Jogo
jogado
Na tomografia do instante, não falta o
que pensar. E quem vive em paz põe o mundo em ponto morto? Se acelerar não
resolve porcaria alguma, talvez um adiantamento dê jeito na coisa. A coisa de
sempre. Pois o tempo masca, masca, e, como trem que custa a enjoar, cospe fora
a massa de carne já com a boca torta. E não responde pelo que faz. É sério? Está
decidido. E ninguém perde por esperar. Hoje o dia está ganho? É jogo jogado.
E vai ganhá-lo ficando na cama. Abrirá
mão de comer ovo, lavar o sovaco, mandar e-mail. Sequer lerá as mensagens no
celular. Aliás, o telefone ficará desligado. E não pense que é para deixar no
mudo ou em modo avião. Tome tento do caso, esqueça o aparelho. Deixe-o lá. Estará
ferrado se se lembrar de onde o tinha deixado ontem, antes de apagar a luz e deitar-se,
contrariado.
Já deletou o surto que teve?
De novo, foi por ir. Nem o sono tinha
vindo dar a cara. Foi só por obrigação. Pro dia seguinte, este ora corrente, vir
com o roteiro dado como certo. A vida condenada ao ordinário? Redobram-se as
tarefas.
Francamente.
Dê um tempo. O tempo que seja.
Livre-se das aporrinhações, nem que dure apenas uma mentira. Conte-a, até três.
Talvez funcione e a fornalha dos dias alcance a pressão necessária. Descarrile-se.
Não chore. Choro é pros impávidos?
Então tá, chore.
Só não invente de dar descarga no telefone.
Finja que o encontrou assim, meio no susto. Estava passando por onde nem sabia
que era. Quis pegá-lo, arque com as consequências. Mimimi ultimamente tem
desentupido bem menos os encanamentos. E a turma do prédio anda louquinha pra
vir socar a porta. Que ficar cobrando explicações acaba levando a alguma resposta?
Até às sensatas.
O vento sacode a janela. É o sinal.
É sinal de que não dá para deixar nada
para depois, então, melhor nem começar. Pois começar por começar é arriscar a
nem terminar e tem tanta coisa que tem ficado pelo caminho.
Tipo a fatia de queijo em cima da
mesa. Até as baratas estão com nojo. Aquilo mofado, já fedendo. Você poderia
ter comido. Anda sem apetite? O mundo não quer saber. Lave e coma.
Se ao menos não tivesse trocado as
pilhas do relógio, ficaria sem saber que a roda gira, rodopia, enovela os fios
do progresso. E mente sadia ignora os ponteiros; ela vê a hora e não os seus
agentes. Aliás, pare de mimar a quarentena como um bichinho de colo.
Quer colo?
Isso de dormir menos, comer menos e
abusar do leite, isso nunca vai impelir a compreender aquele povo todo indo
atrás do jogador? E sem dar um tostão por lhe sungar a farda canarinha.
Se bem que... Pode ser. Vai que seja. Está
parecendo que vai ser hoje? Vá à luta. Pois há pontos na história que ocorrem
quando nem se sabe que há um antes e, de repente, passa a ter um depois.
Que gracinha!
Nada como viver um momento único...
Contra o Brasil, às 12h30 da sua TV,
faz 131 dias que a Azzurra vem se mantendo uma invicta bicampeã.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 30 de julho de 2020.