quinta-feira, 7 de julho de 2022

A moça das rosas

 

A moça das rosas

 

De volta da rua, trouxe as compras mais um mal-estar, de estômago pesado e dor de cabeça.

Passarei o dia deitado. Bebericarei o soro caseiro. Comerei purê de batata com arroz branco sem óleo, sem sal. Os detalhes escatológicos ficarão implícitos na palavrinha poderosa: virose.

Olho a agenda, alivia-me não ter compromissos externos. Tenho só que responder e-mails e matutar a próxima crônica.

Antes de sair de casa, tinha me aborrecido com as brutalidades, as estultices, as vilanias às pencas, em catadupas. Mas não desisto, virá o dia para acontecimentos menos estapafúrdios.

Li os jornais, mas não foi na edição de hoje que encontrei notícia da moça que vende flores. Como ontem, nenhuma. E amanhã, nada. Que as folhas ignoram a realidade banal da garota das rosas.

Ela deve ter ido vender flores noutra esquina, porque eu passei pelo ponto em que a vejo a postos mas ali ela não estava. Faz dias que não a encontro no lugar de sempre.

Se morreu, não sei. Se ganhou na loteria, que sorte a dela.

Ninguém me informa que o dinheiro da venda sirva pra repor cravos e rosas e que, às vezes, pelo sol ou pelo inexplicável da vida, dá para ter duas refeições num só dia. Mas, não festeja.

Por meu azedume pouco solidário, faço conjecturas.

Avento que a moça não esquece que não gosta de vender flores na rua, o dia todo, mas a venda foi boa. Com a parte da féria que pagaria a janta, ela toma sorvete, come pastel e namora uma sandália, que não comprará nem hoje sequer amanhã. Faz meses que a namora.

Justamente porque não gosta nada de vender flores na esquina, ela vai ao boteco. Passa longe da maria-mole em pé junto ao balcão. Pede apenas um maço de cigarros e meia dúzia de chicletes, só de menta.

Se a vendedora que toma café às cinco da manhã soubesse de mim por meus serviços, me pagaria para escrever o singelo bilhete. Porém nunca pensei na despedida deste mundo, declinaria.

Não me desespero quando tomo café às cinco da matina.

Corro os olhos pelos portais de notícias porque imagino a torcedora que não briga com o mundo depois do terceiro empate em casa. Penso no amor ao time, mesmo que esteja encantada com a simplicidade do ídolo, a simplicidade assessorada do ídolo, ela hesita, não quer chatear com mais uma foto. Mas há ídolos que duram mais do que uma foto.

É romântica, dessas que idealizam uma vida menos azeda.

Ela poderia querer rosas, todavia o jogador é simpático, tem sorriso espontâneo, fraterno, de uma delicadeza natural que mais a encanta, o que a faz pedir outra. Só a última.

Mesmo que a esquina nem saiba de mim, fantasio que a torcedora romântica quer ganhar rosas e tirar fotos, mas a moça que vende flores sumiu faz dias, uma semana, talvez duas.

Só posso atribuir à virose o destempero de atirar às portas de mais um rodeio a moça desaparecida. Vendendo cravos a rodo, ela nem se lembrará do café das alvoradas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de julho de 2022.


Nenhum comentário:

Postar um comentário