Boa
vontade
De costas para o televisor, ligado com
som baixinho, o homem está ocupado em observar as formigas que vão indo, com os
restos do que ele acabou de comer, e vêm voltando, atrás do restante que houver.
― Quero panetone.
Sem esperar pela resposta, batendo as
mãos no chão; já virado pro homem sentado na cadeira junto à porta, ele grita:
― Eu quero mais panetone!
Ao entregar-lhe outra fatia, o rapaz
enfatiza com o indicador:
― Pela última vez, chega de porcaria
antes do café.
É cedo, ainda são seis e pouco.
Sem exceções, as regras precisam ser
respeitadas. Se somente às sete o refeitório será aberto para o desjejum, a
ninguém está permitido qualquer privilégio, até o de fazer uma boquinha às seis
e pouco, pois a essa hora gente respeitável deveria estar na cama.
Ele não mastiga de boca aberta por achar
divertido, já as formigas ocuparem-se do que lhe cai da boca é o que o prende
daquele jeito.
Com mais migalhas para serem transportadas,
aumenta o número daqueles insetos. Ainda que elas nem prevejam chineladas,
borrifos de inseticida e palavrões, intensifica-se o tráfico.
Pouco importando ter razão, o homem esticado
no chão fala:
― Quero panetone.
Sem o equívoco de vê-lo como um
partidário da ioga, ao carequinha que apoia o tronco nos cotovelos nem lhe
ocorre de voltar-se ao moço de jaleco que nem se mexe na cadeira.
― Eu quero mais panetone!
Sem desviar os olhos da tela do celular,
fala o moço:
― Já te disse. Chega de comer antes do
café.
― Eu quero mais panetone! ― berrou o
careca barrigudinho.
O funcionário para de jogar, diz que já
deve estar na hora de ir tomar café e, pelo interfone ao lado da porta, pede
que alguém venha varrer a sujeira, uma vez que tem bicho que não para mais de
surgir, e sabe-se lá de que buraco aquelas formigas saem.
O carequinha barrigudo junta os farelos,
mais ou menos numa linha, e as formigas parecem entender que aquela linha quase
retilínea está assim disposta para lhes facilitar o trabalho.
― Quero panetone.
Como ninguém aparece, o rapaz de jaleco interfona
outra vez. Para que uma equipe venha logo limpar, ele altera a voz, pontuando
frases com o falsete digno de ser respeitado:
― Eu não estou inventando. Tem
tanta formiga que o paciente está com medo e eu também estou com
medo, pois, sei lá, vai que ele tenha um troço por causa das picadas.
― Eu quero mais panetone!
― O quê? Isso é um insulto! Então
a senhora acha que alguém com as minhas responsabilidades seria homem
para brincar sobre o perigo que um paciente meu está correndo?
― Quero panetone.
― A pessoa que só pode estar
brincando é a senhora, não eu. E a senhora fique informada
que relatarei, pois isso não se faz, senhora.
― Eu quero mais panetone!
― Tenha dó! A senhora está fingindo
que não escuta. Porque expor paciente a ataque de saúva é uma falta grave,
é insubordinação que a chefia vai ter que punir.
― Quero panetone.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 26 de dezembro de 2024.
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