Estrela
que luz
Aquele amigo que havia décadas você não
via, mas a consulta será em cinco minutos. Aquela advogada que põe urgência em
falar contigo, mas o piriri nunca tem hora que convenha. A mãe, o pai, o avô, a
tia, a prima, um primo e outro, esse mundaréu aguarda aquela manifestação precisa
da pessoa que seja honesta e confiável, e você não tem como se recusar a
manifestar-se honestamente confiável.
Ao psiquiatra você culpa o telefone sem
bateria que lhe impediu de chamar um carro de aplicativo, e o doutor sabe que
ônibus não é torre de celular que, pela multiplicação pela cidade toda, nunca
falha.
À advogada você não fala nada sobre roupas
de baixo, porque ela sabe que, ainda bem, cheiro algum é transmitido pelo
telefone.
Ao pai, à mãe, ao vovô, à tia, aos
primos, a toda essa cambada que sabe como influenciar-lhe a dizer o que se
espera de alguém que tem a palavra certa pro momento certo, você nunca é
decepcionante.
As palavras não lhe faltam e tudo bem, porque
o mundo precisa de gente que nem você, que é pessoa a quem confiar fraquezas, a
quem não é nenhum disparate cobrar responsabilidade, porque você é gente a quem
não é estupidez alguma exigir que colabore naturalmente para a melhoria da vida
de todo mundo.
Não se recrimine por não conseguir dizer
besteiras, fazer bobagem ou sentir-se uma pessoa falsa, hipócrita e cínica,
mesmo porque você não tem tempo para insultar-se, rebaixar-se, refletir.
Trabalhe. Havendo cansaço, não desista.
Seja prudente, não pense no corpo que se há de cansar mais rapidamente se você
sentir que não conseguirá terminar o que tem para fazer.
Para que sua pessoa não seja vista como
desmazelada, dê atenção à carga sobre seus ombros, reconheça a assinatura como
sendo a sua, honre o sangue que faz você ser quem é.
Quando beber, beba uma taça, não uma
garrafa. Haja moderação, a Terra voltará a se aproximar do Sol. Não extrapole, o
planeta voltará a distanciar-se do Sol. Sendo a estrela que é, o Sol seguirá a
resfriar-se. Independentemente de você teimar que uma garrafa não prejudica
ninguém, haverá dias, noites, e as quatro estações.
Lute consigo como se lutasse com a
sombra que mostra a você que o Sol brilha, que a lâmpada está acesa, que a sua
imaginação fantasia que você está sonhando, está vencendo, está andando a sete
palmos do chão, porque, enfim, você continua comendo cru.
A sete palmos do chão prossiga na sua
jornada, siga na caminhada, vá adiante, levite como quem sonha ter asas,
sinta-se angelical, seja o anjo que você pode ser, seja potente e atuante,
faça-se veículo a quem reclama que o trigo seja transformado em macarrão, faça-se
utilitário a quem demanda que o trânsito esteja leve.
Sendo o outro que possa ser, não perca a
fleuma ao mergulhar no abismo, pois quem faz o bem não há de fazê-lo por mal.
Com o rou-rou-rou a lhe atiçar em Santa,
que a sua pança arda.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 24 de dezembro de 2024.
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