Sem
covardia, a manhã será das pílulas.
Entro
como quem senta na praça pra tomar sol porque pode.
Porque
posso, paro pra pensar.
Putz!
A farmácia está bombando. Em lugares lotados viro cavar um poço. Tenho neurose.
Se observado por gente que finge não perceber o que se passa com a pessoa quando
tem quem repare na caspa onde não há, quero gritar: sou careca, pô!
É
bisonha a mente que leva o ser pensante a sacolejar o esqueleto, a tremelicar-se,
até a ter um troço.
No
papel de estátua, saio-me mal.
Confio
que uma porta separa mesmo a casa da rua, mas, amáveis, os problemas são fiéis
e seguem comigo. Se tivessem permanecido na cama, estaria tomando sol na praça,
ouvindo os passarinhos, querendo pegar-lhes o ritmo. Mas estou na fila, tentando
me tranquilizar.
Corro
pra casa ou enfrento o treco?
Procrastino
a decisão. Adio o quanto posso.
Acho
bastante razoável haver morosidade e as filas existem porque pessoas razoáveis
sabem esperar. Só as resmungonas não aguardam nada e vão embora. E quem espera
avança uma casa. Com a coragem dos persistentes, não mexo uma ruga. A tentação
de sair correndo vai cair ao mínimo, ponho fé.
Não
vou negar ao momento o bem que me possa fazer, posso muito bem apreciá-lo. Se o
fizer sem nervosismos, talvez aprenda que a vida não é precipício. Cachola
atemorizada, procure equalizar o conflito dos neurônios com as sinapses.
Estar
em pé numa farmácia abarrotada pode ser uma circunstância que ajude a entender
que a tensão que sinto é coisa boba. Ficar tenso porque persigo a estabilidade
é bobagem.
Fique
tonto, bobo. O imponderável é de momento; não tem fila que não ande. Pessoas
são instáveis: o caos prospera: há vida.
Procuro
me fixar na caixa diante dos meus olhos. Há caixas e mais caixas, uma ao lado
da outra, são tantas. E todas trazem estampado o sorriso de mulher que se
orgulha da cabeleira, que seja loira brilhante, ruiva vistosa, cacheada sedosa.
Cáspite!
Continuo careca pra caramba.
Alguém
esbarra de leve neste distraído, mas não digo nada.
Poderia
dizer que estou na fila por ter visto o calendário, que o deixo na mesa da
cozinha pra não perder os compromissos marcados.
Cometa
condicionado ao uso contínuo dos reguladores de coração, rins, circulação e
afins, visito farmácias no começo de todo mês.
Não
pude tomar café, bebi água. Vi a data e vim. No primeiro dia do mês venho
buscar os meus remédios. Vim sossegado, sem supor que o sistema irá falhar
quando estiver sendo atendido. Sei que não fiz café porque o gás acabou, mas
pedirei outro bujão quando der com o vazio à entrada da cozinha. Farei café.
Fulano,
cujo nome não lembro, pede a gentileza de passar na frente porque o seu cachorrinho
está amarrado ao trinco do carro.
Mesmo
que pareça haver uma oportunidade para ser rude, cedo o lugar. Por
autocontrole, não por confiar que cachorros torrem sob o sol.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 03 de julho de 2022.
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