-lata que não anda à toa fica de guarda.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de julho de 2022.

domingo, 10 de julho de 2022

O esconderijo

 

O esconderijo

 

Não é preciso apertar o passo, ansiando chegar de vez, pois quem vem àquela casa com a intenção de encontrá-la de cabeça para baixo, esse que espera ser recompensado com a confirmação de desejos tão desabonadores, o seu sorrisinho desdenhoso dirá eu sabia.

Sabe de nada, apressadinho.

Não se pense que almofadas aos pés do sofá, um vasinho ou outro virados no parapeito da janela, uns piruás numa tigelinha ou, se for pra ir às minúcias, o tapete marcado pela poltrona, nada disso redunda que a responsável pela casa seja uma pessoa desleixada.

Se não ficasse espiando quem comprava aquele par de meias, teria avançado um instante porta adentro, entrando a tempo pra observar a mulher desdobrando-se pra ajeitar tudo na sala.

Se não se alarmou com a campainha, ela desembestou lá do fundo tão logo a menina, usando a cortina pra não ser vista pela senhora que enxugava o rosto com um lenço, foi depois que a caçula esgoelou mãe, mamãe, a tia tá no portão, manhê.

A irmã mais velha do seu marido não iria desculpá-la. Entregaria as meias pro sobrinho, tomaria chá gelado, com duas colheres de açúcar, e comentaria o clima bom, pra quem não tem glândulas complicadas.

Como não tem varizes nem sudoríparas desreguladas, o suor será pelo bafo da torta, é de banana?, acabada de assar.

Embora nem notando que o futuro talvez dispense meias, você que se conserve acompanhante contente com o que lhe é contado.

Ela arrumou a sala; sorrindo, abriu a porta; pela correria, suava; mal conseguiu dizer boa-tarde, uma vez que a filha fez as honras:

ꟷ Saiu da toca, tia Carlota?

ꟷ Bicho é que mora num buraco, Maria Eduarda. Não a ensinaram na es-co-la? ꟷ escandindo as sílabas pro subentendido casa.

Tia Carlota entrou, afofou a almofada na poltrona, colocou outra às costas, e, puxando e repuxando e alisando o vestido para que não lhe ficasse desnuda uma mísera polegada de pele, sentou-se.

Nesse ínterim, Duda e a criançada já haviam se pirulitado.

Quedaram-se a sós, a visitante das horas impróprias e a quituteira dos biscoitinhos de polvilho, acredita que perdi a receita de novo?

Como sempre, ela não fez por mal.

Não banque o babaquinha de julgá-la megera, a vilã, a inimiga a ser vencida porque trouxera meias a um garotão de doze anos.

Compreendamos o ponto.

Em vez do velho-de-guerra pijaminha, não quis a chateação de dar um número errado como no ano passado, ela reconhece que o Mauro vem espichando, que ele está virando rapaz de repente. Mas isso não a convence a chamá-lo de César, ele não é Sérgio como o pai?

Ele não. E o MC não é adepto de pijama listrado ou meias chumbo.

Como tem modos, agradecido, ele retirou-se ao quarto, pois, nesse aposento, praticaria desimpedido a arte de ver acrobatas tiktokers.

Enquanto isso, e enquanto a almofada na poltrona continuava a ser ocupada, o gato dormia fora de cena, recôndito.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de julho de 2022.

quinta-feira, 7 de julho de 2022

A moça das rosas

 

A moça das rosas

 

De volta da rua, trouxe as compras mais um mal-estar, de estômago pesado e dor de cabeça.

Passarei o dia deitado. Bebericarei o soro caseiro. Comerei purê de batata com arroz branco sem óleo, sem sal. Os detalhes escatológicos ficarão implícitos na palavrinha poderosa: virose.

Olho a agenda, alivia-me não ter compromissos externos. Tenho só que responder e-mails e matutar a próxima crônica.

