terça-feira, 24 de dezembro de 2024

Estrela que luz

 

Estrela que luz

 

Aquele amigo que havia décadas você não via, mas a consulta será em cinco minutos. Aquela advogada que põe urgência em falar contigo, mas o piriri nunca tem hora que convenha. A mãe, o pai, o avô, a tia, a prima, um primo e outro, esse mundaréu aguarda aquela manifestação precisa da pessoa que seja honesta e confiável, e você não tem como se recusar a manifestar-se honestamente confiável.

Ao psiquiatra você culpa o telefone sem bateria que lhe impediu de chamar um carro de aplicativo, e o doutor sabe que ônibus não é torre de celular que, pela multiplicação pela cidade toda, nunca falha.

À advogada você não fala nada sobre roupas de baixo, porque ela sabe que, ainda bem, cheiro algum é transmitido pelo telefone.

Ao pai, à mãe, ao vovô, à tia, aos primos, a toda essa cambada que sabe como influenciar-lhe a dizer o que se espera de alguém que tem a palavra certa pro momento certo, você nunca é decepcionante.

As palavras não lhe faltam e tudo bem, porque o mundo precisa de gente que nem você, que é pessoa a quem confiar fraquezas, a quem não é nenhum disparate cobrar responsabilidade, porque você é gente a quem não é estupidez alguma exigir que colabore naturalmente para a melhoria da vida de todo mundo.

Não se recrimine por não conseguir dizer besteiras, fazer bobagem ou sentir-se uma pessoa falsa, hipócrita e cínica, mesmo porque você não tem tempo para insultar-se, rebaixar-se, refletir.

Trabalhe. Havendo cansaço, não desista. Seja prudente, não pense no corpo que se há de cansar mais rapidamente se você sentir que não conseguirá terminar o que tem para fazer.

Para que sua pessoa não seja vista como desmazelada, dê atenção à carga sobre seus ombros, reconheça a assinatura como sendo a sua, honre o sangue que faz você ser quem é.

Quando beber, beba uma taça, não uma garrafa. Haja moderação, a Terra voltará a se aproximar do Sol. Não extrapole, o planeta voltará a distanciar-se do Sol. Sendo a estrela que é, o Sol seguirá a resfriar-se. Independentemente de você teimar que uma garrafa não prejudica ninguém, haverá dias, noites, e as quatro estações.

Lute consigo como se lutasse com a sombra que mostra a você que o Sol brilha, que a lâmpada está acesa, que a sua imaginação fantasia que você está sonhando, está vencendo, está andando a sete palmos do chão, porque, enfim, você continua comendo cru.

A sete palmos do chão prossiga na sua jornada, siga na caminhada, vá adiante, levite como quem sonha ter asas, sinta-se angelical, seja o anjo que você pode ser, seja potente e atuante, faça-se veículo a quem reclama que o trigo seja transformado em macarrão, faça-se utilitário a quem demanda que o trânsito esteja leve.

Sendo o outro que possa ser, não perca a fleuma ao mergulhar no abismo, pois quem faz o bem não há de fazê-lo por mal.

Com o rou-rou-rou a lhe atiçar em Santa, que a sua pança arda.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de dezembro de 2024.


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