terça-feira, 28 de julho de 2020

Mas entretanto


Mas entretanto

O velho anormal manda lembranças. Em vez de flores?
Sim, mandar buquês é de outros tempos. De uma era de poesia e de romantismo piegas. Parecido com o mundo a ponto de... Todavia, não direi: há cinquenta anos se amarrava cachorro com linguiça.
Acaso delirasse assim, na utopia nostálgica ainda entraria a minha cadelinha pequinês. Brincando comigo num quintal imenso de árvores frutíferas, e não naquela gaiola de chão cimentado entre os paredões laterais dos prédios vizinhos. Tocando a farsa: mamãe chamaria para comermos; a companheira e eu iríamos de imediato; e comeríamos o que o sonho tivesse ousado comprar, menos bife, arroz e feijão. Sim, cão e gente seguiríamos dividindo do sóbrio repasto. É vero, mesmo a passados não adaptados ― cães e gatos não comiam ração.
Aliás.
Desde que me entendo por gente, quando passei a ter permissão pra falar do tempo em que não era pessoa, era criança. Embora seja anacronismo apontar que toda e qualquer criança seria então pessoa humana. E com tamanha fartura de linguiça, todo e qualquer cachorro seria muito bem alimentado que só correria atrás do próprio rabo para manter azeitada a mandíbula.
Seria um idílio na Terra, o paraíso melhor que o Éden e verdadeiro Eldorado. Embora haja quem pense, diga e aja como se aquilo fosse regra. Dizem que estou enganado. Havia famílias e famílias. A minha é que tratava criança como aprendiz sob as varas da lei, e ai daquele que pusesse em questão a ordem dada por eles, os adultos.
Como cópia atual de mim, porém em versão revisada, apropriada aos códigos em vigor, longe de mim querer atentar contra o vigoroso padrão de vivência social, porque a hora do instante faz-se de lucidez e respeito. Entretanto, não me alimentarei da loucura?
Tendo na cabeça a boa prática sanitária na intimidade do lar e na convivência pública, passei a pensar na mulher nua que vi.
“Atena” desafia os cães de guerra ― afirmaram.
Um pelotão armado? Empunhando cassetete, atrás de escudo, de saliva lubrificando caninos, calçando botas: o poder incontestável.
A tropa deu um passo. A majestosa abriu as pernas.
E fim de jogo?
A musa estava de costas, nas fotos mostradas na TV. Então, meu demônio favorito, o interior, foi ele que riscou o fósforo para mostrar a profundidade da minha ignorância. Bebi da água obscura que ilumina os meus recônditos mais sombrios, tentadores, sedutores, que atiçam o louco em mim. E atiçado, mordi a própria sombra.
De costas pra mim: teria o sorriso enigmático da Mona Lisa ou os olhos marotos da Maja de Goya? E de frente para o ódio espumante: desarmara com rosa tão ardilosa?
Ora, como velho anormal que não sabe ler, leio do meu modo.
E meio tonto, meio turvo, pude ver o que vi?
O renascimento de Afrodite, a poderosa.
Vige!
Atarantado que só, até me arrepiei gargalhando dos juízos.
Que cão danado da peste...

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 28 de julho de 2020.

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