Antes de sair de casa, tinha me aborrecido com as brutalidades, as estultices, as vilanias às pencas, em catadupas. Mas não desisto, virá o dia para acontecimentos menos estapafúrdios.

Li os jornais, mas não foi na edição de hoje que encontrei notícia da moça que vende flores. Como ontem, nenhuma. E amanhã, nada. Que as folhas ignoram a realidade banal da garota das rosas.

Ela deve ter ido vender flores noutra esquina, porque eu passei pelo ponto em que a vejo a postos mas ali ela não estava. Faz dias que não a encontro no lugar de sempre.

Se morreu, não sei. Se ganhou na loteria, que sorte a dela.

Ninguém me informa que o dinheiro da venda sirva pra repor cravos e rosas e que, às vezes, pelo sol ou pelo inexplicável da vida, dá para ter duas refeições num só dia. Mas, não festeja.

Por meu azedume pouco solidário, faço conjecturas.

Avento que a moça não esquece que não gosta de vender flores na rua, o dia todo, mas a venda foi boa. Com a parte da féria que pagaria a janta, ela toma sorvete, come pastel e namora uma sandália, que não comprará nem hoje sequer amanhã. Faz meses que a namora.

Justamente porque não gosta nada de vender flores na esquina, ela vai ao boteco. Passa longe da maria-mole em pé junto ao balcão. Pede apenas um maço de cigarros e meia dúzia de chicletes, só de menta.

Se a vendedora que toma café às cinco da manhã soubesse de mim por meus serviços, me pagaria para escrever o singelo bilhete. Porém nunca pensei na despedida deste mundo, declinaria.

Não me desespero quando tomo café às cinco da matina.

Corro os olhos pelos portais de notícias porque imagino a torcedora que não briga com o mundo depois do terceiro empate em casa. Penso no amor ao time, mesmo que esteja encantada com a simplicidade do ídolo, a simplicidade assessorada do ídolo, ela hesita, não quer chatear com mais uma foto. Mas há ídolos que duram mais do que uma foto.

É romântica, dessas que idealizam uma vida menos azeda.

Ela poderia querer rosas, todavia o jogador é simpático, tem sorriso espontâneo, fraterno, de uma delicadeza natural que mais a encanta, o que a faz pedir outra. Só a última.

Mesmo que a esquina nem saiba de mim, fantasio que a torcedora romântica quer ganhar rosas e tirar fotos, mas a moça que vende flores sumiu faz dias, uma semana, talvez duas.

Só posso atribuir à virose o destempero de atirar às portas de mais um rodeio a moça desaparecida. Vendendo cravos a rodo, ela nem se lembrará do café das alvoradas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de julho de 2022.


terça-feira, 5 de julho de 2022

Uma lenda

 

Uma lenda

 

Descontraídas, as pessoas conversam.

Uma esteve numa chácara não muito distante da cidade. Tinha um tanque para pescar, nadar. Todavia, o mais inacreditável não era estar no meio de uma floresta cheia de bugios e jararacas, era levar só cinco minutos pra se deliciar com um x-tilápia do balacobaco.

Pra não ficar por baixo, outra foi fundo. Claramente exagerada, pôs em números a proeza de não ter lembrança alguma do sábado, porque o porre foi tão sensacional que emendou o primeiro gole na sexta-feira à noite com a centésima garrafa no domingo de manhã.

Então, a terceira pessoa começa a falar.

Ela diz que o e-mail enviado à firma na segunda-feira passada será respondido neste quinto dia útil depois de recebido, lido e encaminhado pro setor responsável pela solução do problema apontado.

Por estar preparada para satisfazer o cliente, fará o que for preciso para não desapontá-lo. Porque a firma trabalha em prol do consumidor, não hesitará. Sem desrespeitar, será firme. Pois o funcionário treinado sabe o quanto é crucial não demonstrar parcialidade contra os direitos de quem consome. Para que não reste dúvida de que lado está ao final do contato com quem solicitou esclarecimentos, e sem meias palavras, deixará a critério do fidelizado a satisfação pelo consumo. Para realçar o bem-estar que o serviço prestado proporciona, que seu atendimento seja sóbrio, racional e objetivo. Sem desperdícios de tempo, claro.

