quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

Boa vontade

 

Boa vontade

 

De costas para o televisor, ligado com som baixinho, o homem está ocupado em observar as formigas que vão indo, com os restos do que ele acabou de comer, e vêm voltando, atrás do restante que houver.

― Quero panetone.

Sem esperar pela resposta, batendo as mãos no chão; já virado pro homem sentado na cadeira junto à porta, ele grita:

― Eu quero mais panetone!

Ao entregar-lhe outra fatia, o rapaz enfatiza com o indicador:

Pela última vez, chega de porcaria antes do café.

É cedo, ainda são seis e pouco.

Sem exceções, as regras precisam ser respeitadas. Se somente às sete o refeitório será aberto para o desjejum, a ninguém está permitido qualquer privilégio, até o de fazer uma boquinha às seis e pouco, pois a essa hora gente respeitável deveria estar na cama.

Ele não mastiga de boca aberta por achar divertido, já as formigas ocuparem-se do que lhe cai da boca é o que o prende daquele jeito.

Com mais migalhas para serem transportadas, aumenta o número daqueles insetos. Ainda que elas nem prevejam chineladas, borrifos de inseticida e palavrões, intensifica-se o tráfico.

Pouco importando ter razão, o homem esticado no chão fala:

― Quero panetone.

Sem o equívoco de vê-lo como um partidário da ioga, ao carequinha que apoia o tronco nos cotovelos nem lhe ocorre de voltar-se ao moço de jaleco que nem se mexe na cadeira.

― Eu quero mais panetone!

Sem desviar os olhos da tela do celular, fala o moço:

― Já te disse. Chega de comer antes do café.

― Eu quero mais panetone! ― berrou o careca barrigudinho.

O funcionário para de jogar, diz que já deve estar na hora de ir tomar café e, pelo interfone ao lado da porta, pede que alguém venha varrer a sujeira, uma vez que tem bicho que não para mais de surgir, e sabe-se lá de que buraco aquelas formigas saem.

O carequinha barrigudo junta os farelos, mais ou menos numa linha, e as formigas parecem entender que aquela linha quase retilínea está assim disposta para lhes facilitar o trabalho.

― Quero panetone.

Como ninguém aparece, o rapaz de jaleco interfona outra vez. Para que uma equipe venha logo limpar, ele altera a voz, pontuando frases com o falsete digno de ser respeitado:

― Eu não estou inventando. Tem tanta formiga que o paciente está com medo e eu também estou com medo, pois, sei lá, vai que ele tenha um troço por causa das picadas.

― Eu quero mais panetone!

O quê? Isso é um insulto! Então a senhora acha que alguém com as minhas responsabilidades seria homem para brincar sobre o perigo que um paciente meu está correndo?

― Quero panetone.

― A pessoa que só pode estar brincando é a senhora, não eu. E a senhora fique informada que relatarei, pois isso não se faz, senhora.

― Eu quero mais panetone!

― Tenha dó! A senhora está fingindo que não escuta. Porque expor paciente a ataque de saúva é uma falta grave, é insubordinação que a chefia vai ter que punir.

― Quero panetone.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de dezembro de 2024.

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