domingo, 8 de dezembro de 2024

Encurralado

 

Encurralado

 

Embora morto, Jean-Luc Godard fez aniversário em 03/12.

Sem maiores profundidades na observação, considero que a morte não serve para barrar o tempo, nem pros mortos; afinal, ela não impede que um ano a mais seja acrescido à existência de qualquer pessoa, ou calendários e folhinhas deixariam de ser fabricados e comercializados com êxito e sucesso.

A respeito destas e daqueles: ao contabilizar a passagem do tempo, são exitosos; por sua disseminação como necessidade de atualização coletiva, obtêm sucesso.

Todo mundo e você sabemos que o fluxo não conhece interrupção; o tic-tac flui até para aniversariante que continua morto.

Cessaria se houvéssemos esquecido?

Esquecer não é dar a memória como sepulcro.

Dói-me ainda a falta e a ausência da Gertrudes, o jabuti que deveria ter sido cuidado como se fosse parte de mim, pois, afinal, passou a sê-lo desde que o bichinho, embora eu transitasse por meus dias de guri, veio pachorrar no mundinho que era tão meu.

Uma vez que o garoto que eu fui nunca mais sumiu dentro de mim, agora percebo que a criança que brinca com as ideias gosta de ter fé na vida, de ter razão para crer na fé ou de dar realidade ao mundo, até àquele supostamente inacessível, feito abismo eternamente escondido a impulsionar-me, a pulsar nas entrelinhas.

Tudo que pulsa, produz energia ― perceptível pelo calor, auferível pela luz, sensível porque inteligível.

Sinto, logo entendo?

Entendo-me pouco, até mesmo no pouco que vaga pulsante entre as palavras, os silêncios e as minhas perplexidades.

Sinto, logo me afeiçoo ao que percebo.

Convenhamos, você e eu sabemos o quão problemático é afeiçoar-se a quem nos trai; pois é, a punhalada mais dolorosamente sentida é a desferida por quem, invocando a ética e os bons fluidos que nós tanto carecemos, desdenha da pessoa que somos.

Menino, jovem, adulto ou velho ― a essa gente que nos menoscaba pouco importa por qual fase da vida passamos, que tenhamos nossas dificuldades, que mais choramos do que nos alegramos; a eles importa o que estamos dispostos a conceder.

Contudo, minha gente, arrancar as asas da içá não a regenera em formiga, fá-la içá morta.

Godard morto não é içá morta, suas asas ainda batem; embora este escriba não venere saúvas a ponto de fritá-las, o petiz ainda gosta de ter comido bundinhas.

Meus amigos e eu íamos atrás das içás, estivessem na pracinha do Fórum, no coreto da Capelinha, nas ruelas do cemitério.

Sim, a nós outros que corríamos pelo que desejávamos, o cemitério não era sagrado pelo que rezavam as lápides, era-nos um éden pelas suculentas içás.

Caríssimo Jean-Luc, componho contigo quando você diz: “não é a consciência do homem que determina sua existência. É sua existência que determina sua consciência”.

Janela sobre a saudade, aquelas bundinhas provam: feito bundão, eu mesmo estou frito.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de dezembro de 2024.

Nenhum comentário:

Postar um comentário