O homem, porém, faz um pedido singular.

Ele pede que a fatura seja enviada porque é errado usufruir de um serviço sem pagar por ele. Enviem por e-mail ou pelo correio, tanto faz, como a enviarão é de menos, desde que seja endereçada de pronto.

Ele sabe que tem razão, porque tem contrato assinado. E incomoda saber que tem débitos a pagar. Seja dito o quanto está devendo.

Ele mal tem dormido, porque é o seu nome que ficará sujo. Se nada for feito, de modo rápido, o engano que precisa ser reparado afetará o crédito na praça. Quem tem que zelar pelo nome é ele próprio.

Sem questionar a veracidade do que diz o cliente, ela informará que o número fornecido não consta do cadastro. Por respeito à palavra do suposto cliente, dirá que não há registro de contrato naquele nome.

Como a prioridade da empresa é a transparência na relação com a clientela, ela informará que fez reiteradas buscas. Procurou por nome, CPF, RG, data de nascimento, filiação, endereço, declaração de renda, boletins de ocorrência, moras, pendências, e tudo por nada.

Para que a falta de sucesso não seja atribuída a muito azar da parte menos interessada no fracasso, ela informará que ter curtidas no Face, selfies no Insta, currículo atualizado na plataforma Lattes, isso não é o bastante para dar realidade a uma passagem pelo mundo.

Ao fim e ao cabo, quem não existe nem nunca existiu, essa pessoa não é fantasma, é lenda.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de julho de 2022.

domingo, 3 de julho de 2022

Momento oportuno

 

Momento oportuno

 

Sem covardia, a manhã será das pílulas.

Entro como quem senta na praça pra tomar sol porque pode.

Porque posso, paro pra pensar.

Putz! A farmácia está bombando. Em lugares lotados viro cavar um poço. Tenho neurose. Se observado por gente que finge não perceber o que se passa com a pessoa quando tem quem repare na caspa onde não há, quero gritar: sou careca, pô!

É bisonha a mente que leva o ser pensante a sacolejar o esqueleto, a tremelicar-se, até a ter um troço.

No papel de estátua, saio-me mal.

Confio que uma porta separa mesmo a casa da rua, mas, amáveis, os problemas são fiéis e seguem comigo. Se tivessem permanecido na cama, estaria tomando sol na praça, ouvindo os passarinhos, querendo pegar-lhes o ritmo. Mas estou na fila, tentando me tranquilizar.

Corro pra casa ou enfrento o treco?

Procrastino a decisão. Adio o quanto posso.

Acho bastante razoável haver morosidade e as filas existem porque pessoas razoáveis sabem esperar. Só as resmungonas não aguardam nada e vão embora. E quem espera avança uma casa. Com a coragem dos persistentes, não mexo uma ruga. A tentação de sair correndo vai cair ao mínimo, ponho fé.

Não vou negar ao momento o bem que me possa fazer, posso muito bem apreciá-lo. Se o fizer sem nervosismos, talvez aprenda que a vida não é precipício. Cachola atemorizada, procure equalizar o conflito dos neurônios com as sinapses.

Estar em pé numa farmácia abarrotada pode ser uma circunstância que ajude a entender que a tensão que sinto é coisa boba. Ficar tenso porque persigo a estabilidade é bobagem.

Fique tonto, bobo. O imponderável é de momento; não tem fila que não ande. Pessoas são instáveis: o caos prospera: há vida.

Procuro me fixar na caixa diante dos meus olhos. Há caixas e mais caixas, uma ao lado da outra, são tantas. E todas trazem estampado o sorriso de mulher que se orgulha da cabeleira, que seja loira brilhante, ruiva vistosa, cacheada sedosa.

