Descontraídas,
as pessoas conversam.
Uma
esteve numa chácara não muito distante da cidade. Tinha um tanque para pescar, nadar.
Todavia, o mais inacreditável não era estar no meio de uma floresta cheia de
bugios e jararacas, era levar só cinco minutos pra se deliciar com um x-tilápia
do balacobaco.
Pra
não ficar por baixo, outra foi fundo. Claramente exagerada, pôs em números a
proeza de não ter lembrança alguma do sábado, porque o porre foi tão sensacional
que emendou o primeiro gole na sexta-feira à noite com a centésima garrafa no domingo
de manhã.
Então,
a terceira pessoa começa a falar.
Ela
diz que o e-mail enviado à firma na segunda-feira passada será respondido neste
quinto dia útil depois de recebido, lido e encaminhado pro setor responsável
pela solução do problema apontado.
Por
estar preparada para satisfazer o cliente, fará o que for preciso para não
desapontá-lo. Porque a firma trabalha em prol do consumidor, não hesitará. Sem
desrespeitar, será firme. Pois o funcionário treinado sabe o quanto é crucial
não demonstrar parcialidade contra os direitos de quem consome. Para que não
reste dúvida de que lado está ao final do contato com quem solicitou
esclarecimentos, e sem meias palavras, deixará a critério do fidelizado a
satisfação pelo consumo. Para realçar o bem-estar que o serviço prestado
proporciona, que seu atendimento seja sóbrio, racional e objetivo. Sem desperdícios
de tempo, claro.
O
homem, porém, faz um pedido singular.
Ele
pede que a fatura seja enviada porque é errado usufruir de um serviço sem pagar
por ele. Enviem por e-mail ou pelo correio, tanto faz, como a enviarão é de
menos, desde que seja endereçada de pronto.
Ele
sabe que tem razão, porque tem contrato assinado. E incomoda saber que tem
débitos a pagar. Seja dito o quanto está devendo.
Ele
mal tem dormido, porque é o seu nome que ficará sujo. Se nada for feito, de
modo rápido, o engano que precisa ser reparado afetará o crédito na praça. Quem
tem que zelar pelo nome é ele próprio.
Sem
questionar a veracidade do que diz o cliente, ela informará que o número
fornecido não consta do cadastro. Por respeito à palavra do suposto cliente, dirá
que não há registro de contrato naquele nome.
Como
a prioridade da empresa é a transparência na relação com a clientela, ela informará
que fez reiteradas buscas. Procurou por nome, CPF, RG, data de nascimento,
filiação, endereço, declaração de renda, boletins de ocorrência, moras,
pendências, e tudo por nada.
Para
que a falta de sucesso não seja atribuída a muito azar da parte menos
interessada no fracasso, ela informará que ter curtidas no Face, selfies
no Insta, currículo atualizado na plataforma Lattes, isso não é o bastante para
dar realidade a uma passagem pelo mundo.
Ao
fim e ao cabo, quem não existe nem nunca existiu, essa pessoa não é fantasma, é
lenda.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 05 de julho de 2022.
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