domingo, 3 de julho de 2022

Momento oportuno

 

Momento oportuno

 

Sem covardia, a manhã será das pílulas.

Entro como quem senta na praça pra tomar sol porque pode.

Porque posso, paro pra pensar.

Putz! A farmácia está bombando. Em lugares lotados viro cavar um poço. Tenho neurose. Se observado por gente que finge não perceber o que se passa com a pessoa quando tem quem repare na caspa onde não há, quero gritar: sou careca, pô!

É bisonha a mente que leva o ser pensante a sacolejar o esqueleto, a tremelicar-se, até a ter um troço.

No papel de estátua, saio-me mal.

Confio que uma porta separa mesmo a casa da rua, mas, amáveis, os problemas são fiéis e seguem comigo. Se tivessem permanecido na cama, estaria tomando sol na praça, ouvindo os passarinhos, querendo pegar-lhes o ritmo. Mas estou na fila, tentando me tranquilizar.

Corro pra casa ou enfrento o treco?

Procrastino a decisão. Adio o quanto posso.

Acho bastante razoável haver morosidade e as filas existem porque pessoas razoáveis sabem esperar. Só as resmungonas não aguardam nada e vão embora. E quem espera avança uma casa. Com a coragem dos persistentes, não mexo uma ruga. A tentação de sair correndo vai cair ao mínimo, ponho fé.

Não vou negar ao momento o bem que me possa fazer, posso muito bem apreciá-lo. Se o fizer sem nervosismos, talvez aprenda que a vida não é precipício. Cachola atemorizada, procure equalizar o conflito dos neurônios com as sinapses.

Estar em pé numa farmácia abarrotada pode ser uma circunstância que ajude a entender que a tensão que sinto é coisa boba. Ficar tenso porque persigo a estabilidade é bobagem.

Fique tonto, bobo. O imponderável é de momento; não tem fila que não ande. Pessoas são instáveis: o caos prospera: há vida.

Procuro me fixar na caixa diante dos meus olhos. Há caixas e mais caixas, uma ao lado da outra, são tantas. E todas trazem estampado o sorriso de mulher que se orgulha da cabeleira, que seja loira brilhante, ruiva vistosa, cacheada sedosa.

Cáspite! Continuo careca pra caramba.

Alguém esbarra de leve neste distraído, mas não digo nada.

Poderia dizer que estou na fila por ter visto o calendário, que o deixo na mesa da cozinha pra não perder os compromissos marcados.

Cometa condicionado ao uso contínuo dos reguladores de coração, rins, circulação e afins, visito farmácias no começo de todo mês.

Não pude tomar café, bebi água. Vi a data e vim. No primeiro dia do mês venho buscar os meus remédios. Vim sossegado, sem supor que o sistema irá falhar quando estiver sendo atendido. Sei que não fiz café porque o gás acabou, mas pedirei outro bujão quando der com o vazio à entrada da cozinha. Farei café.

Fulano, cujo nome não lembro, pede a gentileza de passar na frente porque o seu cachorrinho está amarrado ao trinco do carro.

Mesmo que pareça haver uma oportunidade para ser rude, cedo o lugar. Por autocontrole, não por confiar que cachorros torrem sob o sol.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de julho de 2022.

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