Cáspite! Continuo careca pra caramba.

Alguém esbarra de leve neste distraído, mas não digo nada.

Poderia dizer que estou na fila por ter visto o calendário, que o deixo na mesa da cozinha pra não perder os compromissos marcados.

Cometa condicionado ao uso contínuo dos reguladores de coração, rins, circulação e afins, visito farmácias no começo de todo mês.

Não pude tomar café, bebi água. Vi a data e vim. No primeiro dia do mês venho buscar os meus remédios. Vim sossegado, sem supor que o sistema irá falhar quando estiver sendo atendido. Sei que não fiz café porque o gás acabou, mas pedirei outro bujão quando der com o vazio à entrada da cozinha. Farei café.

Fulano, cujo nome não lembro, pede a gentileza de passar na frente porque o seu cachorrinho está amarrado ao trinco do carro.

Mesmo que pareça haver uma oportunidade para ser rude, cedo o lugar. Por autocontrole, não por confiar que cachorros torrem sob o sol.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de julho de 2022.

quinta-feira, 30 de junho de 2022

Ovidiana

Ovidiana

 

Como me enrolo, paro um momento. Melhor parado do que dar com a cara no batente. Com o frio, batidinhas doem muito mais.

No escuro, puxo o cordão para desfazer o laço. Faz-se nó o que era laço. Quero abrir o capuz; mais o aperto à altura do queixo.

Se não fosse gente, neste instante de cegueira na madrugada, seria prática a visão dos morcegos. Das marmotas. Ou das toupeiras.

Mas, o meu conhecimento de enciclopédia alerta que os morcegos usam o som para não enfiarem a fuça numa empena.

Nunca vi uma toupeira. Logo, toupeiras têm olhos?

Eu conheço uma marmota que enxerga longe, é aquela que ganha a vida saindo da toca para prolongar o inverno ou encurtá-lo.

De acordo com o desejo cristalino de quem patrocina tal espetáculo, muita raposa vira estola em pescoço de pele refinada.

Para pescoços tão ecléticos, haja raposa, vison e chinchila.

Não quero virar raposa, vison ou chinchila.

Como a madrugada anda gelada à breca, me sairia bem hibernando trinta anos nos próximos três meses.

Hibernar. Dormir. Talvez roncar.

E roncaria, tanto e tão fortemente, que acordaria assustado comigo. Despertaria temeroso. E teria garras para arranhar pinheiros, paineiras e ipês. E abraçaria com tal vigor que mudaria afetos em desafetos.

Roncar. Acordar. Deixar o desastroso rastro.

Sem falar que acordaria uma fome monstruosa. E pra matar a fome, as abelhas teriam de crescer magicamente, já que estão morrendo.

E a magia da natureza não está na transformação de lebre em gato; tamborins é que seduzem os mágicos a arrancar do couro a nota grave que atravessa o toque. Funk virando rock.

Fedendo a gambá, dormir. Mas eu não bebo.

Mesmo sem olhar de lince, tiro o capuz.

Todavia, como animal que sangra, a unha de uma mão machuca o canto da unha da outra. Percebo o que faço. Sinto onde dói.

Já que louro que sonha com gavião despenca do poleiro, quero ir à forra, cair na farra, subir a serra, zanzar na feira. Pra bicar pera, laranja, goiaba e uma penca de banana.

Estou com sono. Preciso deixar de ser banana. Quero acreditar em mim. Quero fiar-me no que penso. Quero-me liberado da xepa, da xepa toda. Penso, curo. Lavo o dedo. Haverá feira, e pastel de queijo.

Não bato no peito como gorila. Não temo nas sombras os sombras. Não hei de correr de cobra. Sonho, não aguardo. Semeio e colho.

Sei a que riso a minha pantomima de mico estimula.

A névoa da noite não zurra, umedece. Se apetece, amolece.

