terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Bom coração

 

Bom coração

 

Tudo é simples quando há confiança, mesmo o mundo é um palco, até a vida, que depende de fios, mãos e mentes para ser esplendorosa, mesmo nas coxias, a vida apresenta-se como oportunidades.

Com o amadorismo de quem ama o que faz, apesar do salário bom que possa ser entendido como merecidamente cabível, é salutar situar-se, é oportuno estar apto a improvisações, a palpitações.

Como pessoa que entende que viver é atuar de modo espontâneo, fazendo a barba eu percebi: o frescor da alvorada não sussurrou nada, nem o diálogo que poderia ter começado a crônica.

― Qual a tua graça?

― Não tenho nenhuma graça.

― Por Deus! Como te chamam, cavalheiro?

― É piada? Como não tenho onde cair morto, é piada de mau gosto achar que tenho um potrinho pra cavalgar por aí.

― Como és parvo! Pergunto-te, criatura, qual o nome que teus pais deram-te à pia batismal?

― Nossa Senhora! O senhor está dizendo que preciso tomar banho por que estou fedido?

Tudo é simples quando há método: ler cuidadosamente; ler sem as precipitações de quem já sabe o que está lendo; como João Cabral, ler deixando que boiem as palhas, voltando-se sobre o que, pelo peso da própria substância, permanece no fundo; com olhos libertados do brilho do que corre efêmero, fazer-se à leitura.

Cuidando para não cortar o rosto, acabei rapidamente a barba, pois os cães não paravam mais de latir.

Sobre o telhado da casa eu vi: um homem de boné examinava telha por telha, fileira por fileira; checando aquela água, ele tirou, uma a uma, aquelas trincadas, as necessitadas de serem substituídas.

Quando o homem tirou o boné para enxugar a testa com a barra da camiseta, vi que era o Luisinho.

Ele acenou, eu acenei. Ele voltou a trabalhar, eu vim trabalhar.

Digitando as frases, senti que poderia melhorar o que havia escrito nas fichas que uso para rabiscar; no impulso de registrar o pensamento enquanto penso, rabisquei-as.

Embora eu escrevesse sem pensar no absurdo que é viver um dia depois do outro como se houvesse lógica a preparar-me para a morte, não me desesperei de cortar, trocar, recuperar a palavra cortada, trocar novamente, que isso me é corriqueiro.

Então, o Luisinho do boné vermelho com uma estrela amarela, um daqueles que poderia ter saído de alguma propaganda maoísta, então, o Luisinho poderia vir conversar.

Serenamente:

― Se eu fosse a Dona Cremilda, chamava quem entende da coisa, pois o que o telhado da casa dela está precisando é de ser trocado por inteiro. Pois o que posso dizer, com muito pesar no coração, é que não vai ser trocando uma dúzia de telhas que as goteiras vão sumir.

― Disse isso a ela, Luisinho?

― Ela é minha amiga, é nossa amiga, né?

― Quer dizer que recolocou as telhas, e tudo bem?

― Ela não pediu pra comprar telhas novas, então, eu recoloquei as telhas, mas usei sacolinha pra embrulhar cada uma.

― Cara, sua sabedoria é espantosa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de dezembro de 2024.

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