domingo, 29 de dezembro de 2024

Almoço grátis

 

Almoço grátis

 

Hoje não? Hoje sim.

É claro que irei almoçar com meus amigos. Só não iria ao encontro se houvesse calamidade pública ou um problema físico a impedir-me de ir encontrá-los. Ainda que o nosso almoço, no dia seguinte ao Natal, seja compromisso renovado automaticamente, vou tal qual uma pomba ― nas asas, levo a paz; o amor, levo no bico.

Já embebido no otimismo, que avento a quem sobreviver às festas deste finalzinho de ano, preparo-me, quero dizê-lo bem, pois sou capaz de manter a calma e mantendo-a, com algum esforço para evitar meus destrambelhos, pelejo comigo para soá-lo menos cafajeste.

Para comermos e bebermos sem rilhar facas, falaremos de política, religião e futebol. Se falássemos de família, discutiríamos, perderíamos amizade e vomitaríamos na esquina.

Uma vez que, todos, demos dinheiro e definimos o menu, bebemos e comemos sabedores de que a reunião seria mantida aprazível desde que nos ativéssemos às trivialidades, se permanecêssemos infensos a boçalidades, pois não nos adulamos com aplauso ou vaia, gostamos de beijos, abraços e presentes sorteados na hora.

Nós bebemos e banqueteamos e, por último mas sem importância menor, brindamo-nos, sim!, nós nos mimoseamos com livros.

Deztroços (de Nelson Cruz) foi para o Aristeu; Antologia Pessoal (de Dalton Trevisan) foi para o Domingos; Sempre Repórter (de Lilian Ross) foi para o Luisinho; O Mestre e Margarida (de Mikhail Bulgakov) foi para a Dona Cremilda; já A Cidade das Mulheres (de Christine de Pizan) veio para mim.

Amanhã talvez? Amanhã certamente.

Já na calçada, combinamos de trocar os livros. Depois de abraços e beijos, combinamos de comentarmos as nossas leituras.

Ontem ninguém sabe? Ontem eu mesmo é que soube.

Indo à livraria para comprar, como sempre em cima da hora, o livro que precisaria entregar a amigo nada oculto, adiei a compra.

― Moço, me paga um almoço?

― Se importa se almoçarmos juntos?

Entramos e fizemos nossos pratos e pedimos nossos refrigerantes: ela, Coca; eu, guaraná. Observados pelas outras mesas, sentamo-nos fora, na varanda.

Entre uma garfada e outra:

― Você é de onde?

― Não sou daqui. Sou da divisa da Bahia com Minas.

― É mesmo? De que estado você é?

― Caramba que eu já disse! Sou da divisa da Bahia com Minas.

Entre um golinho e outro:

― E se acostumou com a cidade? Aqui faz muito frio, né?

― Trinta graus é frio? Pelo Cristo! Com um calor desses, vou passar o Ano Novo na praia.

― Que bom! E onde você vai ver a queima de fogos?

― Que aperreação! Como não sou besta, vou pular as sete ondas, porque não tem cabimento tomar banho de piscina.

Embora os abelhudos seguissem de orelha em pé:

― Quer sorvete ou cafezinho?

― Sorvete? Quero pudim! Casquinha eu vou ter na ilha.

― Ô coisa boa! E vai pra qual ilha?

― Pra Ilha Comprida, claro! E já arrumei carona. O duro é aguentar o papo de pobre ser tudo comunista.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de dezembro de 2024.

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