domingo, 26 de julho de 2020

Apocalipses


Apocalipses

Estando no mundo a trabalho, empenho-me a fazer com alegria o que a mim me toca fazê-lo. Por designação ou desejo, porém pouco à vontade com alvarás e procedimentos, todavia em razão da entrega à persona do curioso, retiro a máscara de quem sabe o que faz com o que pode. E se bem o faço?
Mais repulsivas as tentações, mais estimulado a fracassar.
Hedonista, vou ao Concertgebouworkest; de Beethoven, nos seus 250 anos de nascimento, regozija-me a sua 7ª sinfonia, em Lá Maior, a opus 92, na versão estreada em 03/06/2020, vista numa terça-feira, mais um 21, de outro julho, deste 2020.
Tendo ouvido, passo aqui a apurar os sentidos:
“O coitado, digno de dó, fazendo o que sempre faz, sendo quem é, esvaziava as garrafas, enchia os copos, até que a noite o vomitasse pra cama, de volta ao consolo dos sonhos abandonados. O infeliz, o desabrigado de si, recorrendo ao despropósito permanente da fuga, corria aos supermercados, comprava mais das mesmas marcas, até que o dinheiro o jogasse no carro, farto do desprezo dos próximos tão assemelhados. Mas o amor quebra a espinha, disseminando as suas contrariedades, fortalecendo as rupturas, fraturando suas rotinas. Não vou generalizar, somos todos iguais. E matamos nossos amados com o bom-dia antes do meio-dia. E adulamos nossos ventríloquos com o boa-tarde depois do almoço. E conservamos nossas misérias quando ajoelhamos em vão, escarrando nosso boa-noite a quem nos antoja. O insatisfeito, armado de boas intenções, recupera-se da insônia ao insistir com a vigília dos desesperados, porque abrimos nossos olhos, escancaramos as janelas, porém o vento traz morte, inocula venenos, dá alento a quem insepulto. O passional, o senhor dos descontroles, dita à razão o que julga ferver nas veias, suas artérias entupidas de gordura, as suas opacidades de doido varrido, de menino mimado, de maior aporrinhado. Bebe do fel que baba sem notar. Até que a morte o separe: à direita com a sua bengala inútil, à esquerda entregue aos ratos. Há ratos por todos os lados, aí, em baixo da cama, em cima do forro, dentro da pia, fora do espelho. Não há o que fazer? Nada. Caso tenha pensado em comer pipoca, falta o milho, sobram as desculpas. Quando nada pode ser feito, nada há para ser perdoado. As notícias chegam antes, apressadas pelas esperanças perdidas, vilipendiadas, ignoradas. Não há nova que não envelheça, apodreça. E não há noite que não amanheça, aconteça. Não. Afinal, não é não. Antes que tudo se perca, percamo-nos. Sinto. Às vergonhas que me expus, as nunca antes mencionadas ao público, deixei-as atrás das paredes da casa fechada, detrás das portas do guarda-roupa trancado, por detrás do zíper do casaco cujo couro resiste às chamas do fogo interno”.
Eco!
Gozará a música do intraduzível?
Porquanto não afino o tino somente pelo que domino, amo.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 26 de julho de 2020.

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