terça-feira, 5 de julho de 2022

Uma lenda

 

Uma lenda

 

Descontraídas, as pessoas conversam.

Uma esteve numa chácara não muito distante da cidade. Tinha um tanque para pescar, nadar. Todavia, o mais inacreditável não era estar no meio de uma floresta cheia de bugios e jararacas, era levar só cinco minutos pra se deliciar com um x-tilápia do balacobaco.

Pra não ficar por baixo, outra foi fundo. Claramente exagerada, pôs em números a proeza de não ter lembrança alguma do sábado, porque o porre foi tão sensacional que emendou o primeiro gole na sexta-feira à noite com a centésima garrafa no domingo de manhã.

Então, a terceira pessoa começa a falar.

Ela diz que o e-mail enviado à firma na segunda-feira passada será respondido neste quinto dia útil depois de recebido, lido e encaminhado pro setor responsável pela solução do problema apontado.

Por estar preparada para satisfazer o cliente, fará o que for preciso para não desapontá-lo. Porque a firma trabalha em prol do consumidor, não hesitará. Sem desrespeitar, será firme. Pois o funcionário treinado sabe o quanto é crucial não demonstrar parcialidade contra os direitos de quem consome. Para que não reste dúvida de que lado está ao final do contato com quem solicitou esclarecimentos, e sem meias palavras, deixará a critério do fidelizado a satisfação pelo consumo. Para realçar o bem-estar que o serviço prestado proporciona, que seu atendimento seja sóbrio, racional e objetivo. Sem desperdícios de tempo, claro.

O homem, porém, faz um pedido singular.

Ele pede que a fatura seja enviada porque é errado usufruir de um serviço sem pagar por ele. Enviem por e-mail ou pelo correio, tanto faz, como a enviarão é de menos, desde que seja endereçada de pronto.

Ele sabe que tem razão, porque tem contrato assinado. E incomoda saber que tem débitos a pagar. Seja dito o quanto está devendo.

Ele mal tem dormido, porque é o seu nome que ficará sujo. Se nada for feito, de modo rápido, o engano que precisa ser reparado afetará o crédito na praça. Quem tem que zelar pelo nome é ele próprio.

Sem questionar a veracidade do que diz o cliente, ela informará que o número fornecido não consta do cadastro. Por respeito à palavra do suposto cliente, dirá que não há registro de contrato naquele nome.

Como a prioridade da empresa é a transparência na relação com a clientela, ela informará que fez reiteradas buscas. Procurou por nome, CPF, RG, data de nascimento, filiação, endereço, declaração de renda, boletins de ocorrência, moras, pendências, e tudo por nada.

Para que a falta de sucesso não seja atribuída a muito azar da parte menos interessada no fracasso, ela informará que ter curtidas no Face, selfies no Insta, currículo atualizado na plataforma Lattes, isso não é o bastante para dar realidade a uma passagem pelo mundo.

Ao fim e ao cabo, quem não existe nem nunca existiu, essa pessoa não é fantasma, é lenda.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de julho de 2022.

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