Encurralado
Embora morto, Jean-Luc Godard fez
aniversário em 03/12.
Sem maiores profundidades na observação,
considero que a morte não serve para barrar o tempo, nem pros mortos; afinal, ela
não impede que um ano a mais seja acrescido à existência de qualquer pessoa, ou
calendários e folhinhas deixariam de ser fabricados e comercializados com êxito
e sucesso.
A respeito destas e daqueles: ao contabilizar a passagem do tempo, são exitosos; por sua disseminação como necessidade de atualização coletiva, obtêm sucesso.
Todo mundo e você sabemos que o fluxo
não conhece interrupção; o tic-tac flui até para aniversariante que continua
morto.
Cessaria se houvéssemos esquecido?
Esquecer não é dar a memória como sepulcro.
Dói-me ainda a falta e a ausência da
Gertrudes, o jabuti que deveria ter sido cuidado como se fosse parte de mim,
pois, afinal, passou a sê-lo desde que o bichinho, embora eu transitasse por
meus dias de guri, veio pachorrar no mundinho que era tão meu.
Uma vez que o garoto que eu fui nunca
mais sumiu dentro de mim, agora percebo que a criança que brinca com as ideias
gosta de ter fé na vida, de ter razão para crer na fé ou de dar realidade ao
mundo, até àquele supostamente inacessível, feito abismo eternamente escondido a
impulsionar-me, a pulsar nas entrelinhas.
Tudo que pulsa, produz energia ―
perceptível pelo calor, auferível pela luz, sensível porque inteligível.
Sinto, logo entendo?
Entendo-me pouco, até mesmo no pouco que
vaga pulsante entre as palavras, os silêncios e as minhas perplexidades.
Sinto, logo me afeiçoo ao que percebo.
Convenhamos, você e eu sabemos o quão
problemático é afeiçoar-se a quem nos trai; pois é, a punhalada mais
dolorosamente sentida é a desferida por quem, invocando a ética e os bons
fluidos que nós tanto carecemos, desdenha da pessoa que somos.
Menino, jovem, adulto ou velho ― a essa
gente que nos menoscaba pouco importa por qual fase da vida passamos, que tenhamos
nossas dificuldades, que mais choramos do que nos alegramos; a eles importa o que
estamos dispostos a conceder.
Contudo, minha gente, arrancar as asas
da içá não a regenera em formiga, fá-la içá morta.
Godard morto não é içá morta, suas asas ainda
batem; embora este escriba não venere saúvas a ponto de fritá-las, o petiz ainda
gosta de ter comido bundinhas.
Meus amigos e eu íamos atrás das içás,
estivessem na pracinha do Fórum, no coreto da Capelinha, nas ruelas do
cemitério.
Sim, a nós outros que corríamos pelo que
desejávamos, o cemitério não era sagrado pelo que rezavam as lápides, era-nos um
éden pelas suculentas içás.
Caríssimo Jean-Luc, componho contigo
quando você diz: “não é a consciência do homem que determina sua existência. É sua
existência que determina sua consciência”.
Janela sobre a saudade, aquelas bundinhas
provam: feito bundão, eu mesmo estou frito.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 08 de dezembro de 2024.
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