Pois ao largo, à espreita, a caravana não disfarça. São hienas e são lobos. Vão em matilhas os matreiros nos descampados das campinas.

O corvo não se espanta com o tamanho do milharal.

A barriga ronca na madrugada fria. Faz muito frio.

Num átimo, percebo que é preciso cobrir a careca. E cubro.

Vejo no espelho o reflexo do rei alce empacado no vão que realço: o luar que me acode acorda o joão-de-barro que traz a aurora: menos aspirina, mais purpurina.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de junho de 2022.


terça-feira, 28 de junho de 2022

Banho de alegria

 

Banho de alegria

 

Mal acorda, a menina corre ver se o presente está na sala.

Ele não está.

O que terá acontecido? Será que não fez o pedido como deveria ter feito, com firmeza corajosa em vez de graciosa que respeita? Deveria ter rezado de novo, três vezes já não bastavam? Por que faltou o fervor das crianças que nunca mentem quando rezam, terá sido entregue em outra casa? Por que teve gente que disse que nunca mais iria mentir? Será que escrever à lápis deu a impressão de que não estava louca de tanto que queria? Não teriam entendido a sua letra? Será que escreveu com letra muito miudinha? Deveria ter escrito em letra de forma assim como no cartaz pra tomar vacina? E se tivesse usado caneta que nem os adultos usam? Se caprichasse no inglês com caneta vermelha, vai ter chance de ganhar a bendita bicicleta?

A menina olha a árvore. O suporte está bem encaixado; o vento não vai derrubá-la. Os galhos estão como a ensinaram: de baixo pra cima, dos maiores pros menores; na ponta, a estrela.

Mesmo montada certo, ela não funcionou.

Será que não funciona direito por que fez tudo sozinha? Se mamãe tivesse ajudado, o Papai Noel teria recebido a mensagem? Se o papai tivesse colocado as bolinhas, os ajudantes do Papai Noel apressariam o pedido que não foi enviado? Com os pais orientando tudo, tem como a bicicleta chegar ainda hoje?

A mãe aparece. Por que a árvore se não é Natal?

A filha diz que tem coisa errada.

A mãe verifica. Meu anjo, está tudo certo. A mãe lê a ‘bicleta’ escrita à mão na tira de papel espetada na ponta da estrela. O seu aniversário é um dia diferente do Natal.

A menina quer o mesmo que a prima ganhou de aniversário.

A mãe diz que a prima ganhou uma bicicleta do Papai Noel porque o dia do aniversário dela é perto do Natal, dois dias depois. Que isso é normal quando a gente nasceu perto de um dia importante. Tem quem receba presente no Carnaval ou no Dia de Finados. Só que precisa ter nascido próximo dessas datas que tanta gente tem consideração, não é pelo Carnaval nem por ser Finados.

ꟷ É claro, meu bem, que muita gente ganha presente no Natal, mas a data mais importante na vida de cada pessoa é o dia do aniversário.

ꟷ Se a árvore está como a senhora e o papai sempre montaram, a árvore tinha que ter ajudado a trazer o meu presente. Não é justo que minha prima tenha uma bicicleta tão bonita e eu não.

ꟷ Filhota, a gente tem o dia inteirinho pra resolver isso.

ꟷ A senhora jura que vai ligar pro papai falar pro Papai Noel mandar a minha bicicleta antes do almoço, vai jurar mesmo?

ꟷ Eu juro. Agora o papai está trabalhando. Então, quando for a hora do almoço, pedirei pro Papai Noel que traga hoje. Pode ser que chegue só à noite, porque o Papai Noel mora longe, bem longe. Ele vive lá na Lapônia, minha querida.

Já tirando o pijama pra entrar no banho, a menina disse que sabia que caneta não servia, pois é lápis que fala a língua da Laaapsôniiia!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de junho de 2022.

  

Nota:

Este texto foi inspirado na crônica O beijo 73, de José Carlos Oliveira, disponível em

https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/16783/o-beijo-73