Hoje não? Hoje sim.
É claro que irei almoçar com meus
amigos. Só não iria ao encontro se houvesse calamidade pública ou um problema
físico a impedir-me de ir encontrá-los. Ainda que o nosso almoço, no dia
seguinte ao Natal, seja compromisso renovado automaticamente, vou tal qual uma
pomba ― nas asas, levo a paz; o amor, levo no bico.
Já embebido no otimismo, que avento a
quem sobreviver às festas deste finalzinho de ano, preparo-me, quero dizê-lo
bem, pois sou capaz de manter a calma e mantendo-a, com algum esforço para
evitar meus destrambelhos, pelejo comigo para soá-lo menos cafajeste.
Para comermos e bebermos sem rilhar
facas, falaremos de política, religião e futebol. Se falássemos de família, discutiríamos,
perderíamos amizade e vomitaríamos na esquina.
Uma vez que, todos, demos dinheiro e
definimos o menu, bebemos e comemos sabedores de que a reunião seria mantida aprazível
desde que nos ativéssemos às trivialidades, se permanecêssemos infensos a
boçalidades, pois não nos adulamos com aplauso ou vaia, gostamos de beijos,
abraços e presentes sorteados na hora.
Nós bebemos e banqueteamos e, por último
mas sem importância menor, brindamo-nos, sim!, nós nos mimoseamos com livros.
Deztroços (de Nelson Cruz) foi para o Aristeu; Antologia
Pessoal (de Dalton Trevisan) foi para o Domingos; Sempre Repórter (de
Lilian Ross) foi para o Luisinho; O Mestre e Margarida (de Mikhail
Bulgakov) foi para a Dona Cremilda; já A Cidade das Mulheres (de
Christine de Pizan) veio para mim.
Amanhã talvez? Amanhã certamente.
Já na calçada, combinamos de trocar os
livros. Depois de abraços e beijos, combinamos de comentarmos as nossas
leituras.
Ontem ninguém sabe? Ontem eu mesmo é que
soube.
Indo à livraria para comprar, como
sempre em cima da hora, o livro que precisaria entregar a amigo nada oculto,
adiei a compra.
― Moço, me paga um almoço?
― Se importa se almoçarmos juntos?
Entramos e fizemos nossos pratos e
pedimos nossos refrigerantes: ela, Coca; eu, guaraná. Observados pelas outras
mesas, sentamo-nos fora, na varanda.
Entre uma garfada e outra:
― Você é de onde?
― Não sou daqui. Sou da divisa da Bahia
com Minas.
― É mesmo? De que estado você é?
― Caramba que eu já disse! Sou da divisa
da Bahia com Minas.
Entre um golinho e outro:
― E se acostumou com a cidade? Aqui faz
muito frio, né?
― Trinta graus é frio? Pelo Cristo! Com um
calor desses, vou passar o Ano Novo na praia.
― Que bom! E onde você vai ver a queima
de fogos?
― Que aperreação! Como não sou besta, vou
pular as sete ondas, porque não tem cabimento tomar banho de piscina.
Embora os abelhudos seguissem de orelha
em pé:
― Quer sorvete ou cafezinho?
― Sorvete? Quero pudim! Casquinha eu vou
ter na ilha.
― Ô coisa boa! E vai pra qual ilha?
― Pra Ilha Comprida, claro! E já arrumei
carona. O duro é aguentar o papo de pobre ser tudo comunista.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 29 de dezembro de 2024.