quinta-feira, 30 de junho de 2022

Ovidiana

Ovidiana

 

Como me enrolo, paro um momento. Melhor parado do que dar com a cara no batente. Com o frio, batidinhas doem muito mais.

No escuro, puxo o cordão para desfazer o laço. Faz-se nó o que era laço. Quero abrir o capuz; mais o aperto à altura do queixo.

Se não fosse gente, neste instante de cegueira na madrugada, seria prática a visão dos morcegos. Das marmotas. Ou das toupeiras.

Mas, o meu conhecimento de enciclopédia alerta que os morcegos usam o som para não enfiarem a fuça numa empena.

Nunca vi uma toupeira. Logo, toupeiras têm olhos?

Eu conheço uma marmota que enxerga longe, é aquela que ganha a vida saindo da toca para prolongar o inverno ou encurtá-lo.

De acordo com o desejo cristalino de quem patrocina tal espetáculo, muita raposa vira estola em pescoço de pele refinada.

Para pescoços tão ecléticos, haja raposa, vison e chinchila.

Não quero virar raposa, vison ou chinchila.

Como a madrugada anda gelada à breca, me sairia bem hibernando trinta anos nos próximos três meses.

Hibernar. Dormir. Talvez roncar.

E roncaria, tanto e tão fortemente, que acordaria assustado comigo. Despertaria temeroso. E teria garras para arranhar pinheiros, paineiras e ipês. E abraçaria com tal vigor que mudaria afetos em desafetos.

Roncar. Acordar. Deixar o desastroso rastro.

Sem falar que acordaria uma fome monstruosa. E pra matar a fome, as abelhas teriam de crescer magicamente, já que estão morrendo.

E a magia da natureza não está na transformação de lebre em gato; tamborins é que seduzem os mágicos a arrancar do couro a nota grave que atravessa o toque. Funk virando rock.

Fedendo a gambá, dormir. Mas eu não bebo.

Mesmo sem olhar de lince, tiro o capuz.

Todavia, como animal que sangra, a unha de uma mão machuca o canto da unha da outra. Percebo o que faço. Sinto onde dói.

Já que louro que sonha com gavião despenca do poleiro, quero ir à forra, cair na farra, subir a serra, zanzar na feira. Pra bicar pera, laranja, goiaba e uma penca de banana.

Estou com sono. Preciso deixar de ser banana. Quero acreditar em mim. Quero fiar-me no que penso. Quero-me liberado da xepa, da xepa toda. Penso, curo. Lavo o dedo. Haverá feira, e pastel de queijo.

Não bato no peito como gorila. Não temo nas sombras os sombras. Não hei de correr de cobra. Sonho, não aguardo. Semeio e colho.

Sei a que riso a minha pantomima de mico estimula.

A névoa da noite não zurra, umedece. Se apetece, amolece.

Pois ao largo, à espreita, a caravana não disfarça. São hienas e são lobos. Vão em matilhas os matreiros nos descampados das campinas.

O corvo não se espanta com o tamanho do milharal.

A barriga ronca na madrugada fria. Faz muito frio.

Num átimo, percebo que é preciso cobrir a careca. E cubro.

Vejo no espelho o reflexo do rei alce empacado no vão que realço: o luar que me acode acorda o joão-de-barro que traz a aurora: menos aspirina, mais purpurina.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de junho de 2022.


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