terça-feira, 3 de dezembro de 2024

Contas soltas

 

Contas soltas

 

Mesmo neste meu dia a dia sem desgraças apocalípticas, sou lento. Quando ocorre algo súbito, levo um tempo para perceber o quanto isso me afeta. Até quando afetado, digiro lentamente o fato. Amargamente magoa-me esta digestão bovina. E não sou tão somente pachorrento, sou frágil. Vulnerável à acidez que destilo em mim, perco o tempo que preciso para entender o que se passa comigo. Nauseado e vagaroso, procuro conter-me, não quero afetar os outros com o que nem sei bem o que sinto. Pelo que sinto, não compreendo como eu próprio me afeto. Retraio-me. Embora isso incentive que me chancelem procrastinador, tergiversador ou sei lá o que mais, mereço ser chamado pelo que seja. Embora não concorde que zoem, tirem sarro, gozem de mim, rio, pois não sou banana.

Se é para descascar o abacaxi, eu me descasco.

Acordei inspirado. Tanto me alegrei que vou contar a ideia que tive sem medo de que a achem uma coisa boba. Quero opiniões. Embora avacalhem, ainda assim vou compartilhá-la. Mesmo que não seja algo novo, vou avaliar as contribuições, pesá-las, atribuir-lhes pesos.

Como as pessoas têm visões diferentes sobre qualquer coisa, serei o árbitro, afinal fui eu que tive a ideia. Por meu livre e soberano desejo, tomarei para mim a função de juiz. Quando houver de bater o martelo, baterei. Quanto a perseverar ou a desistir, cabe a mim dizer que sim e que não, afinal eu fio que a cabeça é minha.

A primeira casca... Retiro-a e jogo-a no caminho. Se nela eu patinar, será descartável por verde, só me conterei um instante, a aprumar-me. Quando ao topá-la eu cair às cambalhotas, vou mastigá-la e saboreá-la pelo sumo que tenha a ofertar-me, como fruto apetecível.

― Viver é aprender a morrer.

― Sim! Segundo Montaigne, viver é aprender a morrer.

Depois de hoje, 03/12/2024, não farei contas de cabeça, buscarei na rede os números exatos.

Sem ter o que ocultar, emendo que, desde o 01/11/1963, houve 16 anos bissextos, vivi 61 anos, um mês e três dias. Ou seja, não tenho a menor ideia de quantas vezes respirei nos meus 22.314 dias de vida. Ou seja, sei que, somando choro e riso, não guardei a maior parte dos 32.132.160 minutos computados. Ou seja, a cachola apagou muito lixo de um bilhão, novecentos e vinte e sete milhões e novecentos e vinte e nove mil e seiscentos segundos.

Em outras palavras, percebo o que minha cachola sente, pressente e, bem pouco, antevê: ou o mundo vaga no cosmo como um submarino boia no espelho do mar ou alambrados cercam quadras, asfalto leva a haras e, no churrasco só de picanha, os convivas oram de boca cheia.

Quando sobra desespero, sigo a nadar, nadar e nadar.

― Viver é aprender a nadar.

― Não! Viver é lutar para não se afogar.

E não inventarei de enfiar a fuça na água do vaso sanitário. Não me testarei. Prefiro saber o quanto eu aguento; só não pretendo aprender a respirar na luz do rio.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de dezembro de 2024.

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