Bom
coração
Tudo é simples quando há confiança,
mesmo o mundo é um palco, até a vida, que depende de fios, mãos e mentes para
ser esplendorosa, mesmo nas coxias, a vida apresenta-se como oportunidades.
Com o amadorismo de quem ama o que faz,
apesar do salário bom que possa ser entendido como merecidamente cabível, é salutar
situar-se, é oportuno estar apto a improvisações, a palpitações.
Como pessoa que entende que viver é
atuar de modo espontâneo, fazendo a barba eu percebi: o frescor da alvorada não
sussurrou nada, nem o diálogo que poderia ter começado a crônica.
― Qual a tua graça?
― Não tenho nenhuma graça.
― Por Deus! Como te chamam, cavalheiro?
― É piada? Como não tenho onde cair
morto, é piada de mau gosto achar que tenho um potrinho pra cavalgar por aí.
― Como és parvo! Pergunto-te, criatura,
qual o nome que teus pais deram-te à pia batismal?
― Nossa Senhora! O senhor está dizendo
que preciso tomar banho por que estou fedido?
Tudo é simples quando há método: ler
cuidadosamente; ler sem as precipitações de quem já sabe o que está lendo; como
João Cabral, ler deixando que boiem as palhas, voltando-se sobre o que, pelo
peso da própria substância, permanece no fundo; com olhos libertados do brilho do
que corre efêmero, fazer-se à leitura.
Cuidando para não cortar o rosto, acabei
rapidamente a barba, pois os cães não paravam mais de latir.
Sobre o telhado da casa eu vi: um homem
de boné examinava telha por telha, fileira por fileira; checando aquela água,
ele tirou, uma a uma, aquelas trincadas, as necessitadas de serem substituídas.
Quando o homem tirou o boné para enxugar
a testa com a barra da camiseta, vi que era o Luisinho.
Ele acenou, eu acenei. Ele voltou a
trabalhar, eu vim trabalhar.
Digitando as frases, senti que poderia
melhorar o que havia escrito nas fichas que uso para rabiscar; no impulso de
registrar o pensamento enquanto penso, rabisquei-as.
Embora eu escrevesse sem pensar no
absurdo que é viver um dia depois do outro como se houvesse lógica a
preparar-me para a morte, não me desesperei de cortar, trocar, recuperar a
palavra cortada, trocar novamente, que isso me é corriqueiro.
Então, o Luisinho do boné vermelho com
uma estrela amarela, um daqueles que poderia ter saído de alguma propaganda
maoísta, então, o Luisinho poderia vir conversar.
Serenamente:
― Se eu fosse a Dona Cremilda, chamava
quem entende da coisa, pois o que o telhado da casa dela está precisando é de
ser trocado por inteiro. Pois o que posso dizer, com muito pesar no coração, é
que não vai ser trocando uma dúzia de telhas que as goteiras vão sumir.
― Disse isso a ela, Luisinho?
― Ela é minha amiga, é nossa amiga, né?
― Quer dizer que recolocou as telhas, e
tudo bem?
― Ela não pediu pra comprar telhas novas,
então, eu recoloquei as telhas, mas usei sacolinha pra embrulhar cada uma.
― Cara, sua sabedoria é espantosa.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 17 de dezembro de 2024.
Nenhum comentário:
Postar um comentário